Crítica | Goshu: O Violoncelista

estrelas 3

Um pouco antes do que seria a instauração do reinado do Studio Ghibli,  um de seus fundadores – Isao Takahada – já vinha inserindo suas características como roteirista e diretor em algumas animações. Goshu: O Violoncelista foi lançado dois anos antes da estreia do estúdio com Nausicaa do Vale do Vento. A animação baseada na história de Kenji Myiazawa conta, como diz o título, a história do jovem violoncelista Goshu, e  pode ser interpretado como um trabalho bem pessoal para Takahada, mostrando o amor imenso que este tem pela música, tema bastante focado no longa.

O filme parece um rascunho pra obras grandiosas que o diretor viria a fazer. De temática bastante infantil e simples, a animação tem foco bem claro na temática da música e uma abordagem diretamente para crianças. Na história, após consecutivos erros, o jovem violoncelista se vê pressionado por seu professor e maestro as vésperas de uma importante apresentação (mostrado  em uma cena inicial quase como um Whiplash leve e em animação). Durante seu solitário treinamento, a cada dia um animal diferente passa a invadir sua casa a procura de ajuda.

É válido dizer que o filme é mediano e de caráter experimental e deixa enfático que é um dos primeiros trabalhos de Takahada. A simplicidade característica de seus filmes aqui ganha tons de monotoniedade, visto que até certo momento não dá pista nenhuma sobre a ideia do filme. E o visual, que é sempre destaque garantido nas animações da dupla Takahada e Myiazaki, aqui se prende a apenas uma ou outra bela paisagem focada. No entanto, o que de fato sustenta o longa é seu tema centrado na música e as excelentes sequências e diálogos de Goshu com cada animal que o visita (destaque para o carismático pássaro). Aqui é elaborado um roteiro que pode ser considerado uma espécie de fábula, lembrando bastante Walt Disney (que influenciou bastante o Studio Ghibli), com inclusive uma sequência que parece referenciar Mickey Mouse.

Goshu: O Violoncelista demonstra ser um passo para a definição de valores que marcariam o legado de Takahada, como a simplicidade e a música presente em seus trabalhos. Ainda que com algumas sequências de roteiro um tanto entediantes, sabe ter seus bons momentos com um ótimo aproveitamento de diálogos e um ato final que consegue manter o foco do público e ainda receber aquela clássica lição de moral típica de uma fábula.

Gochu, o Violoncelista (Sero Hiki No Gôshu) – Japão 1982
Direção: Isao Takahata
Roteiro: Isao Takahata e Kenji Miyazawa
Elenco: Hideki Sasaki, Fuyumi Shiraishi, Masashi Amenomori, Junji Chiba, Kôichi Hashimoto, Kaneta Kimotsuki, Atsuko Mine, Ryûji Saikachi, Kazue Takahashi, Akiko Takamura, Kôji Yada, Keiko Yokozawa
Duração: 61 min

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.