Crítica | Godless

  • spoilers.

Séries que traem sua premissa são razoavelmente comuns e, como consequência, elas precisam compensar fortemente tal traição com bons roteiros, atuações estelares e outros elementos que a ergam da pecha de armadilha de marketing. O mais recente exemplo de série assim e que conseguiu mostrar a que veio foi The Sinner, já que a premissa básica da assassina que não faz ideia do porquê matou é derrubada logo no segundo episódio, mas o espectador ganha em um dueto de atuações de se tirar o chapéu.

Godless, extremamente elogiada por aí, não só trai sua premissa como debocha dela e não traz quase nada para compensar o problema. Mas eu explico, pois tenho consciência que minha opinião vai no caminho contrário de todas as demais que me deparei.

Se perguntarmos para qualquer um que tenha ouvido falar do faroeste em forma de minissérie do Netflix criado, escrito e dirigido por Scott Frank, provavelmente a resumirá como “aquela série de cowboys que tem uma cidade só com mulheres”. Afinal, o material de marketing nos bombardeou incessantemente com essa informação, em uma tentativa de vender a série justamente por seu elemento menos importante. Ou melhor, por seu elemento mais artificial e menos desenvolvido. Não que não seja uma situação crível, pois ela é. Por repetidas vezes – incessantemente, diria – somos lembrados que La Belle teve todos os seus homens em idade de trabalho mortos simultaneamente em um desabamento na mina de prata que sustentava a cidade. Os habitantes remanescentes – mulheres, crianças, idosos, o xerife e seu ajudante – tentam sobreviver da forma como dá, ainda que isso não seja muito explicado.

A outra ponta narrativa é uma gangue de foras-da-lei comandada pelo temido Frank Griffin (Jeff Daniels) que aterroriza o oeste americano em sua caçada incessante a Roy Goode (Jack O’Connell), ex-integrante do grupo que, agora, mina a gangue constantemente, para profunda irritação e desgosto de Griffin. Roy, ferido, acaba na fazenda de Alice Fletcher (Michelle Dockery), aos arredores de La Belle, onde sua habilidade com cavalos o torna extremamente valioso, já que ela tem vários deles que precisam ser domados para serem vendidos.

É Roy Goode, então, que faz a ponte entre as duas narrativas que, porém, andam em paralelo ao longo de toda a minissérie, convergindo para o óbvio e mais do que esperado tiroteio final somente no último episódio que tem a duração de um longa-metragem. Mas, até aí, não há problema algum. De certa forma, olhando por alto, a coisa parecia que funcionaria. Voltemos então um pouco para trás e substituamos a cidade habitada predominantemente por mulheres e imaginemos uma situação normal, com homens e mulheres mais ou menos na mesma proporção dividindo o espaço. Ou seja, retiremos a jogada de marketing que funciona como catalisadora de vendas da série e me digam: em que ela mudaria? Em que La Belle ser povoada quase que somente por mulheres altera em alguma coisa as linhas narrativas? Afinal, Alice Fletcher poderia continuar sendo uma viúva que casara com um nativo americano, tendo um filho com ele e morando com sua sogra, sendo odiada por todas as demais na cidade. Da mesma forma, cada uma das rasas personagens femininas que vemos na cidade em si – com apenas uma razoavelmente desenvolvida, Mary Agnes McNue, vivida pela ótima Merritt Wever – poderia continuar sendo trabalhada da mesmíssima forma. Afinal, uma cidade com homens não significa uma cidade melhor ou pior ou uma cidade mais particularmente preparada para a invasão de bandidos sanguinários. Afinal, a própria minissérie nos faz o favor de provar esse aspecto.

E isso especialmente se considerarmos que é Roy Goode o efetivo protagonista, o super-herói unidimensional de faroestes de outrora que não só é encantador de cavalos, como também um pistoleiro sem igual e um homem que, apesar de ter vivido anos em meio a bandoleiros assassinos, tem coração bom ao ponto de quase adotar Truckee (Samuel Marty), filho de Alice, como seu próprio. Toda a história gira em torno dele e não de alguma das mulheres que parecem só estar ali para que Godless possa ser listada entre uma das séries que dá seu devido espaço ao sexo feminino. Em meu ponto de vista, porém, ela faz justamente o oposto. Ela dá espaço para que as mulheres – a exceção que confirma a regra é Alice, claro – figurem em segundo plano apenas. Nem mesmo Mary Agnes consegue ser muito mais do que um recorte básico e feito em cartolina de uma lésbica apaixonada pela ex-prostituta local, hoje professora de primário. Se excluirmos Mary Agnes da equação, então, não sobra ninguém a não ser rostos e nomes completamente fungíveis que não justificam sua existência a não ser como enfeites de cenário. Em outras palavras, no lugar de ser uma série empoderadora, para usar a palavra da moda, ela é, ao contrário, uma série ainda mais machista.

Ah, mas o final com o tiroteio, que coloca as mulheres à frente, justifica tudo. Bem, não é verdade. Tanto não é verdade que as duas únicas mulheres que têm destaque durante o evento são justamente Alice e Mary Agnes, ambas no telhado do hotel da cidadela justamente para serem destacadas. O resto é bucha de canhão, inclusive a pintora a alemã que entra na história do nada e, mais do nada ainda, se mostra uma baita pistoleira.

