Crítica | Godzilla (2014)

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Depois das primeiras aparições originais do Godzilla, notamos que o personagem deixou de ser tratado como uma ameaça incontrolável e imbatível, para assumir, sob padrões que podemos entender melhor, um posto de “anti-herói”; uma espécie de protetor natural, de equilíbrio monstruoso da natureza para mudanças no padrão da fauna terrestre. Considerando que a raiz conceitual para a criação do Lagarto Atômico foram as consequências biológicas, químicas, físicas, genéticas (e também sociais, econômicas e históricas) do ataque dos Estados Unidos a Hiroshima e Nagasaki, na reta final da Segunda Guerra Mundial, é impossível dissociar os muitos significados dessa gênese para qualquer outra produção kaiju pós-1954.

Nesta releitura de 2014, escrita por Max Borenstein (baseada em uma história de Dave Callaham) e dirigida por Gareth Edwards, temos a lição de casa básica inserida já nos créditos de abertura, uma escolha inteligente da direção para fixar na cabeça do espectador a relação natural que esse bicho tem com o planeta e o quanto a Era Atômica criou, despertou ou aumentou o potencial destrutivo que a natureza mantém escondida em alguma lugar. A ambiciosa produção da Legendary Pictures, juntamente com a Warner Bros., faz desta segunda versão exclusivamente americana para o Lagartão — a primeira foi em 1998, sob direção de Roland Emmerich — uma instigante jornada de sobrevivência e tentativa de equilíbrio natural, que podemos dividir em dois blocos.

No bloco humano, onde o filme é tremendamente ruim em praticamente todos os aspectos, temos a história romantizada de um militar americano (Aaron Taylor-Johnson), quase à prova de morte e que move céus e terra para voltar para seu filho pequeno e para sua esposa, interpretada por Elizabeth Olsen, sem critério algum para agir ou parecer esposa de alguém em cena. Já no bloco kaiju, temos a nata do filme, onde tudo de bom, em todos os aspectos, acontece. Seria até possível fazer uma crítica em separado para esses dois blocos, com avaliações bem diferentes e motivações distintas, porque o roteiro parece fazer questão de segmentar o filme inteiro nessas duas vertentes, sem apoio da montagem para uma transição orgânica entre um momento e outro. O que sobra são alguns bons momentos de ação envolvendo um grupo de soldados; algum ato heroico de praxe (em se tratando de cinema americano) e o cenário, as cidades e o mar, lugares que servem de palco para os monstros se enfrentarem.

Gareth Edwards começa bem. A descoberta de um fóssil nas Filipinas, em 1999, coloca em cena o Doutor Serizawa (Ken Watanabe) e a doutora Wates (Sally Hawkins), preparando-nos, com uma interessante medida de surpresa, para a futura invasão pré-histórica nos dias atuais. O ritmo nestes primeiros minutos do filme é bom, a fotografia um tanto dessaturada cai bem ao ambiente e o trabalho de engenharia de som (um dos poucos setores técnicos do filme que seguirá em alta até o final, em ambos os blocos dramáticos) começa a dar o ar da graça. Mas o bom momento tem prazo de validade. Quando chegamos em Janjira, no Japão, e encontramos a família Brody (Bryan CranstonJuliette BinocheCJ Adams), as coisas começam, literal e simbolicamente, a cair por terra. Cranston está burocrático, especialmente quando contracena com Taylor-Johnson, parecendo mais um ensaio amador na entrega de diálogos do que outra coisa (faço uma exceção à cena em que ele está preso na Usina, após ser pego com o filho na Zona de Quarentena). Binoche, que é uma excelente atriz, está perdida e inteiramente desconfortável no papel. Já Adams e Taylor-Johnson não conseguem fazer Ford Brody funcionar em nenhuma idade.

De maneira interessante, o roteiro consegue manter a nossa atenção pelo critério simples de ameaça crescendo. A trilha sonora chama a atenção para o épico, o perigo, o horror e a edição e mixagem de som criam o ambiente necessário para nos deixar apavorados, esperando por mais desastres. E convenhamos que o tratamento dado pelo texto aos MUTOs é muito bom. Os kaiju possuem uma regra em relação a esse tipo de aparição extra, portanto, não há novidade ou mal tratamento dos bichões no filme, nada que não tenhamos visto já nas três primeiras interações do Godzilla com outras criaturas, a saber, nas lutas contra Anguirus em Godzilla Ataca Novamente (1955); contra o icônico gorila em King Kong vs. Godzilla (1962) e contra a mariposa mais fofa e mortal da Terra em Mothra vs. Godzilla (1964). Desse modo, quando o enredo aponta para um embate entre os monstros e não uma luta essencialmente contra a humanidade, a obra, que já estava bastante dividida, se quebra por completo. O lado humano perde todo e qualquer impacto sobre o espectador e nossa atenção se volta apenas para o que realmente interessa, para o que é muito bem tratado aqui: Godzilla caçando e, no fim, enfrentando os MUTOs.

Esse bom tratamento dos bichos, no entanto, não impede que o filme padeça com os meandros melodramáticos do roteiro, tendo direito a diálogos motivacionais e jornada heroica mal construída, trazendo a tiracolo os militares de alto escalão mais estúpidos que se possa imaginar. Em uma mistura de irritação e tropeços desnecessários para a narrativa, conseguimos chegar aos momento finais, que são verdadeiramente épicos. Os efeitos, nesse ponto, retrocedem um pouco, mas nada muito grave. Durante todo o filme vimos destruição na medida certa, não são essas falhas pontuais que “estragam a obra”, como muito purista FX adora clamar aos quatro ventos. Sem contar que é na parte final que temos — à parte a boa luta –, a melhor cena envolvendo humanos no filme, que é o salto de pára-quedas. A fotografia com destaques em vermelho, a passagem pelas nuvens, os raios, a trilha sonora e o trabalho de som, o plano geral para mostrar os militares chegando ao solo, tudo funciona nessa sequência. Pelo menos um vez temos um momento excelente que não seja protagonizado pelos kaiju.

Grandioso em muitos aspectos e extremamente irritante em outros, Godzilla (2014) não é o tipo de filme que o espectador se arrepende de ver. Longe disso. A película é um baita entretenimento e todos os seus aspectos negativos são, ao menos no campo do espetáculo pelo espetáculo (não crítico, não técnico e não de conjunto de obra), superados pela pancadaria monstruosa do Godzilla contra os MUTOs. Só por este momento, vale todo o desconforto. E mais uma vez, Godzilla mostra por quê é o Rei dos Monstros.

Godzilla (EUA, Japão, 2014)
Direção: Gareth Edwards
Roteiro: Max Borenstein (baseado na história de Dave Callaham)
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Bryan Cranston, CJ Adams, Ken Watanabe, Carson Bolde, Sally Hawkins, Juliette Binoche, David Strathairn, Richard T. Jones.
Duração: 123 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.