Crítica | Goliath – 1ª Temporada

estrelas 4

O químico francês Antoine Lavoisier cunhou a famosa frase “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” que, no meio artístico, ganhou sua própria versão: “na arte nada se cria, tudo se copia”. E, se olharmos de maneira abrangente para as artes em geral, é difícil mesmo afastar essa conclusão, ainda que ela não retire o mérito de obras inspiradas em outras. Goliath, nova série da crescente produção original do Amazon Studios, que, junto com o Hulu e outros canais de streaming, correm atrás do modelo de sucesso do Netflix, é o mais recente exemplo da máxima inspirada em Lavoisier.

Afinal de contas, se quebrarmos a estrutura da série em pequenos blocos, veremos que ela é formada, em sua integralidade, de clichês, de situações que já vimos dezenas de vezes antes. Aliás, apenas para ficar no mesmo ano, a ótima série The Night Of, da HBO, traz elementos que são praticamente repetidos em Goliath. Mas, com isso, não quero dizer que uma série foi baseada na outra, até porque elas foram produzidas simultaneamente e nem que a cópia ou a inspiração é algo necessariamente ruim. O uso de clichês ou de “padrões de um gênero” para fugir da conotação negativa que a palavra de origem francesa acabou ganhando ao longo do tempo, não é, em si, condenável. Muitos autores sabem trabalhar estruturas repletas deles e mesmo assim criam obras poderosas. Goliath é, já a partir de seu título – o Golias bíblico -, uma grande amálgama de clichê, fórmulas e padrões de filmes de advogado e/ou de tribunal.

Temos um brilhante advogado com uma doença debilitante que, hoje, é uma pálida sombra do que fora em razão de problemas de bebida? Sim, temos. Temos um grande escritório de advocacia defendendo uma enorme empresa fabricante de armamentos? Temos também. Temos uma morte misteriosa que todo mundo acredita ser suicídio menos o tal advogado que um dia fora um expoente em sua área? Sim, está lá. Temos a prostituta com coração de ouro? Sem dúvida. Temos o mega-advogado poderosíssimo e misterioso que odeia o advogado falido? Obviamente que sim. Temos mistérios que só se agravam na medida em que o suicídio passa a ser investigado? Ô se temos!

Provavelmente muitos leitores já terão revirado os olhos para esse monte de situações que tem sido usadas várias vezes todos os anos por Hollywood décadas antes de Gregory Peck defender o impossível em O Sol é para Todos ou de Paul Newman levar seu caso ao tribunal em O Veredito ou mesmo de Gene Hackman lutar contra tudo e contra todos em Julgamento Final. Estes três filmes – poucos na vastidão de outros exemplos possíveis – e também a já citada e recente série The Night Of provam que, se bem usadas, as fórmulas funcionam bem. É o que acontece em Goliath, que coloca o advogado de “porta de cadeira” Billy McBride (Billy Bob Thornton) desencavando um caso de aparente suicídio e levando-o ao tribunal contra a poderosíssima empresa Borns Tech representada pelo mais poderoso ainda escritório de advocacia Cooperman & McBride, co-fundado por Billy e, hoje, comandado com mão de ferro pelo misterioso e deformado Donald Cooperman (William Hurt) e de onde a ex-esposa de Billy, Julie (Maria Bello), é sócia.

Dois elementos seguram o espectador logo de cara: as atuações e o uso de um artifício “malandro” por David E. Kelley e Jonathan Shapiro (os criadores) nos dois primeiros episódios. Mas comecemos pelas atuações. Billy Bob Thornton, magérrimo, está estupendo como alguém que claramente já foi grande e bem-sucedido na vida, mas que, agora, sedimentou-se como um advogadinho de casos simples, morando em um motel, sendo amigo de uma cadela vira-latas que vive nos arredores e entregando-se à garrafa ritualisticamente. Não precisamos de explicações sobre seu passado profissional nem sobre sua vida para percebermos muitas de suas características tamanha é a devoção de Thornton ao papel, amalgamando características de seu recente Lorne Malvo, na 1ª temporada de Fargo e de Ed Crane, de O Homem que Não Estava Lá, sem deixar de acrescentar aspectos peculiares à sua nova composição, particularmente uma melancolia conformada presente em cada sorriso, em cada palavra hesitantemente dita à equipe “mulambenta” que acaba tendo que formar.

