Crítica | Godzilla (Gojira, 1954)

estrelas 4

A explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki marcaram para sempre a História do Japão pós-1945. Além das consequências à vida e saúde da população local, as bombas marcaram um período de reestrutura do país depois da Segunda Guerra, acompanhado de uma transição ideológica de governo e de uma transformação na forma como o povo japonês via a vida, especialmente os que moravam em regiões urbanizadas.

Durante a Guerra Fria, o medo da bomba atômica e inúmeras citações de suas consequências para o povo japonês puderam ser vistas em livros, mangás, animes e filmes. Godzilla (ou Gojira, no original) foi o primeiro filme japonês do gênero kaiju (besta incomum) e o primeiro filme a trabalhar a ficção científica pelo lado dos temores de uma próxima guerra e, principalmente, do que os governos estrangeiros poderiam voltar a fazer com o Japão.

No Panorama do Cinema Japonês (1931 – 1960), eu destaquei as mudanças estruturais pelas quais os Estúdios e o próprio cinema nipônico estava passando. E ao mesmo tempo em que novas demandas de mercado e novas tecnologias chegavam ou eram desenvolvidas no país, a proximidade dos 10 anos da destruição de Hiroshima e Nagasaki contribuíram para que alguns filmes sobre o tema viessem à tona, fossem a partir de uma perspectiva analítico-filosófica como em Anatomia do Medo, de Akira Kurosawa; fosse pelo viés dos filmes kaiju, inaugurados pelo monstro pré-histórico e mutante chamado Godzilla.

Produzido pela Toho, Godzilla contou com uma equipe de produção bastante ousada. Primeiro, o diretor Ishirô Honda, que nunca rejeitou projetos meio malucos e tinha uma forma bastante erudita de dar vida a grandes criaturas e enredos sobre destruição e horror fazendo-os ter, na maior parte das vezes, um significado social como linha paralela à história de ficção. Depois, o famoso Eiji Tsuburaya, que através de técnicas notáveis de efeitos especiais transformou os sonhos de Honda numa realidade palpável e possível. Por fim, uma dupla de roteiristas que souberam transformar a encomenda da Toho em uma história de várias camadas, exatamente como fez a equipe estadunidense do King Kong original, em 1933.

A história-base para o surgimento de Godzilla não poderia ser mais sintomática: um animal pré-histórico e parte da lenda urbana de vilas no litoral do Japão é deslocado de seu habitat natural após uma larga contaminação radioativa, causada evidentemente pelos eventos de Hiroshima e Nagasaki (que o filme não cita, mas fica implícito). Possivelmente o único/primeiro/último (?) de sua espécie, esse monstro agora tem um caráter mutante e passa a atacar embarcações próximas à região do mar onde vive. No desenvolver da trama, o lagartão deixa o mar e caminha para as cidades do litoral, causando destruição e contaminação radioativa por onde passa.

Se juntarmos todo o contexto histórico e político do Japão em meados do século XX e adicionarmos o enredo de Godzilla, entenderemos não só as escolhas mas também as motivações implícitas que Honda e sua equipe levaram a cabo. O filme também pode ser visto unicamente como uma obra de desastre protagonizada por um animal esquisito misto de Tiranossauro, Iguanodonte e Estegossauro, cujo fim acontece graças a uma pesquisa científica pouco comum de um cientista marginalizado.

Mas expandindo esse contexto para além do óbvio e do status geopolítico citado anteriormente, teremos o impasse científico para uma situação de vida ou morte de toda a população de um país; a reflexão de um Zoólogo sobre matar ou não o único indivíduo de uma espécie rara; o medo de um cientista de que sua pesquisa seja usada como arma de destruição e massa; um povo que ainda lembra dos abrigos da guerra e não quer mais voltar para eles.

É por isso que o Godzilla de 1954 é um clássico. Seus efeitos podem parecer ridículos para um “espectador cru” do século XXI, mas ainda possuem seu valor prático (visto no filme) e histórico, porque marcaram época no uso de técnicas de construção de maquetes e uso de efeitos in loco ou inserção de camadas de filme gravadas em locais diferentes. É claro que existem furos no texto aqui e ali, e a montagem erra bastante também, mas não estamos dizendo que este seja um filme perfeito. Dizemos apenas que é um inesquecível marco do cinema, uma obra que deu o primeiro passo nesse marcado dos monstrões destruidores, hoje tidos como “normais” para o cinema e aparentemente sem camada social nenhuma — pelo menos na maior parte dos casos. Como os tempos mudaram!

Godzilla (Gojira) – Japão, 1954
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: Ishirô Honda, Shigeru Kayama, Takeo Murata
Elenco: Akira Takarada, Momoko Kôchi, Akihiko Hirata, Takashi Shimura, Fuyuki Murakami, Sachio Sakai, Toranosuke Ogawa, Ren Yamamoto, Hiroshi Hayashi
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.