Crítica | Goosebumps: Monstros e Arrepios

estrelas 3,5

Lembro-me de quando eu era um projeto de gente. Um molequinho com seis ou sete anos que um dos maiores passatempos de sua infância,  era sintonizar a televisão no canal da Fox Kids – número 45 da NET. Mesmo com uma programação impecável que variava desde X-Men 92, Sorriso Metálico, Medabots, Shaman King, Digimon, Power Rangers e Spider-Man 94, a Fox ousava nas noites de sábado e domingo. O canal mudava sua programação e transmitia uns seriados um tanto quanto mais “adultos” e assustadores. Começava sempre com Lenore – A garotinha Morta – um dos desenhos mais legais e criativos que eu já tinha visto até então, a série animada de Beetlejuice, Contos da Cripta e concluía com A Família Addams para deixar o ambiente mais leve.

Porém, no meio dessa assustadora programação, existia um seriado que realmente me dava calafrios e este era Goosebumps, adaptação dos milhões de livros do autor R.L. Stine para as telinhas. Entretanto, mesmo reconhecendo o medo que sentia era proveniente do seriado, eu nunca deixava de perder um capítulo, pois me divertia com seu humor pontual e pelo elenco infanto-juvenil competente. Mesmo fascinado pela série, eu nunca tive o menor interesse em ler as obras literárias do escritor – apesar de todos os meus amigos lerem, me atendo com algumas leituras pontuais.

Agora, com 21 anos, foi com surpresa que recebi a notícia que este filme seria feito. Nas últimas semanas, havia visto o trailer e me desanimei. Achei que seria mais um longa estúpido com piadas calhordas baseado em um universo batido a la Jumanji. Felizmente, eu me enganei. O filme é de fato muito bom e divertido – não chega a ser uma grata surpresa como a que tive com o maravilhoso Uma Aventura Lego, mas ainda assim, se trata de um ótimo entretenimento.

O texto de Darren Lemke traz a história de Zach e sua mãe, Gale, que estão de mudança para a pequena cidade de Madison. Lá, Zach rapidamente faz amizade com sua vizinha Hannah, filha de ninguém menos que o próprio R.L. Stine – ou Mr. Shivers. Graças aos ciúmes e obsessão de Stine com sua filha, ele a proíbe de manter amizade com o vizinho. Logo, Zach começa a suspeitar que a garota sofra violência doméstica graças ao comportamento paranoico e desnaturado do pai. Porém, quando ele tenta confrontar Stine e salvar Hannah do suposto ambiente de opressão, Zach acaba abrindo um dos diversos livros misteriosos da estante do escritor. Com isso, um monstro é liberado de seu confinamento mágico. Em pouco tempo, a fuga desse monstro desencadeia a libertação de todas as criaturas trancafiadas nos outros livros que começam a destruir a cidade inteira. Enquanto isso, Stine e os garotos tentam solucionar esse gigantesco problema e sobreviver aos ataques dos monstros furiosos.

Sim, é inevitável não comparar este Goosebumps com Jumanji. Essa ideia de personagens fictícios saírem de jogos de tabuleiro, filmes ou livros para interagirem com os protagonistas da trama já não é novidade há tempos. Essa ideia foi tão trabalhada que atingiu diversos gêneros sendo que até Woody Allen já brincou ao realizar o excelente A Rosa Púrpura do Cairo. Seja em Jumanji ou em Ruby Sparks, é inegável que a ideia funciona muito bem pelo seu exotismo.

Acredito que ao abordar essa temática para gerar o conflito principal da narrativa foi uma ótima sacada, afinal as boas adaptações dos livros já foram realizadas para o seriado de sucesso. Mesmo deixando o texto se basear sempre nessa jogada para mover a narrativa, Lemke consegue “inovar” copiando uma ideia de outro filme excelente – Mais Estranho que a Ficção.

Ou seja, o roteirista também aborda a metalinguagem, mas de modo bem simplificado e um tanto mal aproveitado – muita coisa boa poderia surgir disso, criando diversas reviravoltas em questão de segundos, porém o roteirista se contenta em utilizar a boa sacada apenas para resolver o clímax do longa.

Além dessas duas ótimas características, Lemke opta por abordar a obra de Stine com muito humor, deixando o horror de lado. Aliado à comédia – representada pelos ótimos Jack Black e Ryan Lee (ator que parece ter se inspirado na atuação genial de Rupert Grint em Harry Potter e a Câmara Secreta ao construir a figura de Champ, o amigo medroso do protagonista), o roteirista insere ao menos dois núcleos românticos que são bem desenvolvidos durante o longa, porém, devido ao contexto fantástico com criaturas relacionadas ao terror, é impossível não achar que o interesse romântico de Zach com Hannah seja apenas um agrado para as jovens viúvas da saga Crepúsculo.

Entretanto, mesmo sendo um romance bem normal permeado em um longa repleto de clichês, admito que há uma reviravolta no texto que me surpreendeu positivamente, apesar de ser um pouco previsível. Só que isso adiciona algumas camadas de complexidade para a relação de Hannah com Zack e Stine tornando o filme mais interessante ao abandonar a típica correria de perseguições a la episódios de Scooby Doo com orçamento alto.

Não deixa de ser um tanto decepcionante observar como o roteirista deixa o horror das histórias de Stine de lado. Goosebumps é um filme de comédia. Se está procurando algo que seja similar ao ótimo seriado, não encontrará nada disso aqui. Felizmente, a maioria das piadas consegue provocar o riso, além de acompanharmos personagens agradáveis e simpáticos – a química entre os atores juvenis é tão boa quanto a do trio responsável por Harry Potter.

