Crítica | Godzilla (2014)

estrelas 4

As bombas de Hiroshima e Nagasaki originaram, em 1954, o filme do primeiro kaiju: uma retratação da destruição que a população nipônica acabara de passar e mais que uma prova de sua capacidade de se reerguer perante tamanhas adversidades. Por anos e anos, em diferentes mídias, o lagarto gigante aos poucos se fixou no imaginário popular e agora, sessenta anos depois, ganha sua nova encarnação, sua nova história de origem como o próprio estúdio reitera. Godzilla, porém, está longe de jogar seu passado fora, levando em conta cada passo de sua longa história.

Gareth Edwards inicia seu novo longa através de sucessivas imagens de arquivo – testes nucleares, navios desaparecidos, uma criatura gigante avistada. Soa familiar? Os conhecedores do filme de 1954 certamente dirão que sim. As homenagens à primeira aparição da criatura nas telonas começam desde os primeiros minutos de projeção e, assim permanecem até o fim da obra, seja através de personagens, como Doutor Serizawa, ou meras utilizações do nome “Gojira”. Após essa pequena introdução somos transportados ao Japão, onde uma usina nuclear começa a apresentar leituras incomuns. O cientista Joe Brody, em uma memorável atuação de Bryan Cranston, que rouba todas as cenas que aparece, identifica tal problema, mas sem acreditar que este é apenas um defeito do reator. Suas suspeitas, contudo, surgem tarde demais e logo presenciamos um derretimento nuclear que toma a vida da esposa do cientista.

Com o passar dos anos, Brody não abandona sua teoria e, à contragosto de seu filho, Ford (Aaron Taylor-Johnson), invade a zona de quarentena do vazamento da Usina. Dessa forma, o roteiro de Max Borenstein, aos poucos, introduz a figura do kaiju na trama, utilizando o ponto de vista do protagonista Ford. Convenientemente o filho do cientista segue uma carreira no exército, tornando mais plausível seu papel dentro das situações caóticas do longa. Godzilla, porém, gasta muito de seu tempo para desenvolver uma subtrama envolvendo a família do Tenente, algo similar ao que vemos no original de 1954. Tal história soa perdida dentro do cenário geral, mas não prejudica o filme como um todo.

Com o surgimento da criatura passamos a ver constantes tentativas do exército americano de resolver a ameaça em questão. Edwards conduz sua obra de forma orgânica, sem fazer parecer que o roteiro converge para os Estados Unidos de maneira muito óbvia. Em toda sua duração a sensação de perigo é evidente e cresce constantemente ao longo da narrativa. Com o desenvolver da trama vamos tendo maiores visões do gigantesco monstro – à princípio planos curtos, rapidamente interrompidos, até que, no fim, presenciamos toda a sua majestosa figura. Gareth, experiente no setor de efeitos visuais, explora sabiamente a exibição do kaiju, nos lembrando da abordagem de clássicos como Tubarão ou Alien. Quando, enfim, o vemos em toda sua grandiosidade, impossível não perceber a clara homenagem ao design do clássico dos anos 50.

Tal ocultação da criatura é levada também pela iluminação, em geral escura, fazendo um efetivo uso das poucas luzes presentes a fim de criar um verdadeiro espetáculo visual. As poucas vezes que enxergamos o monstro são verdadeiros espetáculos visuais criados não só pelos impressionantes efeitos especiais, como pela precisa fotografia de Seamus McGarvey que capta o Kaiju ora por pontos de vista ora por visões aéreas. Em nenhum momento os movimentos de câmera prejudicam o entendimento dos eventos o mesmo vale para a montagem de Bob Ducsay, que não erra mesmo nos momentos de maior ação.

Coroando a constante tensão e impressionantes enquadramentos de cada ponto da obra está a marcante trilha sonora de Alexandre Desplatt, já famoso por seu trabalho nos filmes de Wes Anderson. O músico sabe utilizar desde melodias mais discretas, ao som de esparsas notas de piano até as mais explosivas e dramáticas sinfonias que, em conjunto com a efetiva edição de som, garantem vida ao lagarto gigante, tornando seus rugidos mais ameaçadores que nunca.

Antes de finalizar esta crítica preciso fazer um pequeno adendo: não vejam o filme em 3D. É uma obra que se destaca pela escuridão e o 3D somente intensifica esse fator, quase que impossibilitando que enxerguemos algumas cenas. Além disso não há nada de destaque na terceira dimensão do longa, como de costume. Mais uma vez: vejam em 2D!

Godzilla é uma obra que se destaca. Em um universo cinematográfico que, cada vez mais, deseja evidenciar seus efeitos especiais, ele deseja escondê-los. O resultado é uma obra de incessante ação e suspense que soa como uma nostálgica homenagem e moderna retratação do kaiju, ao mesmo tempo. É uma efetiva experiência visual que, embora conte com alguns deslizes, marca o espectador. História de origem ou não, Gojira vive novamente.

Godzilla (idem – EUA, 2014)
Direção: Gareth Edwards
Roteiro: Max Borenstein (baseado na história de Dave Callaham)
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, CJ Adams, Ken Watanabe, Carson Bolde, Sally Hawkins, Juliette Binoche, David Strathairn, Richard T. Jones.
Duração: 123 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.