No outro espectro, temos William Hurt divertindo-se horrores em um papel para lá de caricato, mas que não deixa de ser fascinante do lacônico super-advogado Donald Cooperman, com metade do corpo queimada (as semelhanças com o Duas-Caras, inimigo do Batman são inafastáveis) que mora na cobertura do prédio onde fica seu escritório, mas que mantém uma aura de mistério ao nunca aparecer para seus funcionários e sócios – com exceção de um grupo seleto – e ao participar de depoimentos e audiências por intermédio de câmeras que ele acessa pelo computador de sua sala sempre em penumbra, mas com tons avermelhados, tons esses que já identificam – outro clichê! – o tipo de pessoa que ele verdadeiramente é. Na medida em que a narrativa progride, porém, as verdadeiras cores tanto de Cooperman quanto de McBride vão sendo aos poucos reveladas e o espectador percebe que eles são, na verdade, dois lados de uma mesma moeda, ainda que, naturalmente, a empatia fique do lado de McBride por sua posição de desvantagem e pelo caso judicial em si.

Mas, entre Thornton e Hurt, há outras grandes atuações, todas femininas. Maria Bello como Julie, apesar de estranhamente receber pouco destaque na narrativa, tem presença forte todas as vezes que aparece, uma espécie de âncora moral para as barbaridades que vemos transcorrer na tela. Diana Hopper como Denise, filha adolescente de Billy e Julie, também tem presença intermitente, mas ela consegue muito fazer muito bem a ponte entre os pais separados há anos. Nina Arianda como a advogada Patty Solis-Papagian, que traz o grande caso para conhecimento de Billy, é uma excelente mistura de alívio cômico e contraponto ao protagonista, com quem estabelece um ótimo rapport. Tania Raymonde vive a bela prostituta transformada em secretária e paralegal Brittany Gold tem grande destaque na narrativa, com papel realmente crucial em seu desenvolvimento. Molly Parker, a deputada Jackie Sharp de House of Cards, vive a ambiciosa Callie Senate, advogada sênior do escritório de Cooperman que é a titular do caso e faz de tudo para subir na carreira. E, por último, mas não menos importante, há Olivia Thirlby como Lucy Kittridge, uma jovem advogada com problemas nervosos que acaba caindo nas graças de Cooperman, algo que também serve à sua crescente ambição.

O que se verifica é que, mesmo com alguns exageros aqui e ali em termos de atuação, todo o elenco funciona de maneira harmônica e sempre dentro de uma lógica estrutural que torna a temporada de fácil absorção pelos espectadores, mesmo quando o roteiro dolorosamente descamba para explicações expositivas e completamente desnecessárias como a apresentação didática em PowerPoint sobre o tamanho do escritório Cooperman & McBride. Fato é, porém, que Thornton carrega a temporada nas costas, com Hurt também atraindo a atenção pela peculiaridade de seu personagem.

Mas eu mencionei um artifício usado pelos showrunners nos primeiros episódios para cativar os espectadores. E é algo simples: o cliffhanger. Normalmente relegados a episódios de encerramento de temporada, aqui há uma sucessão de finais surpreendentes que têm a função clara de fisgar a audiência. Mesmo quem detectar os clichês e torcer o nariz para eles, no mínimo ficará curioso com o desenvolvimento narrativo do começo da temporada com os chocantes acontecimentos nos finais dos 1º e 2º episódios. E, como o artifício nos faz mergulhar pelo menos até o final do 3º, a conclusão natural, mesmo aos mais reticentes, é que “só faltam cinco” e não faz sentido parar. E não faz mesmo, pois ainda que a série apresente uma certa “barriga” lá pela metade, quando as sequências de tribunal clássicas começam, a temporada ganha novo fôlego que mantém até o final, mesmo que ele seja conveniente demais para o tom impresso até o momento.

Goliath, no final das contas, é uma deliciosa armadilha narrativa de David E. Kelley e Jonathan Shapiro, que usa com precisão suas duas estrelas como pontos focais para atração do público. Se tudo que fosse copiado tivesse a qualidade que Goliath tem, o Cinema e a Televisão de fácil digestão seria bem mais relevante do que infelizmente é hoje em dia.

Goliath – 1ª Temporada (EUA, 14 de outubro de 2016)
Criação: David E. Kelley e Jonathan Shapiro
Direção: Lawrence Trilling, Alik Sakharov, Bill D’Elia, Anthony Hemingway
Roteiro: David E. Kelley, Jonathan Shapiro
Elenco: Billy Bob Thornton, William Hurt, Olivia Thirlby, Maria Bello, Sarah Wynter, Molly Parker, Britain Dalton, Nina Arianda, Tania Raymonde, Dwight Yoakam, Harold Perrineau, Damon Gupton, Diana Hopper
Duração: 50 a 60 min. (cada episódio – 8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.