Crítica | Girlfriend’s Day

estrelas 2,5

Quando falamos de cinema é bastante comum vermos um ator que acaba ficando preso ao seu papel de maior destaque, com seus trabalhos posteriores sempre refletindo aquela icônica representação. Jack Nicholson, Robert De Niro, Johnny Depp são alguns desses que, por escolha ou não, passaram a, em geral, viver a mesma personalidade, com algumas exceções, claro. Naturalmente que isso não necessariamente tem a ver com o talento do ator, já que o diretor pode ter escolhido tal profissional já com esse traço em mente. Além disso, é preciso levar em conta a imagem que o público construíra em sua mente quando se trata de tais pessoas – como desvincular, por exemplo, Leonard Nimoy de Spock? O mesmo acontece quando lidamos com Bob Odenkirk, o eterno Saul de Breaking BadBetter Call Saul e isso, evidentemente, afeta nossa percepção de Girlfriend’s Day, filme da Netflix protagonizado pelo ator.

Já começa que a trama apresenta algumas similaridades com a série mais recente de Vince Gilligan. Ray (Odenkirk) é um escritor de cartões comemorativos, especificamente os mais românticos (dia dos namorados e afins). Passando por um longo bloqueio de escritor, ele acaba perdendo seu emprego e, sem ter nem mesmo como pagar o aluguel, ele aceita o trabalho de fazer um cartão para o novo feriado decretado, o dia das namoradas, que garante o título do filme. Mal esperava ele, porém, que acabaria se envolvendo em uma perigosa competição, com os figurões da indústria fazendo de tudo para ganharem o concurso estabelecido pela prefeitura, de quem faria o melhor cartão.

Girlfriend’s Day compartilha inúmeras características com O Grande Lebowskidos irmãos Coen. A obra exibe similares traços de ironia, além de acontecimentos inesperados e inusitados, claramente ampliando questões banais a fim de construir sua comédia de absurdos. O próprio Ray é colocado em uma posição praticamente idêntica ao The Dude, sendo conduzido por figuras misteriosas que parecem ter esquecido que tudo aquilo está acontecendo por causa de um simples cartão. De fato, apesar das inevitáveis comparações, o roteiro de Eric Hoffman, Bob Odenkirk e Philip Zlotorynski consegue nos manter atentos ao desenvolver da trama em razão justamente desse ar inusitado, mas tecer comparações com uma obra dos Coen sempre é algo perigoso, já que nos lembrará da genialidade dos dois, que não é transposta aqui.

Não ajuda o fato, já citado, de que olhamos para Ray e enxergamos unicamente Saul e outro realizador incomparável é ninguém menos que Vince Gilligan. Odenkirk chega a exibir traços diferentes em sua personalidade, além de reações que fogem do que vimos no seu papel de maior destaque. Apesar disso, seu personagem apresenta muitos pontos em comum com aquele de Breaking Bad/ Better Call Saul, o que não quer dizer que ele seja limitado, apenas que foi escolhido justamente por isso. O problema se agrava quando levamos em consideração que a série protagonizada por ele próprio ainda está sendo exibida.

Michael Stephenson, ainda no início de sua carreira de diretor, sendo essa a sua primeira obra de ficção, demonstra dificuldade em dirigir as sequências de ação. Seus enquadramentos estáticos funcionam perfeitamente, transmitindo um ar de ironia através das centralizações dos personagens, mas as cenas agitadas soam artificiais, ao ponto que um soco desferido claramente não chega a encostar no outro ator. Os cortes súbitos, os quais, por vezes, confundem o espectador, também não ajudam, deixando bem claro que Stephenson ainda luta para lidar com a linguagem do cinema de ficção.

Todos esses problemas, contudo, não nos impedem de nos divertir com Girlfriend’s Day, um filme que entretém apesar de permanecer às sombras de gigantes. Odenkirk, essencialmente, vive uma variação de Saul, seja pelo nosso olhar afetado pelo seu outro trabalho, ou pela própria escolha dos realizadores, que o caracterizam de maneira muito similar ao eterno advogado malandro. Com fortes traços de O Grande Lebowski esse é um filme que, eventualmente, cairá no esquecimento, deixando a influência de seus predecessores aparecer de forma muito evidente.

Girlfriend’s Day — EUA, 2017
Direção:
 Michael Paul Stephenson
Roteiro: Eric Hoffman, Bob Odenkirk, Philip Zlotorynski
Elenco: Bob Odenkirk, Amber Tamblyn, Stacy Keach, Alex Karpovsky,  Kevin O’Grady, Rich Sommer, Larry Fessenden, Natasha Lyonne, Andy Richter
Duração: 65 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.