Crítica | Gilda

É bem fácil reconhecer os principais elementos narrativos do film-noir, com seus personagens enigmáticos, de moral duvidosa, e a atmosfera carregada de tensão e violência. Por mais que consiga ir de filmes como O Terceiro Homem até Blade Runner, é um gênero que sofreu uma certa saturação, assim como o western, e com o tempo ficou difícil conseguir com que uma obra realmente se destaque, mas alguns acabam se tornando clássicos e indispensáveis para qualquer um que queira entender melhor o gênero. Um desses clássicos é Gilda, dirigido por Charles Vidor.

No filme, seguimos o trapaceiro Johnny Farrell (Glenn Ford). Viciado em jogos de azar e mestre das cartas, conhece o misterioso Ballin Mundson (George Macready), o dono de um famoso clube que esconde um cassino ainda mais movimentado. Ballin salva sua vida de um assaltante e Johnny, usando de sua inteligência e sagacidade, retribui o favor mostrando que é a melhor pessoa para trabalhar no cassino. Não demora muito para que consiga a confiança do seu patrão, mas sua sorte está para acabar depois de descobrir que a mulher de Ballin, Gilda (Rita Hayworth), já fez parte de seu passado.

Ambientado na Argentina, em uma época em que cassinos eram proibidos no país, o longa traz uma trama cercada de traição e desconfiança. O preto e branco toma conta da película, o que acabou virando uma das maiores particularidades do film noir (não que seja necessário, mas não posso negar que contribui bastante para a atmosfera). Mas tem uma característica importante que destaca esse filme e pode ser encontrada na figura da mulher sedutora e misteriosa que brinca com as emoções do protagonista, muitas vezes chamada de femme fatale. Aqui temos ninguém menos que uma das atrizes mais belas da Hollywood clássica, Rita Hayworth. E se você tem uma estrela como ela, é compreensível que este seja o foco do seu filme.

Rita entrega uma performance impressionante. Ela está tão confortável no papel e possui um charme tão grande, que cria as sequências mais memoráveis, como a cena que acabou se tornando a mais icônica do filme, onde ela canta Put the Blame on Mame e tira suas luvas para seduzir a platéia do cassino. Mas merece destaque o carismático Glenn Ford, esperto e de postura convencida, traz um humor sarcástico e leveza para o longa, que ganha um peso mais dramático em sua segunda metade. O elenco também tem Joseph Calleia e Steven Geray, os dois com personagens interessantes e envolventes. Já George Macready, que deveria interpretar um homem mais sério e ameaçador acaba saindo um pouco mais caricato que o necessário. Ainda assim, as conversas entre Johnny e Ballin são algumas das melhores linhas de diálogo do filme.

Em uma época onde o conteúdo sexista era ainda mais comum no cinema, Gilda levanta o debate sobre a misoginia em volta de todo o conceito envolvendo a personagem que dá nome ao filme. É uma infelicidade que toda a crítica e este foco na fragilidade masculina e a forma que as mulheres são tratadas em produções do gênero é abandonada quase que por completo no seu terceiro ato, que cai na armadilha do melodramático e previsível.   

Além disso, é compreensível que a influência do expressionismo alemão esteja presente na concepção visual e toda sua fotografia, mas alguns dos enquadramentos mais exagerados podem distrair de forma negativa. Em certo momento temos dois personagens conversando sobre negócios não resolvidos e a forma como um deles está absurdamente pequeno em comparação ao outro acaba deixando tudo um pouco mais ridículo. Se a intenção foi criar uma sensação de imponência, não conseguiu.

No fim, Gilda é um clássico que mesmo com algumas ressalvas, se sustenta com o tempo e justifica sua fama com personagens atraentes, cenas e diálogos memoráveis e uma história que diverte, emociona e sabe quando é hora de falar sério.

Gilda — EUA, 1946
Direção:
 Charles Vidor
Roteiro: Marion Parsonnet
Elenco: Rita Hayworth, Glenn Ford, George Macready, Joseph Calleia,  Steven Geray, Joe Sawyer, Gerald Mohr, Mark Roberts
Duração: 110 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie