Crítica | “Gore” – Deftones

estrelas 4

Poucas bandas de metal podem colocar uma (bela) capa de álbum como esta do destaque e soar coerente com sua sonoridade. Dentre tantos estilos pelos quais o Deftones percorreu durante quase duas décadas, em seu novo e oitavo disco essa imagem de migração de pássaros parece representar bem sua nova abordagem. Gore é uma grande viagem em níveis melódicos de contemplação que poucos álbuns de rock pesado podem oferecer.

Logo de cara se deparando com os riffs extremamente melódicos da ótima Prayers/Triangles fica bem claro que o caminho que o Deftones resolveu seguir é um tanto peculiar em relação ao que já fizeram. Não há nem o que os fãs reclamarem, já que o grupo tem um histórico de não permanecer na zona de conforto. Mas Gore já é um destaque interessante na discografia da banda, particulamente pela sua distinção. Evidenciando bem menos guturais e pegando influências fortes de post rock e shoegaze – características fortes de Palms, projeto paralelo do vocalista Chino Moreno – o Deftones aqui se aproxima muito mais do rock do que do metal.

Um ponto forte de Gore está em seu âmbito lírico. Embora seus temas possam soar piegas principalmente na voz excessivamente melancólica de Chino Moreno, assuntos como auto-descoberta, angústia, depressão são muito bem colocadas em letras de métrica e abordagem excelente. Um exemplo disso pode ficar com a romântica quase shakesperiana Geometric Headdress, ou a narração um tanto religiosa de Pittura Infamante. E todo o arranjo anda de mãos dadas com as letras, como o turbilhão de sentimentos de Phantom Bride transpostos em variados efeitos de guitarra, indo de distorções pesadas a sintetizadores e muito fuzz.

Gore possui ares contemplativos enormes, pegando carona em subgêneros do shoegaze, como o dream pop da ótima Hearts / Wire e sua guitarra introdutória que desenha paisagens de conforto na mente de cada ouvinte. Perceba, por exemplo, como o revezamento de guitarras suaves e pesadas ao longo dos versos “Slip into the calming waves” (“Escorregue dentro das calmas ondas”) de (L)MIRL passam fortes características sinestésicas. A forma já um tanto clichê de cantar do new metal é presença constante, mas a alternância de guturais e vocais melancólicos aqui possuem até boas interpretações, sem soar incoerente. A faixa homônima é certamente uma das melhores do álbum com seus versos raivosos e riffs pesados, único momento que realmente lembra a carreira do Deftones no início dos anos 2000.

Há apenas um grande problema com o disco e isso vem a ser sua produção, que, sinceramente, soa bem fraca para os padrões da banda (e principalmente considerando sua extrema relevância). O som parece estupidamente condensado e compactado, perceba como tudo soa no mesmo volume, sem dinamicidade (o próprio vocal sofre com isso em alguns momentos). Para vias de maior comparação, veja uma apresentação ao vivo de alguma faixa e como soa melhor. Tal problema de produção dá lados artificiais a obra e impede que ela tome proporções maiores.

O Deftones de Gore segue novamente um caminho experimental, talvez um dos maiores que a banda já tentou. Não se trata de uma abordagem nova no metal, bandas como Alcest já trazem tais características ao rock pesado já faz um tempo. No entanto, isso não faz o oitavo trabalho do grupo perder contornos fantásticos de ambientação, embarcando em uma viagem melódica que nem sempre bandas do gênero conseguem oferecer.

Aumenta!: Gore
Diminui!: Doomed User
Minha canção preferida: Hearts / Wire

Gore
Artista: Deftones
País: Estados Unidos
Lançamento: 8 de abril de 2016
Gravadora: Reprise
Estilo: Metal/Rock Alternativo

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.