Crítica | Gnomeu e Julieta

estrelas 3

Alguém deve ter feito uma brincadeira com o nome Romeu e a palavra gnomo e, a partir daí, construiu todo um filme animado em volta. Por alguma razão que não vou perder meu tempo para descobrir, Elton John tornou-se o produtor executivo do filme e suas músicas passaram a fazer parte da trilha sonora. São músicas bacanas e tal, mas completamente desconexas em relação ao enredo do filme.

Mas isso pouco importa. Apesar da aparente falta de nexo no filme, mais esse tratamento da imortal tragédia de Shakespeare, Romeu e Julieta, funciona razoavelmente bem na tela. E funciona mais porque o filme é um produto bem britânico do diretor texano Kelly Asbury que, antes desse, fez Shrek 2 (que muitos gostam, mas que eu abomino) e Spirit – O Corcel Indomável, desenho com bela fotografia voltado para crianças, sem pretensão de tentar ser mais do que efetivamente é, apesar de ser pontilhado de breves momentos para agradar também os adultos.

O desenho em computação gráfica conta a história de famílias rivais de gnomos de jardim: os vermelhos (equivalentes aos Capuletos) e os azuis (equivalentes aos Montéquios). Eles vivem em jardins adjacentes na cidade de Stratford-Upon-Avon (a cidade natal de Shakespeare) e, quando os donos das casas (que também se odeiam) não estão, eles ganham vida no estilo Toy Story e começam a tramar uns contra os outros, fazendo guerra de tomates, corridas de cortador de grama e por aí vai. É claro que Gnomeo e Julieta apaixonam-se e a confusão começa.

A animação não é nada especial, mas não desaponta. Há pequenos toques inteligentes, como o som de cerâmica que os gnomos fazem ao se movimentar e o os traços de envelhecimento dos gnomos mais velhos, com tinta descascada e pequenos pedaços quebrados aqui e ali. Não só os gnomos ganham vida como, também, basicamente todos os objetos inanimados dos breguíssimos jardins. Aliás, com todo respeito, o “fator-brega” dos jardins parece ter sido – e certamente foi – inspirado no campeão dos bregas, Sir Elton John que, como disse, tem presença marcante na fita, mesmo sem aparecer. Assim, são flamingos plásticos, cogumelos, coelhinhos e tudo mais que se pode colocar em jardins para eles ficarem extremamente feios.

Mas, para crianças pequenas, o fator “fofura” do filme mais do que funciona, pois os gnomos e demais acessórios, devo confessar, têm um design bem agradável, que acerta em cheio no alvo. Além disso, as piadas estilo pastelão são boas, as cenas de ação (especialmente com os cortadores de grama) chamam a atenção dos pequenos e os romances são na medida para agradar a todos. Não esperem, porém, nenhum final próximo da obra original, claro.

Para os adultos, temos o meta-filme, usado logo na abertura do filme com um gnomo falando que essa história já foi contada (várias) vezes antes e, mais para frente, quando Shakespeare – ou uma estátua do bardo, na verdade – começa a comentar o drama de Gnomeo e o quanto ele se parece com uma história que ele escrevera (na verdade, Shakespeare não criou o enredo, pois o conto italiano já existia antes dele. Ele chega a comentar que o final que ele criou é o melhor final. Essa consciência de que o desenho é uma adaptação da obra original e que contém alterações substanciais é inserida de maneira inteligente no filme, para não deixar a audiência esquecer.

Mas o filme não é especialmente memorável. Hoje em dia, com as animações da Pixar, alguns acertos da Dreamworks e, quase sempre, os filmes de Miyazaki, sempre espero mais. Ou melhor, exijo mais. Ser só “bonitinho”e “fofinho”, com músicas pop marcantes, mas completamente aleatórias não é suficiente. E o meta-filme que mencionei até poderia ter sido o “quê” a mais para deixar esse filme minimamente duradouro, mas o diretor não conseguiu ultrapassar a barreira do “minimamente competente”, talvez porque a estrutura da narrativa mais pareça o enfileiramento de diversos sketches diferentes que não se relacionam bem um com o outro do que qualquer outra coisa. Esse picote provavelmente se deu em virtude do exército de roteiristas da fita que, pela quantidade, até me surpreendeu que o resultado não tenha sido completamente descartável.

Por outro lado, o trabalho de voz (no original em inglês) é excelente. Aliás, a excelência está, em primeiro lugar, na escolha dos dubladores (Maggie Smith e Ozzy Osbourne no mesmo filme?) e, em segundo, pelo resultado em si. As vozes soam naturais e, mesmo quando a reconhecemos, fica a dúvida sobre quem exatamente está falando, tornando uma segunda sessão bem divertida para identificar os grandes nomes por detrás dos personagens.

Ah, como poderia esquecer-me: vi o filme em 3D e sugiro que economizem o dinheiro e assistam a versão 2D. A tecnologia não acrescentou nada a esse filme, como acontece, aliás, na maioria dos casos.

Gnomeu e Julieta (Gnomeo & Juliet, Reino Unido/EUA, 2011)
Direção: Kelly Asbury
Roteiro: Andy Riley, Kevin Cecil, Mark Burton, Emily Cook, Kathy Greenberg, Steve Hamilton Shaw, Kelly Asbury, Rob Sprackling, John R. Smith, William Shakespeare (peça)
Elenco: James McAvoy, Emily Blunt, Ashley Jensen, Michael Caine, Matt Lucas, Jim Cummings, Maggie Smith, Jason Statham, Ozzy Osbourne, Stephen Merchant
Duração: 84 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.