Crítica | Godzilla: Planeta dos Monstros (2017)

Primeiro longa de animação (embora não tenha sido a primeira adaptação animada) de Godzilla e 32º filme da franquia, Planeta dos Monstros é a primeira parte de uma trilogia de filmes entre 2017 e 2018, novamente com produção associada da Toho, o estúdio que nos entregou o Lagarto Atômico pela primeira vez em 1954. Distribuída pela Netflix, a fita se passa em um futuro onde os humanos foram expulsos do planeta pelo bichão protagonista e agora vagam pelo Universo em busca de um planeta habitável. Duas décadas se passam (do ponto de vista de quem está na nave) e o futuro para os humanos não é nada promissor. Aí surge a ideia que pode ser o fim da espécie: voltar para a Terra e tomar o planeta das garras do rei dos kaiju.

Para falar a verdade, Planeta dos Monstros só começa mesmo nos 15 minutos finais. A narração de como a Terra foi dominada não é bem inserida no roteiro e uma série de dúvidas e certo desdém do espectador surgem aos borbotões a cada momento em que o texto se perde em atalhos pouco importantes para o atual estágio da espécie. Em vez de verdadeira atenção à fuga e aos elementos de sobrevivência, temos um rápido e pouco eficiente flashback que, além de querer dar conta da evacuação da população (não conseguindo fazer isso de maneira aceitável) inserve uma outra raça na história, um povo que estava procurando um planeta com água para habitar e que propõe uma aliança. Ambas as espécies falham em conter o lagartão e saem juntas para procurar um outro planeta para viver.

Essa outra espécie, os Exifs, terá um papel importante na história por conta de sua integração na organização da nave que carrega a humanidade, tendo também participação na primeira ofensiva de retomada do planeta. Durante o primeiro ato, porém, a introdução de uma nova religião a partir dos Exifs e a justificativa quase infantil de “se vingar do Godzilla que tomou a nossa dignidade como humanos” são coisas que distraem bastante e que fazem toda a base da obra perder-se em dramas pessoais que, inclusive, atrapalham os personagens quando a Terra é novamente alcançada e a luta para recuperá-la se inicia.

Haruo é o personagem que mais sofre com esse olhar passional que o texto dá para justificar o retorno, problema que persiste quando as estratégias de batalha são erguidas, quando os Servum aparecem (subespécie voadora — semelhante a um dragão — de Godzilla, com 97% de semelhança genética e que habita a Terra por volta do ano 22.048, que é quando essa trama se passa) e durante a luta contra o Godzilla Filius.

Aí chegamos a um ponto da obra onde as coisas começam a ficar interessantes. E não digo isso em termos de gráfico da animação, que não é trash, mas também não é nada que mereça honrarias. Serve apenas ao propósito de mostrar bichos modificados pela radiação e evoluídos ao longo de milhares de anos. Também não cito isso para me referir à fotografia e desenho de produção, especialmente para a segunda parte, onde ambas as categorias são interessantes. A ideia e justificativa da neblina na grande floresta, a diferenciação de cor e estabelecimento do espaço após o retorno dos humanos, os pequenos segredos da flora e fauna da Terra, tudo isso compõe bem a esfera de ameaças no roteiro e na parte visual. Mas o que falo de “coisas que ficam mais interessantes” é daquilo que sempre marcou os filmes kaiju ao longo dos anos, ou seja, as grandes demonstrações de força por parte dos bichos e a estratégia dos humanos para lutar contra essas forças bizarras.

SPOILERS

E é aqui que entra a questão do Godzilla Filius. O desenho dele apresenta um pescoço mais fino que o de sua versão “oficial” vista no final; e mais curto, lembrando um pouco o “Legendary Godzilla”, que é a versão de Godzilla (2014). Todo o cerne do filme é a luta contra essa versão fake do verdadeiro Lagarto. Na verdade, o Filius é parte evolucionária da divisão das células do verdadeiro Gojira, exatamente como os Servum, mas esses se desenvolveram como uma espécie voadora e mais fraca. Já o Filius é um “clone natural”, com semelhanças genéricas com a versão que vemos no flashback, na primeira parte, que se passa entre 2030 e 2048, quando a evacuação do planeta finalmente ocorre.

Fazer um filme com uma versão clonada e não tão interessante de Godzilla apenas para abrir espaço para os longas da trilogia com certeza comprometeu o resultado final. Mas uma coisa é certa: toda a nossa pendência com o ritmo geral da fita é dissipada nos minutos finais, diante da excelente sequência de batalha e quando, enfim, a verdade é revelada e vemos aparecer, aí sim, um mitológico monstro, que em tudo chama a nossa atenção. Este é o ponto onde parece que a infantilidade do primeiro ato e o desengonçado desenvolvimento do enredo até a última batalha são compensados. Claro que a lembrança desses pontos fracos ainda ficam — assim como o mal uso da trilha sonora em praticamente todo o filme, exceto, adivinhem… na batalha final –, mas pelo menos fazem com que a gente tenha uma justificativa para parte daquilo e possa aproveitar a atmosfera de horror e destruição que esse tipo de obra sempre nos causa. O resultado? Pedir mais.

Godzilla: Planeta dos Monstros / Monster Planet (Japão, 2017)
Direção: Hiroyuki Seshita, Kôbun Shizuno
Roteiro: Gen Urobuchi, Sadayuki Murai, Yusuke Kozaki
Elenco: Chris Niosi, Martin Billany, Robbie Daymond, Lucien Dodge, Kana Hanazawa, Ken’yû Horiuchi, Yuki Kaji, Kenta Miyake, Mamoru Miyano, Kazuya Nakai, Daisuke Ono, Takahiro Sakurai, Tomokazu Sugita, Jun’ichi Suwabe, Cristina Valenzuela, Kazuhiro Yamaji
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.