Crítica | Goliath – 2ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

A 1ª temporada de Goliath colocava Billy McBride, um outrora brilhante advogado, mas que entregou-se à bebida depois de desiludir-se, contra uma gigantesca empresa em um complexo caso de aparente suicídio. Usando uma sucessão de clichês bem costurados e bem trabalhados e com uma incrível atuação de Billy Bob Thornton, a luta bíblica de Davi contra Golias ganhou forma de drama de tribunal, com um final semelhante ao da lenda, apesar dos diversos percalços que Billy e seu grupo enfrentam. Na 2ª temporada, porém, o mundo real bate à porta e transforma a funda de Davi em um instrumento impreciso e que nem de longe alcança os resultados pretendidos.

E este é o maior mérito da nova temporada além de mais um trabalho inspirador de Thornton: perverter expectativas e mostrar que a vida não é uma sucessão de vitórias retumbantes com soluções mágicas tiradas da cartola no último segundo. Porém, se David E. Kelley e Jonathan Shapiro mostraram essa coragem aqui, com o sempre presente perigo de deixar os espectadores desgostosos com um final bem menos heroico e redondo do que o anterior, eles também deixaram a série com rédeas soltas, sem escrever os roteiros como anteriormente, que levaram a 2ª temporada por caminhos para lá de bizarros que chamam atenção demais para si mesmos, retirando espaço da estrutura de drama de tribunal que foi tão bem firmado anteriormente. Aliás, esqueçam drama de tribunal, pois essa seria uma definição enganosa para a temporada, já que o embate se dá muito mais fora das cortes do que diante da Juíza Martha Wallace (Alexandra Billings).

Apesar de vitorioso no caso anterior e de ter recebido um cheque gordo, Billy não mudou seus hábitos e continua bebendo como se não houvesse o amanhã e morando em um motel perto do píer de Santa Mônica, na Califórnia. Esse artifício de manutenção de status quo, por si só, parece preguiça do roteiro em evitar que o personagem de Thornton evolua. Sim, lutar contra o vício da bebida e contra a depressão é extremamente difícil, mas simplesmente glosar mesmo que um esboço de resistência por parte de Billy pareceu-me uma simplificação exagerada da situação e uma fuga dessa abordagem. Sim, Denise (Diana Hopper) logo volta para ficar com o pai e protagoniza algumas débeis sequências sobre a doença do pai, mas tudo fica por aí, sem muito esforço, sem muita tentativa de mudar o que poderia – e talvez devesse – ser mudado.

Mas a falta dessa abordagem, que poderia ter funcionado como um subtexto instigante e sempre presente, não é o maior problema da temporada nem de longe. Com um grupo novo de roteiristas que muito claramente não queria apenas seguir a estrutura da temporada anterior (algo a ser louvado, que fique claro), a história, que começa como Billy engajando-se na defesa de Julio Suarez (Diego Josef), filho de Oscar (uma ponta de Lou Diamond Phillips), que trabalha no bar onde Billy embebeda-se todas as noites. A acusação de duplo homicídio é claramente falsa, mas ela é, apenas, a ponta de um gigantesco iceberg de podridão na polícia, na corrida pela prefeitura de Los Angeles, nos interesses de um desenvolvedor imobiliário e, claro, de um cartel de drogas mexicano, algo que Billy vai muito aos poucos descobrindo depois de reunir sua equipe mais uma vez.

Infelizmente, porém, em meio aos personagens novos e às novas situações, a divertida advogada Patty Solis-Papagian (Nina Arianda), a arrependida ex-prostitua transformada em paralegal Brittany Gold (Tania Raymonde) e a sempre positiva secretária Marva Jefferson (Julie Brister) simplesmente não têm o que fazer na temporada, voltando muito mais para dar ao espectador aquele conforto de estar vendo a mesma série do que qualquer outra coisa. Todas elas, aqui, não passam de extras de luxo, aparecendo aqui e ali, mas sem que suas ações efetivamente influenciem a narativa, desperdiçando as talentosas atrizes, especialmente Arianda.

