Crítica | González

estrelas 2,5

González é um interessante, porém falho filme mexicano, que tem como objetivo primordial fazer uma nada sutil crítica sobre o poder de manipulação que as igrejas têm sobre seus fieis e, ao mesmo tempo, a fragilidade da propalada fé desses mesmos fieis. Para isso, Christian Díaz Prado constrói uma fita em volta do personagem título, que e sua evolução ao longo de alguns dias.

Harold Torres vive González González, um homem que, na Cidade do México, vive em um quarto alugado em um apartamento de terceiro. Ele não tem dinheiro para nada, não tem emprego e vive pendurado por uma dívida de cartão de crédito em um banco por ter comprado a única coisa que lhe permite fugir de sua vida dura: uma televisão. Sua rotina é sair de manhã para procurar emprego e ver TV à noite, sem dinheiro nem meso para comer, já que suas constantes conversas com sua mãe pelo telefone celular deixam claro que todo dinheiro que ele consegue, ele manda para ela.

Nesse seu desespero, ele consegue o emprego de operador de telemarketing de uma versão minimamente modificada da Igreja Universal do Reino de Deus. Digo minimamente, pois a produção não se preocupa em fazer algo discreto e usa como símbolo da igreja uma pomba branca com o bico para baixo, dentro de um coração. Até mesmo o Pastor Elías (Carlos Bardem) finge ser brasileiro para não deixar dúvidas de que igreja o roteiro está falando. Dentro de uma estrutura que o obriga a arrancar o resto do dinheiro de miseráveis que ligam buscando ajuda divina, González aprende como o mundo funciona e resolve mudar sua vida, tornando-se pastor também, apesar de ele não acreditar em nada.

A crítica às igrejas em geral é descarada, violenta, sem freios. O Pastor Elías é retratado da pior forma possível, um verdadeiro lobo em pele de cordeiros e seus fieis são massa de manobra que ele utiliza unicamente para enriquecer a estrutura corrupta estabelecida. Fica evidente que a simbiose entre ludibriador e ludibriado é algo que se repete em todos os lugares, com literalmente uma gleba de terra no Paraíso sendo adquirida com dinheiro. Betsabé (Olga Segura), a recatada operadora de telemarketing com quem González de envolve representa os fieis em geral. Ela nunca anda com homens, mas deseja González ao ponto de nada fazer quando ele literalmente a toma a força. É uma sequência desconcertante, de gosto duvidoso, que poderia ter sido executada de maneira mais eficiente, pois o objetivo do diretor era mostrar a hipocrisia dos beatos.

De toda forma, a crítica é bem construída, especialmente nas várias vezes em que, desesperado, González tenta simplesmente conversar com o Pastor Elías em seu luxuoso escritório. A frieza do homem que passa seus dias dizendo que todos devem ter seu deus é marcante e certamente representativa desse tipo de gente (e antes que me venham acusar de preconceituoso, saibam que não tenho nada contra as religiões, mas tudo contra as igrejas, pois elas, via de regra, são manipuladoras de seu rebanho). A transformação de González é também crível, mas somente até certo ponto, quando, já no terço final, a estrutura narrativa começa a desmoronar com a necessidade de encerramento. Vê-se o caminho que o roteiro poderia ter seguido, mas a resolução fica muito aquém de tudo o que veio antes e retira o impacto do trabalho de Prado.

Mas é interessante notar a fotografia de Juan Pablo Ramírez, que faz uso de pouquíssima profundidade de campo ao redor de González, deixando-nos sentir a claustrofobia que o cerco financeiro impõe ao personagem. Focamos só nele quase que todo o tempo e não vemos mais nada, só imagens desfocadas, exatamente o que o desespero de González o faz ver. Esse artifício narrativo funciona muito bem durante quase todo o tempo da fita, ruindo somente juntamente com o final.

Harold Torres convence na transformação de seu personagem e consegue criar empatia suficiente com o espectador de maneira que nos preocupemos com ele genuinamente. O mesmo vale para Carlos Bardem, mas na outra ponta do espectro. Sua vilania é daquelas puras, que dá vontade de pular na tela e pegá-lo pelo pescoço. Parece artificial por vezes, mas convence em linhas gerais, criando uma oposição interessante ao cada vez menos inocente González.

No final das contas, apesar de todos os problemas, a crítica de Prado é relevante e deveria ser mais vezes repetidas no cinema. Há maneiras mais elegantes de se obter resultados mais relevantes, mas a grande verdade é que, às vezes, não há nada como um bom soco no estômago para fazer as pessoas acordarem.

González (Idem, México – 2014)
Direção: Christian Díaz Prado
Roteiro: Fernando del Razo, Christian Díaz Prado
Elenco: Harold Torres, Carlos Bardem, Olga Segura, Gaston Peterson
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.