Crítica | Gladiador

estrelas 3,5

“Meu nome é Máximo Décimo Merídio, comandante dos exércitos do norte, general das Legiões Félix… servo leal do verdadeiro Imperador, Marcus Aurelius. Pai de um filho assassinado, marido de uma esposa assassinada. E terei minha vingança, nesta vida ou na próxima.”

Contém spoilers.

O general Máximo (Russell Crowe) lidera seu exército contra os invasores bárbaros, enquanto Cômodo (Joaquin Phoenix), filho do César, anseia o trono tendo em vista que seu pai, velho, já enxerga o seu próprio fim. As divergências ocorrem quando Marco Aurélio (Richard Harris) opta por Máximo como seu sucessor, causando ira e tristeza a Cômodo. Em uma conversa extremamente franca, e melancolicamente tocante, Marco Aurélio notifica seu filho de sua decisão, lamentando não ter sido um pai melhor. Dando parênteses à ótima performance de Richard Harris, o que acontece a seguir é o assassinato de Marco pelo seu próprio filho, o qual, possesso de ciúmes, ainda ordena o fim de Máximo e de sua família.

O escravo, tomado pela impotência de ter deixado sua família morrer, a tristeza de não ter mais ninguém a recorrer, e a fúria por aqueles que ousaram traí-lo, começa a treinar como gladiador, após ter sido vendido para Próximo (Oliver Reed). Enquanto cria vínculos com outro guerreiros, sua jornada é revitalizada quando este é encorajado por seu próprio treinador em participar dos novos jogos de gladiadores que ocorrerão no Coliseu. O pão e circo romano é bem delineado pelo roteiro que coloca Cômodo em um impasse político, tendo que conseguir apoio populacional através da ignorância, medida minuciosamente e cedida de bom grado a um povo alienado.

O gladiador, investido no sentimento de vingança, consegue vitórias expressivas na arena, até mesmo se revelando para Cômodo, em uma cena épica, talvez já passível da designação de clássica. No entanto, sem poder matá-lo, pois tal ato tornaria o homem um mártir, Cômodo começa a articular – em meio a muitas crises de loucura, pontuadas pela sua relação incestuosa com Lucila (Connie Nielsen) – a quebra de descrença do povo sobre Máximo, enquanto o gladiador recebe nas figuras de Cícero (Tommy Flanagan) e Graco (Derek Jacobi) fortes aliados em sua missão de fazer o reinado ilegítimo de Cômodo cair, e se instaurar como Marco Aurélio quisera, uma Roma Republicana.

As inconsistências históricas são vastas e isso pode ser uma ostensiva problemática para o espectador. O roteiro brinca com diversos acontecimentos reais, entrelaçando-os de uma maneira pouco fidedigna. Por exemplo, além de Máximo ser um personagem fictício, Marco Aurélio nunca baniu realmente os jogos de gladiadores em Roma. Essa é uma questão grave pois quebra totalmente a caracterização do personagem, que no filme é clamado de sábio por Próximo devido a tal feito – na realidade, inexistente. O curioso é que assim como acontece com Cômodo no filme, o verdadeiro fora também assassinado por um escravo; este no entanto de nome Narciso, e não dentro do Coliseu, mas dentro de um ambiente muito menos honroso: no banho. Também toma-se outras diversas liberdades poéticas pelos roteiristas, como por exemplo o fato de que a morte de Cômodo nunca realmente resultou no retorno da Roma Republicana, e que tal nunca fora um desejo de Marco Aurélio, novamente ficticiamente mitificado pela indústria cinematográfica.

Mediante o entendimento da realidade do Império Romano, prossegue-se a análise da obra em seu aspecto interpretativo. Diante da perda de sua família, poucos atores conseguem se comprometer no pesar como Russel Crowe consegue, tendo em vista a sutileza dos planos de Ridley Scott. A imponência e carisma do ator exercem funções cruciais na crença do público na possibilidade de sua vitória e na capacidade de sua vingança. A revelação da sua persistência vívida à Cômodo é deveras gratificante, com seu discurso sendo digno de salvas de palmas calorosas. Já Joaquin Phoenix é menos hábil, e apesar de conseguir transmitir uma execrabilidade imperdoável nas suas chances em tela, falta mais momentos do enredo capazes de trazerem um César nefasto e insano como o próprio roteiro – e a história – sugerem.