No lugar do núcleo que deveria ser o principal, os roteiros trocam o enfoque para o relacionamento de Billy com Marisol Silva (Ana de la Reguera), candidata a prefeita da cidade que defende Julio ferrenhamente, mas que tem relações escusas com Gabriel Ortega (Manuel Garcia-Rulfo), líder do cartel de drogas La Mano que, nas horas vagas, gosta de decepar cirurgicamente membros de desafetos e com Tom Wyatt (Mark Duplass), desenvolvedor imobiliário que, por sua vez, somente se excita vendo membros decepados serem massageados em um ritual doentio. E é justamente essa doideira de braços e pernas cortados que a temporada começa a perder-se mais gravemente, com um nível de detalhe gráfico estranho e deslocado e que parece gritar “olha, sou ousado e diferente!” muito mais do que fazer algum sentido dramático para além de transformar Gabriel e Tom em dois vilões dignos de figurar nas versões mais exageradas da franquia de 007.

E o mais triste é ver que mesmo a tara louca de Tom, que abre espaço para uma atuação interessante de Duplass, não é desenvolvida de verdade, servindo mais de “enfeite” na temporada do que algo que realmente afete ou influencie a narrativa, mesmo quando ele começa a relacionar-se com a desavisada Brittany. É como ver duas séries. Uma investigativa e outra repleta de fetiches para chocar o espectador, mas que jamais se conectam de verdade. Aliás, mesmo no aspecto investigativo, há problema, pois Billy baseia todas as suas descobertas única e exclusivamente nos conhecimentos do extremamente bem conectado J.T. (Paul Williams), advogado que trabalhara no escritório de Billy e que, como ele, ficou desgostoso com a profissão. Como um deus ex machina permanente, J.T. é o Google das perguntas aleatórias para as quais ele sempre tem a resposta sem jamais errar, o que automaticamente torna tudo muito mais fácil e conveniente para Billy e, claro, para os roteiristas.

Mas, apesar de todos os pesares, há ainda o que retirar de bom da 2ª temporada de Goliath. Billy Bob Thornton continua mastigando o cenário (que, aliás, há pouco, já que, de forma muito bem-vinda, quase toda a série e filmada em locação) e constrói seu personagem amargurado, vencido pela vida, mas teimoso até o último fio do cabelo, com maestria e de forma hipnotizante ao ponto de nem mesmo o estranhíssimo vilão de Duplass ou a sinistra candidata a prefeita de De La Reguera consiga chegar próximo de igualar-se. Além disso, o penúltimo episódio, Diablo Verde, apesar de ser concluído de maneira estranha ao personagem de Thornton, é um primor de roteiro e de direção, funcionando como uma história apartada e quase independente do todo, com participações especiais de Paul Ben-Victor e Steven Bauer em uma narrativa de contornos surreais até que fazem valer perseverar até lá. E, finalmente, como mencionei no início da presente crítica, há o encerramento sombrio para a temporada, algo bem diferente do que vimos na anterior. É aqui que os roteiristas souberam de verdade manejar a história de forma a evitar arroubos de brilhantismo de Billy no último segundo para virar o jogo milagrosamente. Não há invencionices, não há final feliz. Muito ao contrário, houve coragem em entregar um Davi que, apesar de todos os esforços, erra seu alvo, deixando o Golias intacto.

Com uma história bizarra que não se encaixa de verdade no todo, a 2ª temporada de Goliath tenta ser diferente, mas acaba sendo apenas estranha. Há ainda, sem dúvida, o que se apreciar neste tour de force de Billy Bob Thornton, mas faltou coesão e desenvolvimento de personagens, elementos que cederam espaço para enfeites narrativos que não são harmônicos com a história sendo contada.

Goliath – 2ª Temporada (EUA, 15 de junho de 2018)
Criação: David E. Kelley, Jonathan Shapiro
Direção: Lawrence Trilling, Dennie Gordon
Roteiro: Ben Myer, Noelle Valdivia, Tony Saltzman, Jennifer Ames, Steve Turner, Marisa Wegrzyn
Elenco: Billy Bob Thornton, Nina Arianda, Tania Raymonde, Diana Hopper, Julie Brister, Ana de la Reguera, Matthew Del Negro, Morris Chestnut, Mark Duplass, Diego Josef, Dominic Fumusa, Paul Williams, James Wolk, Alexandra Billings, Manuel Garcia-Rulfo, Lou Diamond Phillips, Paul Ben-Victor, Steven Bauer
Duração: 50 a 65 min. (cada episódio – 8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.