Crítica | GLOW – 2ª Temporada

  • spoilers. Leia, aqui, a crítica da temporada anterior.

Os anos 80 nunca estiveram tão em voga – vide Cobra Kai e Samantha! só para citar dois exemplos recentes – e GLOW é mais uma série que mina referências pop da época, além de, claro, o razoavelmente longevo e famoso (nos EUA) programa de luta livre feminina que permaneceu na televisão a partir da segunda metade da década até 1992. Mas a série do Netflix, que tem Alison Brie encabeçando o elenco formado praticamente de desconhecidos, oferece mais do que apenas uma fonte inesgotável de referências oitentistas com uma história sólida, por vezes surreal, mas sempre irresistível e atual.

Com cada personalidade bem estabelecida na 1ª temporada, a 2ª não perde tempo com introduções e já mergulha o espectador na briga das “belas damas da luta livre” por um lugar ao sol com um programa estranho, recebido com preconceito e produzido e transmitido por uma TV de pequeno alcance. Ainda que a temporada rateie um pouco em seu começo, em termos de personagens o conflito pessoal entre Ruth “Zoya the Destroya” Wilder (Brie) e Debbie “Liberty Belle” Eagan (Betty Gilpin) continua sendo o centro das atenções, mas, assim como Jenji Kohan (uma das produtoras de GLOW) fez com a excelente Orange is the New Black, outra série com um elenco eminentemente feminino e cheia de personalidades bem diferentes entre si, esse artifício narrativo, agora, abre espaço para que outros personagens ganhem algum destaque.

Com isso, não só vemos o agravamento e, de certa forma, a resolução dos problemas graves existentes entre Debbie e Ruth, como, também, um estudo bem temperado de cada uma delas separadamente, a primeira tendo que lidar com o divórcio e, a segunda, com sua aparente incapacidade de relacionar-se de maneira mais séria. Além disso, há um excelente foco em Tammé “The Welfare Queen” Dawson, que abre a oportunidade para Kia Stevens (lutadora de luta livre na vida real) provar-se dramaticamente com uma sub-trama envolvendo seu filho e seu próprio papel em sua carreira e surpreendentemente em Rhonda “Britannica” Richardson (Kate Nash), lidando com seu status de imigrante ilegal nos EUA, em um claro comentário social para não deixar o clima atual nos EUA sobre o assunto passar em branco.

Há também tempo para lidar com uma nova lutadora, Yolanda “Junkchain” Rivas (Shakira Barrera) que, com seu “nome artístico” deixa entrever, vem para substituir  as Cherry “Junkchain” Bang (Sydelle Noel) que, conforme visto ao final da temporada anterior, enveredara para o caminho do estrelado em uma série policial. Apesar dos curtos episódios, os roteiros não perdem Yolanda de vista e desenvolvem seu relacionamento com as demais mulheres – e uma em especial -, além de seu conflito inicial com Cherry. O elenco masculino também não é esquecido, muito ao contrário, com o grosseiro Sam Sylvia (Marc Maron) tendo que se “acostumar” com a vida de pai da adolescente Justine (Britt Baron) e sua crescente afeição ao seu trabalho no programa GLOW e, claro, à Ruth, mantendo aquela relação conflituoso ao ponto do abuso verbal, mas com um subtexto claramente romântico dando sabor à narrativa.

Até mesmo o vazio e avoado “milionário pobre” Sebastian “Bash” Howard (Chris Lowell) tem seus momentos não só mantendo sua empolgação e envolvimento com o programa, como passando a temporada inteira procurando seu mordomo Florian. Nesse aspecto, os roteiros são muito felizes ao lidar de maneira delicada com a homossexualidade e a gravíssima – mas àquela época especialmente carregado de forte preconceito e ignorância – epidemia de AIDS, em uma linha narrativa que me lembrou muito à de Forrest Gump neste ponto específico.

Voltando à Ruth, há uma tentativa de costura de outro assunto que sempre assolou Hollywood e que hoje está ganhando destaque: o assédio sexual. Ao colocar a personagem à mercê do asqueroso dono da KD-TV, que produz e transmite o programa, vemos um lado muito real desse mundo que só agora tem vindo à tona com mais força (o que sem dúvida gera também outros tipos de problemas, mas que não cabe abordá-los aqui). No entanto, esta é uma subtrama de certa forma “invasiva” na temporada, já que a estrutura dos roteiros é de certa forma quebrada para lidar com o problema, como se ele tivesse sido inserido a fórceps diante de sua atualidade. Por sorte, porém, apesar da pouca exploração direta deste aspecto, os showrunners demonstram habilidade em estabelecer esse momento tenebroso na vida de Ruth como um ponto de virada que leva à prometida alteração de status quo da série já na próxima temporada, com a mudança para Las Vegas.

Em meio à todo esse drama, o lado cômico não é esquecido, com muito destaque às lutas em si e à criação, por Ruth, de toda uma narrativa trash para conectar as lutas em uma história com começo, meio e fim, depois que Zoya é forçada a improvisar, “sequestrando” a “filha” de Liberty Belle. Há até um episódio inteiro que emula um capítulo real da “saga” das lutadoras que mais do que perfeitamente captura o espírito da época.

Falando em espírito da época, este está em cada pequeno detalhe da produção. Dos figurinos das lutadoras e de suas versões “civis”, passando pelos automóveis e pelos cenários, além das diversas referências aos anos 80, como uma sequência de montagem ao som de Hearts on Fire que parodia a de Rocky IV, a breguice absoluta das aberturas de séries de TV da época, uma sensacional recriação do videoclipe de We Are The World e assim por diante. Isso somado à completa – mas autoconsciente e, portanto, fortemente crítica – incorreção política das personas das lutadoras (com destaque para Arthie “Beirut the Mad Bomber” Premkumar de Sunita Mani, além de, claro, Welfare Queen) que encapsula à perfeição o que a década oferecia, para o mal ou para o bem.

Partindo de uma premissa irresistível, GLOW é um belo exemplar de comédia dramática que vem em franco desenvolvimento, mostrando que ainda tem muito a oferecer. Os conflitos humanos em meio à reconstrução de época e o olhar de bastidores para uma extravante – mas paupérrima – produção televisiva são valiosos momentos da TV moderna olhando para um passado não tão distante para extrair lições atuais e provocativas. As “belas damas da luta livre” realmente brilham.

GLOW – 2ª Temporada (EUA – 29 de junho de 2018)
Criação e showrunners:  Liz Flahive, Carly Mensch
Direção: Lynn Shelton, Mark A. Burley, Kate Dennis, John Cameron Mitchell, Claire Scanlon, Sian Heder, Meera Menon, Phil Abraham, Jesse Peretz
Roteiro: Liz Flahive, Carly Mensch, Nick Jones, Sascha Rothchild, Kim Rosenstock, Rachel Shukert, Marquita J. Robinson
Elenco: Alison Brie, Betty Gilpin, Sydelle Noel, Britney Young, Kate Nash, Gayle Rankin, Kia Stevens, Jackie Tohn, Kimmy Gatewood, Rebekka Johnson, Sunita Mani, Ellen Wong, Marianna Palka, Shakira Barrera, Marc Maron, Chris Lowell, Britt Baron
Duração: 26 a 46 min. por episódio (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.