Crítica | Going Clear: Scientology and the Prison of Belief

estrelas 5,0

Acredito que como foi para muitos aqui, o alvoroço sobre a Cientologia entrou no meu radar quando Tom Cruise saiu surtado em uma série de entrevistas e pulou no sofá da Oprah enquanto declarava seu amor para Katie Holmes. Só então fui saber que era uma religião diferente, e apenas posteriormente entendi que era uma mera fachada para lucrar inventada por um homem insano na década de 50. Porém, foi com Going Clear: Scientology and the Prison of Belief que senti medo. Medo de ter uma das mais pavorosas instituições da Idade Contemporânea atuando livremente pelo mundo.

O documentário de Alex Gibney é uma adaptação do livro homônimo de Lawrence Wright, e é composto por uma série de entrevistados que já estiveram envolvidos, seja como seguidores quanto serviços de segurança, com a Igreja fundada por L. Ron Hubbard. A figura mais conhecida entre eles é a do diretor e roteirista Paul Haggis (vencedor do Oscar por Crash: No Limite).

É uma estrutura consagrada adotada por Gibney. Enquanto os entrevistados compartilham seus depoimentos para a câmera, uma série de montagens e dramatizações são exibidas para garantir uma experiência mais envolvente. É uma escolha certeira, o que torna Going Clear uma excelente introdução para aqueles desconhecidos com o tema. A primeira seção do longa faz um breve panorama sobre a vida de Hubbard, denunciando os claros problemas mentais do aspirante a escritor, que não deixa nenhuma dúvida em sua intenção de criar uma religião apenas para que lucre com a isenção de impostos fiscais.

Uma breve aulinha para vocês. Sabem como é o mito da Criação de acordo com a Cientologia? Bem, deixe-me preparar mentalmente. De acordo com a tese de Hubbard, há 75 milhões de anos atrás, um problema de superpopulação interplanetário faz com que o ditador galáctico Xenu abrace o genocídio ao capturar parte da população, congelá-la e então lançá-las nos vulcões do planeta Teegeeack (nome ancestral charmoso para o planeta que hoje conhecemos como Terra), provocando uma reação em cadeia que culmina em uma explosão nuclear. Isso cria os chamados “thetans”, pedaços de almas que se aglomeram e criam um corpo humano. Ah, fiquem calmos: o Lorde Xenu foi capturado e permanece até hoje trancafiado em algum canto obscuro da galáxia.

É isso o que a Cientologia prega, basicamente. As sessões de “terapia” que a Diegética I executa é o grande chamariz do público, já que Hubbard vendia seu método como algo terapêutico; a bombástica revelação de Xenu só vinha após um certo “nível” alcançado pelo seguidor. É fantástico acompanhar a reação dos entrevistados ao compartilhar seu primeiro contato com Xenu, Haggis notavelmente atesta que “deve ser uma espécie de teste, se você acreditar nisso você está fora”. Nesse aspecto, vale a pena revisitar O Mestre, onde Paul Thomas Anderson traça um paralelo muito similar com a carreira de Hubbard, especialmente durante o período em que apostou em viagens marinhas.

Parece cômico, mas Going Clear atinge um nível assustadoramente sombrio ao revelar as táticas de comportamento da Igreja. Com uma famosa sede em Los Angeles, os entrevistados compartilham histórias de humilhação, jogos sádicos e até um bizarro controle mental para impedir que os “fiéis” contrariem as normas da instituição. Um dos pontos altos da dramatização é justamente em uma dessas histórias, quando nos apresenta a uma sinistra dança de cadeiras ao som de “Bohemian Rapsody” do Queen. O testemunho de uma mãe, Sara Goldberg, que revela como sua filha optou por abandoná-la para seguir as práticas de Hubbard chega a ser devastador, ainda mais quando Sara mostra-se incapaz de segurar as lágrimas ao recordar de seu último encontro.

O poder que a Cientologia ganhou também é evidenciado com três figuras importantes: John Travolta, Tom Cruise e, principalmente, David Miscavige. Travolta foi o primeiro porta-voz da religião, uma figura famosa e popular de sua época que basicamente buscava construir uma boa imagem para a instituição. O que o documentário nos revela é que tudo indica para uma chantagem, já que a Cientologia tem a política de reunir todo tipo de informação possível sobre seus participantes. Com Travolta, não foi diferente, e é realmente muito coincidental que os rumores de sua relação homossexual tenham sido lançados ao público justamente quando pensava em deixar a religião. Cruise é o substituto natural de Travolta: um grande astro de Hollywood que torne-se uma imagem forte para uma nova geração. Gibney então explora a relação de Cruise com o sucessor de Hubbard, David Miscavige (mais sobre ele em alguns instantes), e como este – por falta de termo melhor – fora mimado pela instituição, que lhe presentou com aviões, casas e até mesmo uma nova namorada após seu divórcio com Nicole Kidman; que também teria ocorrido sob influência da Igreja, de acordo com o documentário.

Então, chegamos a David Miscavige. Acho que nem se Ian Fleming e Stephen King se juntassem poderiam criar um antagonista tão único como Miscavige. Desde criança um seguidor determinado e fã absoluto de Hubbard, Miscavige é atualmente o líder da Igreja da Cientologia. Não é apenas seu olhar profundo e sorriso maníaco que assusta, mas o tratamento realmente fascista que recebe dos seguidores durante as cerimônias gravadas no templo da Igreja (aliás, me pergunto como Gibney conseguiu acesso a tanto material privado), que incluem um faraônico altar e muito pirotecnica para que apenas um homem discurse para milhares. São suas ações que assustam, especialmente quando convence a congregação a declarar guerra contra a Receita Federal ou as denúncias de abuso psicológico e humilhação.

É ainda mais bizarro ver os stormtroopers de Miscavige, enviados em programas de televisão para defender a integridade da Igreja. Nesse quesito, Gibney acerta ao trazer material público para defender sua posição, já que – em certo ponto – vemos um grupo de ex-mulheres de ex-membros atacarem suas opiniões e ações, e não deixa de ser peculiar como o grupo se comporta de maneira idêntica, além de usarem as mesmas frases e/ou construções destas. E os “espiões” que perseguem e filmam casas dos “desertores” do grupo? Assustador.

Parte exposé, parte entretenimento de primeira, Going Clear: Scientology and the Prison of Belief é um documentário arrebatador e que certamente vai incomodar muita gente. Definitivamente merece ser visto, antes que Miscavige resolva atacar a internet novamente.

Going Clear: Scientology and the Prison of Belief (EUA, 2015)

Direção: Alex Gibney
Roteiro: Alex Gibney
Elenco: Paul Haggis, Mike Rinder, Jason Beghe, Sara Goldberg, Tony Ortega, David Miscavige, Tom Cruise, John Travolta, L. Ron Hubbard
Duração: 119 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.