Crítica | Godzilla – The Half Century War

estrelas 5

Como é bom ser surpreendido positivamente. E que surpresa! Quando peguei Godzilla – The Half Century War # 1 (cuja tradução literal pode ser “Godzilla – A Guerra de Meio Século”), esperava algo completamente descerebrado, raso e, em última análise, descartável. Escolhi por impulso e também porque nunca havia lido nada sobre o famoso monstrão que tem como hábito destruir Tóquio. Sim, já havia visto o filme original, alguns relances de continuações e a refilmagem hollywoodiana de Roland Emmerich. Mas de HQs eu nada conhecia.

Mas porque a surpresa?

Bom, para começar, essa minissérie épica da IDW em cinco capítulos se passa, como o nome deixa claro, ao longo de cinco décadas,  começando em 1954, quando da primeira aparição de Godzilla em Tóquio (conforme o filme original de Ishiro Honda). Além disso, e talvez mais importante, mais ou menos como em Marvels, vemos o monstro sob a perspectiva de alguém da população, mas não um alguém qualquer. O par de olhos que se depara com a destruição total da cidade nas mãos do lagarto atômico é do Tenente Ota Murakami, comandante de uma divisão de tanques de guerra.

A importância de ser um soldado o narrador e personagem principal da trama tem razões históricas, já que, em 1954, o Japão mal havia se recuperado do trauma que foi o final da Segunda Guerra Mundial. É uma menção clara à própria razão da criação de Godzilla, resultado da paranoia nuclear que se instalou no país depois dos horrores causados por duas bombas atômicas. Além disso, diferente do repórter em Marvels, o Tenente Murakami, além de ser o narrador e nosso ponto-de-vista, atua e interfere diretamente na trama.

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Ops, foi mal!

O roteirista e desenhista James Stokoe faz um trabalho genial ao tratar de todo o combate a partir da rua, com o Tenente e o piloto do tanque, Kentaro (o resto da divisão é completamente destruído logo no início) sozinhos tentando salvar parte da população que foge em desespero. Sim, as situações são para lá de inverossímeis, considerando que há prédios sendo derrubados por todo o lado e o tanque parece uma Ferrari de tão rápido. Mas quem quer tanta verossimilhança assim considerando o contexto?

E o desenhos? Stokoe justificou plenamente, para mim, o uso da plataforma digital para baixar quadrinhos (legalmente!). Ainda que manusear a revista seja ótimo, digitalmente é possível ampliar cada detalhe dos quadros do autor para ver a impressionante obra de arte que é Godzilla – The Half Century War. Cada escama, cada dente, cada detalhe de cada prédio é maravilhosamente desenhado por Stokoe como se fosse um quadro. Não é um desenho que procura o fotorrealismo, longe disso, mas o resultado consegue ser muito melhor e original do que costumo ver por aí. A fumaça tem volume, as cores são vibrantes (graças também ao trabalho de Heather Breckel) e as pessoas, desenhadas como em mangás, tem expressões em que você pode acreditar, apesar dos exageros típicos do gênero.

E a saga continua ao longo de diversos momentos históricos mundiais. Logo no segundo número, vemos Murakami e Kentaro já partes de uma equipe anti-Godzilla tentando segurar o avanço do bicharoco pelo Vietnam. O que o lagarto está fazendo lá é interessante e começa a montar a narrativa que será ampliada e muito nos números seguintes. É também no Vietnam que descobrimos que Godzilla não é o único monstro que assola a Terra.

O terceiro número já nos arremessa para Gana, em 1975, onde nossos heróis estão encurralados em um gigantesco campo de batalha de monstros. Eles não podem fazer muito mais do que observar a destruição generalizada, até que descobrem a fonte de um sinal que pode ser a razão para a excitação dos monstros. O trabalho de Stokoe nos desenhos consegue ganhar outra dimensão aqui, já que ele passa a abordar diversos monstros dos estúdios Toho, como Anguirus, Mothra e Rodan. É o inferno para os protagonistas, mas o paraíso para os leitores.

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Pacific Rim 2

E, quando o leitor acha que as coisas não podem tomar proporções maiores, eis que Stokoe apela para o Godzilla do Espaço no 4º número e, finalmente, ao sensacional MechaGodzilla no 5º e último número, que nos leva a um final apoteótico e arrasador.

O roteiro de Stokoe é simples e linear. Não há uma efetiva evolução de seus personagens principais, apenas uma eterna caça a monstros e a um vilão humano. Mesmo assim, a narrativa é redonda e com um final corajoso e belíssimo. Mas essa série nunca foi imaginada pela história em si, mas sim pela sua maravilhosa arte, que não perde o fôlego e a qualidade do começo ao fim. A variedade de cenários e de monstros torna a leitura, que de outra forma seria bem rápida, em longos momentos de observação de detalhes, de quadros, de splash pages e de explosões de cores que, tenho certeza, impressionará qualquer fã de quadrinhos, mesmo que não goste de Godzilla.

Realmente, por mais que eu esperasse algo de baixa qualidade, não consegui ver nada menos do que brilhantismo no trabalho de Stokoe.

Godzilla – The Half Century War – EUA, 2012
Roteiro: James Stokoe
Arte: James Stokoe
Cores: Heather Breckel
Editora: IDW Publishing
Páginas: 124

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.