Crítica | Glória Feita de Sangue

estrelas 5

Na sequência que encerra Glória Feita de Sangue, o coronel Dax (Kirk Douglas) olha, desiludido, para dentro de um local de recreação dos soldados de seu batalhão. Eles estão rindo, mesmo depois dos excruciantes eventos que testemunharam e aguardando que uma moça chorosa (Susanne Christian, que, depois, viria a se casar com Kubrick, adotando o nome de Christiane Kubrick e ficando com ele por 40 anos, até sua morte) suba ao palco para, timidamente, cantar para eles. Nós, os espectadores, acompanhamos e compartilhamos dessa desilusão do coronel. E ver o batalhão rindo e se aproveitando de uma moça alemã que não tem escolha a não ser cantar para eles é como ver o fim do mundo. Temos certeza que a raça humana não tem mais jeito.

Mas, quando a canção triste começa, um a um os soldados param de gritar e assobiar. Eles passam, também vagarosamente, a acompanhar a canção, mesmo sem entender a letra e alguns a chorar. As ações do coronel Dax subitamente começam a fazer total sentido e o filme acaba. Nesse momento, sentimos que, por mais baixo que possamos chegar, por mais absurda que seja a situação, a raça humana é inerentemente sensível, bondosa e, sim, inocente, exatamente com o coronel Dax.

Para aqueles que não viram Glória Feita de Sangue, certamente essa introdução será críptica, mas não por muito tempo. O filme é a primeira obra-prima de Kubrick e, talvez, um dos filmes mais importantes já feitos, não só pela temática, mas, também, pela qualidade da produção e das técnicas de seu diretor. Do começo ao fim, em seus apertados 88 minutos, Glória Feita de Sangue é de um primor técnico irretocável.

A história é baseada em um romance homônimo (Paths of Glory) de 1935, escrito por Humphrey Cobb que, por sua vez, é inspirado por eventos reais, por mais aterradores que eles possam ser. Durante a Primeira Guerra Mundial, um batalhão francês comandado pelo coronel Dax é ordenado por seu superior, o General Paul Mireau (George Macready), a tomar o “Formigueiro”, posição alemã fortificada, do outro lado da Terra de Ninguém, entre trincheiras. A missão é absolutamente impossível e todos sabem disso. O resultado é que o batalhão falha, com muitos soldados morrendo e outros tantos nem mesmo saindo da relativa proteção de suas trincheiras.

O General Mireau, que tem uma promoção em vista e fora influenciado a ordenar o ataque pelo General George Broulard (Adolphe Menjou), prontamente estabelece uma Corte Marcial para levar a julgamento três soldados escolhidos pelos três comandantes das divisões que ficam hierarquicamente abaixo do coronel Dax. São três soldados aleatórios, levados à corte para dar exemplo à tropa. A acusação? Covardia.

Dax, como antes de ser militar era advogado criminalista, pede para ser o advogado de defesa, pois ele, inocentemente, tem esperança que o julgamento seja imparcial. Evidente que não é e as esperanças do espectador vão sendo dilaceradas pouco a pouco ao longo da projeção, sem que nada possa ser feito, nem mesmo por Dax.

O filme é um hino anti-belicista que nos mostra a futilidade, hipocrisia e injustiça da guerra em toda sua “glória”. Mas, talvez, mais importante que isso seja a confiança que ele passa sobre a raça humana, apesar de todos os pesares, esperança essa encapsulada na inesquecível cena final que descrevi no começo dessa crítica.

Stanley Kubrick comanda uma primorosa produção, que não se esquiva de mostrar a guerra em si. Os detalhes das trincheiras são impressionantes e a sequência em que vemos o coronel Dax marchando por ela ficou para a história. Kubrick usa um tracking-shot reverso que olha para Kirk Douglas e corre para trás e ele faz isso sem que nada trema, sem que um corte seja necessário. É uma sequência de tirar o fôlego e que é precedida por outra, não menos interessante, que mostra a mesma marcha, mas em primeira pessoa, como se a câmera fosse o próprio Dax.

