Crítica | Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague

estrelas 4

A Nouvelle Vague mudou a maneira de se fazer cinema em meados do século XX e até ganhou ressonâncias em território brasileiro, através do lema de Glauber Rochauma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. O movimento, que teve em seu cerne figuras como Claude Chabrol, Eric Rohmer e Jacques Rivette, é geralmente lembrado pelas produções da dupla focalizada neste melancólico documentário: François Truffaut e Jean-Luc Godard.

O roteiro, produzido por Antoine de Baecque, biógrafo de François Truffaut e autor de um dos clássicos contemporâneos dos estudos cinematográficos, o livro Cinefilia, recorre ao levantamento de edições antigas da revista Cahiers du Cinema, ao acervo de fotos dos cineastas e a recortes de jornais da época, num exercício hercúleo de resgate da memória de um movimento que tinha entre um dos seus principais focos a vigilância e a construção memorialística para o cinema, haja vista a quantidade de obras perdidas no período entre guerras.

O filme, dirigido por Emmanuel Laurent, começa com um recorte do plano-sequência que encerra Os Incompreendidos, uma das obras mais importantes do movimento, para logo adiante dividir a narrativa em alguns relatos sobre as semelhanças e diferenças entre Godard e Truffaut, o auge da amizade, os laços cortados posteriormente, os estilos de cada um, as relações sociais e políticas ao longo do movimento, além da abordagem acerca da crítica cinematográfica realizada no período, um dos pontos mais importantes do belíssimo registro de época realizado por Baecque.

Godard e Truffaut tiveram, dentre tantas coisas em comum, a relação gravitacional em torno da figura do atemporal André Bazin, talvez um dos mais influentes críticos de cinema da época, intelectual que produziu uma extensa base teórica para o cinema, lida ainda hoje no âmbito universitário, além da sua linguagem acessível na seara do senso comum. O centro nervoso do movimento, a edição da revista Cahiers du Cinema, veículo editado inicialmente em 1951 e que atravessou gerações, foi o canal para as primeiras reflexões de Truffaut e Godard, que partiram da crítica de cinema e assumiram, posteriormente, a realização cinematográfica.

Ao invocar a história dos cineastas, o documentário recorre a um interessante exercício narrativo. A câmera apresenta o passar das fotos de forma dual: ora uma imagem de Truffaut, ora uma imagem de Godard, apontando as diferenças na trajetória de cada um. Truffaut, conhecido por filmes como A Noite Americana, Os Incompreendidos, Jules e Jim, e Godard, ainda vivo e responsável por obras marcantes como Alphaville, O Demônio das Onze Horas e Acossado, vinham de bases familiares e estruturas sociais distintas, mas possuíam o mesmo ideal irrequieto e que pendia para a rebeldia.

Godard passou a infância e boa parte da juventude na Suíça. Oriundo de um lar abastado, estudou Etnologia na Soborne e começou a sua colaboração intelectual na Cahiers du Cinema em 1952. Ao conceber e assumir a direção de Acossado, adentrou para o seleto mundo dos cineastas autorais da época. Por sua vez, François Truffaut veio de um lar humilde, criado pelos avós e demarcado pelo abandono da mãe. Encontrou na avó a paixão pela literatura e pela música e se encantou pelo cinema aos sete anos de idade, em sua primeira sessão.

Diferente de Godard, não apresentou o seu lado rebelde apenas através do cinema, mas colecionou uma série de idas para a cadeia, haja vista alguns furtos que cometeu, alguns deles, para alimentar a sua paixão pelo cinema. Adotado por André Bazin ao perceber o potencial intelectual do rapaz, fez história ao lado de Godard, num período considerado como um dos mais fecundos para a história da crítica e da realização cinematográfica autoral.

Dentre as produções mais conhecidas e retomadas da época, temos a “Política dos Autores”, um termo polêmico e muito útil no que tange aos aspectos do processo de produção na época. Para os seguidores dessa política, o filme deveria ser algo semelhante ao seu realizador, sendo uma obra fílmica uma expressão bastante pessoal do seu autor. A lógica era a de que o cineasta escrevia com a câmera. O ensaísta Alexandre Astruc publicou, em 1948, o Nascimento de uma nova vanguarda: a câmera caneta, texto que serviu de inspiração para a criação do famoso ensaio Uma certa tendência do cinema francês, texto de Truffaut que deflagrou uma guerra no campo da cultura no período, outro marco intelectual da “nova onda”.

A Nouvelle Vague começou como um movimento cheio de pessoas com afinidades, mas terminou inflado de rixas e discussões pouco produtivas. Seu legado pode ser encontrado facilmente em algumas produções de Steven Spielberg, Martin Scorsese e Quentin Tarantino, três cineastas ainda badalados dentro do eixo de realização cinematográfica contemporânea. Com o uso constante do plano-sequência longo, da montagem inovadora e da quebra de padrões com o cinema convencional, os filmes da Nouvelle Vague buscavam a utilização da câmera na mão para intensificar a relação emocional dos personagens com a trama, além de promover produções que buscavam levar o espectador ao exercício da reflexão, diferente de filmes que entregavam tudo pronto, acolhiam o público e pouco ofereciam à intelectualidade.

A crítica, gênero discursivo que faz parte dos processos que engendram a indústria cinematográfica foi a base da produção intelectual de Truffaut e Godard, que antes da posse de câmeras treinaram os seus olhares através da análise de produções dos seus mestres, dentre eles, Bergman, Rossellini, Hitchcock, Hawks, dentre outros. A importância dos cineclubes na formação desses cineastas, bem como do pensamento cinematográfico em geral é outro ponto forte do documentário.

Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague foi selecionado para o Festival de Cannes em 2009 e representa uma importante peça para reconstituição da história do cinema, característica típica do gênero documentário, principalmente de produções sérias e engajadas como esta, um registro minucioso de uma época frutífera para o cinema francês, com projeção mundial: um filme imperdível não apenas para cinéfilos e curiosos, mas para o campo da crítica cinematográfica.

Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (Deux de la Vague – França, 2010)
Direção: Emmanuel Laurent
Roteiro: Antoine de Baecque
Elenco: Antoine de Baecque, François Truffaut, Jean-Luc Godard, Isild Le Besco
Duração: 98 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.