E os personagens afro-descendentes têm a mesma função de enfeite de cenário, ou, talvez, pior ainda. Seu vilarejo aos arredores de La Belle é abordado por diversas vezes por ser onde mora Louise Hobbs (Jessica Sula), interesse romântico do assistente de xerife Whitey Winn (Thomas Brodie-Sangster) e, sem nenhuma cerimônia, ao final, massacrado pelos bandidos selvagens em uma sequência feita única e exclusivamente para mostrar a mortandade ali, poupando as moças da cidade do mesmo, pelo menos em termos gráficos. É como se toda uma fazenda de interessantes personagens (Erik LaRay Harvey e Rob Morgan, respectivamente como o pai de Louise e um lendário herói da Guerra Civil, estão ótimos em seus papeis) funcionasse como a encarnação de token black guy coletivo…

Com isso, sobram quem mesmo? Ah, os personagens masculinos e brancos. Todos eles fascinantes e (quase) bem desenvolvidos, que praticamente transformam a série em algo padrão, que já vimos mil vezes por aí, soterrando de vez a qualificação “aquela série de cowboys que tem uma cidade só com mulheres”. Não só temos o apaixonado Whitey Winn e o invencível Roy Goode, como, mais ainda, o sinistro Frank Griffin em uma atuação de se tirar o chapéu por parte de Jeff Daniels, que mistura devoção a Deus e aos ensinamentos da Bíblia conforme sua própria interpretação e uma obsessão doentia que o corroí por dentro. Há, também, Bill McNue, o xerife de La Belle, vivido pelo sempre ótimo Scoot McNairy, que sofre por estar perdendo a visão, sendo visto como covarde por todos ali. Querendo mostrar seu valor, McNue sai, sozinho, para caçar Griffin, em uma sidequest absolutamente enervante por literalmente levá-lo a andar em círculos, saindo de sua cidade e voltando para ela quando exatamente o timing determina, para que ele faça dupla com Roy Goode e sim, você adivinhou, salve as mulheres de serem massacradas (porque sim, elas seriam massacradas). E, claro, há o veteraníssimo Sam Waterson como o xerife federal John Cook que, mesmo com pouco tempo de tela, mastiga o cenário com sua presença incrível. Finalmente, temos o inescrupuloso repórter A.T. Grigg, encarnado por Jeremy Bobb (muito bem no papel limítrofe entre o covarde aproveitador e o empresário manipulador) e o irritante Ed Logan (Kim Coates, caricato ao extremo), capanga da empresa mineradora que “compra” a cidade e que só está na série para servir de “ameaça substituta” já que de Griffin mesmo em La Belle só vemos algo como 10 minutos.

Além desses problemas, a minissérie tem uma questão estrutural que parece somente existir para justificar seu tamanho (pois sete episódios é duração demais para história de menos): a necessidade emburrecedora de não deixar nada para a dúvida. O maior exemplo disso é o genuinamente aterrador começo do episódio inaugural em que vemos John Cook e seu grupo chegarem a uma cidadezinha onde todos os habitantes estão mortos, com um trem descarrilado ao fundo. São momentos incríveis, de um apuro visual realmente belíssimo, com uma fotografia quase sem cores que deixam as escâncaras os horrores ali cometidos por Griffin e seu bando. No lugar de deixar essas imagens perenizarem-se, porém, o criador, roteirista e diretor Scott Frank faz questão de, mais para o final do episódio, voltar no tempo e nos mostrar detalhes do que ocorreu, imediatamente, com isso, demolindo a aura de mistério e de crueldade que ele havia deixado nas entrelinhas das imagens iniciais.

E essa estratégia continua, com o acidente na mina sendo abordado, assim como o passado de Alice. E isso depois de cada uma dessas situações ter sido explicada de maneira expositiva em diálogos deslocados e forçados. Ou seja, Scott Frank não quer que ninguém use sua imaginação, deixando tudo “beeem explicadinho, nos seu míiiiiiinimos detalhes”, como já dizia o personagem da vinheta cômica. É também interessante notar que, quando um pouco mais de relevo é necessário, como é o caso da relação pregressa de Roy e Frank, os flashbacks deixam a desejar, com Scott Frank preferindo platitudes do que atacar o cerne da relação entre eles, o que acaba deixando Roy um tanto quanto vazio.

Mas nem tudo se perde em Godless. A fotografia é muito bonita – ainda que burocrática – muito em razão do uso de filmagens em plano geral de locações que deixam clara a desolação da fronteira americana nesse período, com transições para o passado com filtro em preto-e-branco que deixam transparecer cores aqui e ali. Além disso, as atuações de Daniels, Waterson, Bobb, McNairy e Brodie-Sangester merecem comenda, assim como as de Wever, Harvey e Morgan, essas últimas, porém, teriam se beneficiado de mais tempo de tela e de um melhor uso no roteiro que não seja o de personagens “não usuais” sendo estereotipados como tais.

No final, Godless não nos oferece nada que realmente compense sua premissa traída e achincalhada. É como comprar gato por lebre. Ou, no caso, cowboy por cowgirl.

Godless (Idem, EUA – 22 de novembro de 2017)
Criação, direção e roteiro: Scott Frank
Elenco: Jack O’Connell, Michelle Dockery, Scoot McNairy, Merritt Wever, Thomas Brodie-Sangster, Tantoo Cardinal, Kim Coates, Sam Waterston, Jeff Daniels, Samuel Marty, Tess Frazer, Samantha Soule, Audrey Moore, Jeremy Bobb, Adam David Thompson, Russell Dennis, Matthew Dennis, Christiane Seidel, Jessica Sula, Erik LaRay Harvey, Rob Morgan
Duração: 41 a 80 min. por episódio (7 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.