Além do roteirista, também há outro culpado pelo filme ter uma atmosfera simples que pretere o suspense e o terror. Aqui, temos a direção de Rob Letterman – o mesmo do medíocre As Viagens de Gulliver também com Jack Black. Aliás, em uma das melhores sequencias, Letterman adiciona uma homenagem ao seu filme anterior ao fazer os anões de jardim amarrarem Jack Black no piso da cozinha.

Não há dúvidas que o diretor amadureceu seu estilo. Agora, tudo soa menos cafona e forçado como em seus filmes anteriores – ou seja, aqui, o produtor fez seu trabalho direito. Letterman entrega uma diversidade impressionante para a encenação criativa das inúmeras perseguições que acontecem durante o longa todo. Aliás, ele é inteligente em não apressar o verdadeiro começo do conflito. Até os monstros serem liberados, o diretor consome um tempo bem considerável para apresentar cinco personagens e desenvolvê-los um pouco para criar a empatia necessária com o espectador – apenas com Stine que Letterman deixa a desejar graças ao tratamento demasiado caricatural para o escritor no início do filme.

Letterman também erra quando se dedica ao principal antagonista da trama, Slappy, um boneco de ventríloquo – obviamente que o roteirista igualmente é responsável. Apesar da motivação do vilão fugir da estupidez característica de filmes do tipo, fica a impressão de que boas oportunidades para explorar o relacionamento de Stine com Slappy foram completamente desperdiçadas.

Outras coisas bizarras acometem o estilo do diretor. Ele deixa algumas cenas mal resolvidas apenas para apresentar com pressa a próxima correria de alguma perseguição x – isso acontece principalmente nas sequências do louva-deus gigante e dos zumbis. Isso acaba prejudicando bastante os personagens monstruosos já que nunca é dado um tratamento estético diferenciado para cada local da cidade que eles assombram, apenas mudando o cenário adicionando obstáculos para dinamizar a ação.

Certamente é triste, pois a obra de Stine é vasta com diversos tipos de criaturas horrendas com mitologias próprias que apenas são jogadas na tela aqui para fazer volume ou para correr atrás do quarteto protagonista. Ou seja, não há terror nisso tudo, nem mesmo um tiquinho de suspense. Letterman apenas usa alguns jump scares muito mequetrefes que não conseguem assustar nem um bebê de seis meses. Fora isso, o design das criaturas é bem pop “moderno” – tome o design do Lobisomem “borrachudo” como exemplo, abandonando completamente os resquícios rústicos e amedrontadores do seriado dos anos 1990 que utilizava maquiagem e praticáveis para confeccionar os monstros. Os efeitos visuais são bons na maior parte do longa aliados ao uso eficiente da tecnologia 3D. Porém, a animação de destaque fica mesmo para a movimentação dos anões de jardim que é diferenciada das demais.

De fato, é algo genérico que torna o filme um tanto repetitivo, mas a maior parte dessa reflexão acontece apenas no término da sessão. No longa inteiro, Letterman nos conduz com muita competência pela história de modo que a experiência seja rápida, agradável e divertida.

Apesar da diversão, o diretor extrapola em questão ao uso da trilha musical – simplesmente não há um bendito momento de silencio durante o filme inteiro. Durante os cem minutos da projeção, Letterman utiliza intensamente a trilha de Danny Elfman. É sério. Até eu me assustei um pouco ao desejar que a música se calasse apenas por dois minutos, mas isso não acontece. A nossa sorte é Elfman compôs um verdadeiro trabalho de qualidade de modo que a música nunca seja invasiva e incômoda. Ela casa perfeitamente com todas as cenas. O único vacilo que julgo imperdoável, foi Elfman não ter criado uma variação do excelente tema musical do seriado – parece que a obra televisiva não foi digna de nota aqui, tratada realmente como um filho bastardo dos livros de R.L. Stine.

Goosebumps, por mais incrível que pareça, é um filme bem agradável que reapresenta recursos narrativos eficientes e legais para a nova geração de pré-adolescentes que está por aí. As sacadas criativas do roteiro funcionam muitíssimo bem e homenageiam diversos longas de terror já consagrados na História do Cinema. Mesmo que ele aborde em excesso a comédia e as múltiplas sequencias de ação em demérito da atmosfera tensa e cheia de suspense das obras de R.L. Stine. No final, o saldo é bastante positivo graças à eficiência do elenco e do texto divertidos. O longa me fez ter saudade dos tempos tranquilos da minha infância onde boa parte dos meus maiores medos eram provenientes das obras criativas de Stine. Saudades de um tempo que, infelizmente, não volta mais.

Goosebumps: Monstros e Arrepios (Goosebumps, EUA, Austrália, 2015)
Direção: Rob Letterman
Roteiro:
Darren Lemke, Scott Alexander, Larry Karaszewski, R.L. Stine
Elenco:
Jack Black, Dylan Minette, Odeya Rush, Ryan Lee, Amy Ryan, Jillian Bell, Ken Marino, Halston Sage, Steven Krueger
Duração:
103 minutos.

MATHEUS FRAGATA . . . Estudo cinema na UFSCar seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas. Tenho sonhos em 4K, coloridos e em preto e branco. Sempre me emociono com as histórias contadas por esta arte. Agora busco a oportunidade de emocionar alguém com as que tenho para contar.