Crítica | Gotas D’Água em Pedras Escaldantes

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estrelas 4

Quantas vezes já estivemos em um relacionamento apenas por comodidade? Tão dependentes não só da pessoa ao seu lado como daquele estado de quase imobilidade, criando uma situação semelhante a de um encarceramento, porém voluntário? Sair do lugar comum não é assim tão fácil e o filme Gotas D’Água em Pedras Escaldantes, baseado na peça homônima de Rainer Werner Fassbinder (que escreveu com apenas dezenove anos) e dirigido por François Orzon, aborda com veemência tal condição humana, transformando-a em uma doença que lentamente denigre aqueles afetados por ela.

A narrativa tem início em um apartamento, onde Léopold (Bernard Giraudeau) e o jovem Franz (Malik Zidi) tem seu primeiro encontro. Franz fora convidado por esse estranho de cinquenta anos para sua casa e, certamente manipulado por sua imponência acabou aceitando o convite. Já com planos de casamento em mente com sua namorada Anna (Ludivine Sagnier) o garoto não sabe por que está ali e, aos poucos, uma forte tensão sexual começa a se instaurar na sala. A estrutura de peça teatral é mais que óbvia e Orzon utiliza este primeiro ato de seu longa-metragem para compor esses dois personagens cruciais, mas sem oferecer muitos detalhes, apenas o necessário para entendermos sua psique.

Léopold, apesar da idade, é altamente sedutor, há poder em sua voz e na forma como se movimenta – não há dúvidas no espectador que ele domina aqueles à sua volta e Bernard Giraudeau consegue nos passar essa impressão logo nos primeiros minutos de projeção. Em contraponto, Malik Zidi perfeitamente retrata uma figura frágil, um cordeiro para o lobo ao seu lado e mesmo com sua inicial relutância podemos ver que ambos querem o mesmo, ou quase o mesmo. É interessante observar como Léopold primeiro utiliza tons mais amenos em suas palavras, para, somente após, exercer seu controle abertamente – o roteiro é preciso nesse aspecto, criando a metáfora imediata de um caçador atraindo sua presa.

Os atos subsequentes já abordam o desenrolar do relacionamento dos dois personagens. Há um notável ar de bipolaridade na construção de ambos os personagens, algo que pode ser notado no princípio, mas que aqui atinge outro nível. O naturalismo das relações amorosas é representado aqui como pouco se vê no cinema – um vai e vem entre brigas e perdões, entre duas figuras tentando lutar por sua posição, muito embora, obviamente, um dos dois tenha de ceder. O espectador é colocado, então, em uma posição de repulsa em relação a Léopold, ao mesmo tempo que não consegue desgostar dele, pela simples força da atuação de Giraudeau. Sentimos pena de Franz, junto de uma raiva pela sua imobilidade e a crítica de Fassbinder, finalmente se instaura, nos colocando em cheque ao percebermos quantas vezes já estivemos em situações parecidas.

O lugar comum da projeção começa a se fazer presente, mas somos impedidos de ficar em demasiado conforto diante da tela. A montagem repleta de cortes bruscos impede isso e traz elipses – grandes e pequenas – sem aviso, forçando-nos a não nos acomodar, fator que dialoga imediatamente com a linha principal da narrativa. Ao mesmo tempo, um certo ar de surrealidade assume o texto, nos fazendo sair de um drama preenchido por tensão para uma espécie de comédia do absurdo. A loucura toma conta da narrativa e somos levados juntos com ela.

Deslizes, contudo, tomam conta dos atos finais da projeção com a mudança repentina de disposições de personagens, especialmente Anna que se transforma da água para o vinho em questão de instantes. Mais uma vez a construção do poder em Léopold ameniza essa característica e, em conjunto dela, a fotografia de Jeanne Lapoirie, que pontua os pontos chaves da narrativa com lentas aproximações. A pontualidade dos planos tem uma força palpável e nos transporta para o interior de cada personagem, o que causa um estranhamento ainda maior em relação à metamorfose de Anna.

Esse, todavia, é um pequeno erro dentro da invejável construção de Orzon para essa perturbadora peça de Fassbinder. Impossível não se colocar no lugar desses personagens, por mais estranhos que cada um deles seja. Trata-se de uma crítica ferrenha à imobilidade e Gotas D’Água em Pedras Escaldantes consegue fazer isso sem, em momento algum, perder a nossa atenção.

Gotas D’Água em Pedras Escaldantes (Gouttes d’eau sur pierres brûlantes – França, 2000)
Direção:
 François Ozon
Roteiro: François Ozon (baseado na peça de Rainer Werner Fassbinder)
Elenco: Bernard Giraudeau, Malik Zidi, Ludivine Sagnier, Anna Levine
Duração: 82 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.