A computação gráfica utilizada na ambientação de Roma pode ser prejudicada na contraposição com os elementos verídicos das filmagens. Na criação dos tigres digitais, todavia, ela se mostra eficiente, estando ultrapassada pela passagem do tempo, mas suficientemente crível. A trilha sonora de Hans Zimmer e Lisa Gerrard é um espetáculo a parte, garantindo ainda mais grandiosidade às sequências de ação. O combate de abertura, apesar de ser guiada epicamente, demonstra uma fragilidade de Ridley Scott em posicionar o espectador plenamente consciente no meio do cenário de guerra. A presunção da intencionalidade do diretor, como uma das justificativas para tal desordem para o público, ainda não redime a sequência por completo, soando-se como uma recriação exagerada de uma confusão premeditada.

A ótima presença de Próximo é infelizmente conturbada pelo infeliz falecimento do ator Oliver Reed durante as gravações. O encerramento de seu arco soa apressado, e definitivamente foi, visto que ainda faltavam cenas a serem gravados. Independente das causas de seu falecimento, o ator ainda sim consegue imprimir uma segurança acessível, mesmo que nas condições de senhor de escravos seja difícil por um intérprete tornar seu personagem relacionável ao público. O parceiro leal de Russel Crowe nas arenas, Juba (Djimon Hounsou) tem seu triste background exposto de modo simples, pobre em meios narrativos, mas é apreciável o fim que toma seu personagem, em uma oposição dos desejos que ele tem, e do que ele acredita ser seu futuro, com as metas perseguidas e a jornada trilhada por Máximo.

Diante do áspero cenário visceral, há ainda bastante espaço para a poesia. O longa abre com uma belíssima cena na qual Máximo encontra-se rodeado por uma imensidão de flores, deslizando sua mão por entre elas. A cinematografia contempla uma narrativa que encontra seu fechamento em uma alusão ao mesmo plano de abertura. Os jardins da eternidade surgem no arenoso cenário, enquanto um moribundo Máximo despede-se de Roma e do espectador após assassinar Cômodo, que em um ato de orgulho puro e manipulação política ilusória utilizava o gladiador como um combatente fragilizadamente vencível no intuito de alavancar a aceitação do povo sobre si. A pieguice pode ser uma interpretação deste novo cenário, com o general das Legiões Félix reencontrando em um novo plano sua família, contudo, remetendo à dor de outrora temos aqui uma necessária beleza confortante sendo exercida sobre nossos olhares.

O maior problema de Gladiador, enfim, resume-se em transformar eventos históricos em pano de fundo para a criação de um produto de plenas intenções comerciais. A direção de Ridley Scott não é extraordinária, porém, por outro lado, sua condução contribui para a exaltação de um elenco propositado em trazer para as telonas uma Roma Antiga acreditável. O roteiro acerta mais do que falha dando margem a uma história redonda e nem um pouco esquecível, com personagens louváveis e outros odiáveis. Seus efeitos especiais são funcionais, sua sonoridade impressionável e a sua trilha sonora grandiosa. Gladiador pode ter poucos cuidados baseados nos livros de história, mas funciona na medida certa como impressão ficcional de um tempo que nunca existiu – pelo menos não dessa maneira.

Gladiador (Gladiator, EUA – 2000)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: David Franzoni, John Logan, William Nicholson
Elenco: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Derek Jacobi, Djimon Hounsou, Richard Harris, David Schofield, John Shrapnel, Tomas Arana, Ralf Möller, Spencer Treat Clark, David Hemmings, Tommy Flanagan, Swen-Ole Thorsen
Duração: 171 min

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.