Crítica | Golden Exits

Alex Ross Perry é um daqueles diretores cujas identidades podem ser facilmente identificadas em seus filmes. Ao retratar situações de normalidade, recortes da vida em si, o realizador imprime um certo ar de estranheza em suas histórias, algo que pode ser visto com clareza em Cala a Boca PhilipRainha do Mundo e, aqui, em Golden Exits, seu mais novo longa-metragem, exibido no Festival do Rio 2017.

A obra nos conta a história de duas famílias, unidas pela relação inter-pessoal de determinados personagens e pela conexão com Naomi (Emily Browning), uma intercambista australiana, que vai passar alguns meses no Brooklyn. Sua chegada, porém, desestabiliza todo o dia-a-dia desses personagens, cujos casamentos são colocados em xeque, principalmente pelas ações duvidosas dos maridos, que parecem se interessar (mais do que deveriam) pela estrangeira. Dessa forma, o texto de Perry foca nesses relacionamentos, sempre fazendo bom uso dos diálogos a fim de explicitar  a instabilidade emocional de cada indivíduo, evidenciando a fragilidade dessas relações.

Quem nunca assistiu um filme do diretor/ roteirista certamente irá estranhar a verborragia de determinados personagens — tal aspecto, ainda que cause certo desconforto imediato, com pontos até exagerados, prova ser uma das principais características de sua filmografia, que atua de forma a criar a já mencionada sensação de estranheza na obra em questão. Sabiamente, o roteiro faz de Naomi uma personagem com poucas falas, permitindo que enxerguemos com maior clareza a percepção idealizada dos outros ao seu redor em relação a ela. Sua liberdade, sempre evidenciada, cria a perfeita oposição com as vidas mais “presas” dos outros personagens, de tal forma que eles passam a visualizá-la como uma espécie de libertação de seu dia-a-dia.

Não é por acaso, portanto, que qualquer interação entre personagens soe como uma verdadeira provação, como se eles estivessem se esforçando para manter o mínimo de contato, algo que não aparece quando interagem com Naomi, que representa a novidade em suas vidas, uma fuga daquela mesmice que tomara conta das rotinas diárias. Com cartelas que mostram a passagem dos dias, passamos a ver como, mesmo esse elemento estranho passa a deixar de representar o “diferente” e, pouco a pouco, tudo vai retornando à estagnação do estado inicial da trama, tendo a aparição da intercambista funcionado apenas como mera interrupção, não revolucionando a vida de qualquer uma dessas pessoas.

Para fazer toda essa construção narrativa funcionar, a habilidosa montagem de Robert Greene sabe muito bem pular de foco em foco, mantendo todo o ritmo seguindo de maneira fluida. A noção de passagem de tempo vai se difundindo na narrativa, ao passo que somente sabemos que os dias passaram quando um texto aparece na tela nos dizendo que dia é. Esse ponto, claro, dialoga com o tédio constante desses personagens, tão obcecados por pontos específicos de suas vidas, que esquecem efetivamente de aproveitar aquilo que há ao redor, algo muito bem representado pelo personagem Nick (Adam Horovitz).

Em determinado momento da projeção, ouvimos Naomi falando que as pessoas não fazem filmes sobre pessoas comuns, o que não é bem verdade, já que, ironicamente, é exatamente isso que Alex Ross Perry faz aqui em Golden Exits. Esse recorte da vida de determinados indivíduos, porém, passa longe da normalidade, já que a narrativa é tomada pela sutil estranheza proporcionada pelo seu roteiro. Novamente o realizador acerta em cheio, entregando um belo retrato sobre pessoas cujo dia-a-dia foi tomado pela falta de perspectiva, transformando-os em indivíduos desmotivados, que precisam de novidades a cada momento para poderem, de fato, viver.

Golden Exits — EUA, 2017
Direção:
 Alex Ross Perry
Roteiro: Alex Ross Perry
Elenco: Emily Browning, Craig Butta, Jason Grisell,  Adam Horovitz, Mary-Louise Parker, Jason Schwartzman,  Lily Rabe, Chloë Sevigny,  Kate Lyn Sheil, Analeigh Tipton
Duração: 94 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.