Logo em seguida, Kubrick filma a cena do ataque ao Formigueiro, liderado por Dax, também de forma inesquecível. Em terreno absurdamente acidentado, ele faz um travelling lateral quase que integralmente sem cortes e a média altura que nos faz efetivamente  participar da impossibilidade do que está acontecendo. Vemos soldados caindo, Dax de revólver em punho avançando e explosões a cada dois segundos, além de intenso barulho de metralhadora. É a visão do inferno e que só chegaria perto de ser repetida no cinema por Steven Spielberg em O Resgate do Soldado Ryan.

Mas desde o comecinho da fita, pelas ações dos generais e a reação do general ao ataque, nós aprendemos que tomar o Formigueiro, pelo menos dessa forma, é absolutamente impossível. Mesmo assim, fica a dúvida. Será que eles conseguirão? Só que, passados 20 segundos desse angustiante travelling, nós sabemos que está tudo perdido, que eles não têm chance.

E um corte para o bunker do general Mireau, que observa tudo à distância e em total segurança, mostra que grande parte do batalhão de Dax mal teve chance de sair de sua trincheira. Isso enlouquece o general, que ordena que a trincheira de seus próprios soldados seja bombardeada, ordem essa que é desobedecida por seu executor, que exige uma ordem por escrito. Quem é o covarde, não é mesmo?

Além da técnica irretocável e de uma fotografia em preto e branco que mostra muito bem a escuridão nas trincheiras e a luz nos palácios dos oficiais, há que se falar do roteiro. O filme tem apenas 88 minutos e muita coisa acontece. A precisão dos diálogos e a montagem cirúrgica permitem que Kubrick insira mais informações relevantes nesse tempo do que muito filme de três horas de duração.

Cada trama paralela, cada detalhe da narrativa converge para um ponto só, que é o julgamento dos três soldados. O ato de covardia de Mireau, além de outro ato covarde mostrado mais cedo no filme envolvendo os soldados voltam mais para frente na fita em um inegável exercício de concisão e de uso da palavra. Nada é feito apenas por fazer. Tudo está lá por uma razão muito precisa, desde a apresentação de Dax como advogado até a canção em alemão ao fim.

O maior exemplo dessa economia e dessa precisão no roteiro talvez esteja na sequência do julgamento. Para começar, o filme muda de tom. Sai o “filme de guerra”, entra o “filme de tribunal”, os dois absolutamente equilibrados e críveis. Em seguida, vemos os procedimentos acelerados daquele tribunal ilegítimo e das tentativas fracassadas de Dax para virar a mesa. Corta e vemos o pelotão de fuzilamento sendo instruído por seu comandante sobre como será a execução no dia seguinte. Não vemos a sentença. Não vemos a reação de Dax ou dos prisioneiros quando são comunicados da decisão. Kubrick já havia nos apresentado o resultado no segundo em que Mireau estabelece a corte marcial. Não havia razão alguma para martelar o óbvio em nossas cabeças. Esse tipo de trabalho é cada vez mais raro de se encontrar no cinema atual, que peca por fazer questão de nos mostrar cada detalhe da progressão da trama, esquecendo-se que aquilo que não vemos talvez seja ainda mais aterrador em nossas mentes do que o que vemos.

E isso sem falar no uso da profundidade de campo total nas cenas envolvendo o julgamento e os palácios usados pelos oficiais. Sem palavras, vemos a crítica pesada à opulência e distanciamento de quem dá as ordens em comparação com o aperto e tensão daqueles que cumprem as ordens nas trincheiras. A profundidade de campo, que mantém em foco toda a cena, rostos em primeiro plano e o fundo das salas em segundo plano, funcionam para reiterar a frieza dos oficiais e o que eles acham de si mesmos.

Glória Feita de Sangue é como a canção em alemão que ouvimos ao final: triste, mas esperançoso; duro, mas bonito; complexo, mas perfeitamente compreensível. É Kubrick, ainda tecnicamente no começo de sua carreira, mostrando seu quase imbatível potencial.

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, EUA – 1957)
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Calder Willingham, Jim Thompson, Humphrey Cobb (romance)
Elenco: Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolphe Menjou, George Macready, Wayne Morris, Richard Anderson, Joe Turkel, Christiane Kubrick, Jerry Hausner, Peter Capell, Kem Dibbs, Timothy Carey, John Stein
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.