Crítica | Gotham 1X01: Pilot

estrelas 3,5O investimento da DC Comics e Warner nas séries de televisão começa a florescer após alguns anos do término de Smallville. Com séries como Arrow e o vindouro Flash, podemos sentir o pulso firme das companhias em estender seu universo dos quadrinhos para a telinha. O que vimos até então, contudo, foram produções voltadas para o público young adult, com abordagens teen que envolvem namoricos, um excesso de personagens belos e pouca violência, de fato. Gotham se distancia desse conceito e, por mais que caia em alguns pontos em comum, nos traz uma experiência completamente diferente.

Para começar não temos o foco no super-herói e sim no jovem Detetive James Gordon (Ben McKenzie, que já dublara o Morcego na animação Batman: Ano Um). Apesar da falta do característico bigode, o ator consegue nos convencer no papel, entregando uma dinâmica que em muito nos lembra o mesmo personagem no clássico de Frank Miller, Ano Um. Ele é um policial não corrompido pelo clima negativo de Gotham City e está disposto a sempre fazer o correto. Ao seu lado temos o já experiente Detetive Harvey Bullock (Donal Logue), que já se entregou às corrupções do sistema daquela sombria cidade.

Aqui entramos em um ponto bastante interessante e bem construído da série. Seu design de produção é atmosférico e consegue nos passar com clareza o tom nada convidativo da cidade em questão. Trata-se de um clima adulto e violento que tão bem se encaixa com o que conhecemos nos quadrinhos. Ora, o próprio nome já deixa claro o que deve ser atingido em termos de ambientação e a série consegue atingir tal objetivo, colocando-nos sempre sob um clima nublado ou à noite. Preenchendo esse cenário melancólico temos pessoas taciturnas, de personalidades frias e nada convidativas. Mesmo Alfred Pennyworth (vivido por Sean Pertwee, filho do Terceiro Doutor, Jon Pertwee) nos impressiona e acaba soltando uma exclamação tipicamente inglesa.

A série trabalha, então, em cima desse tom e nos posiciona instantes antes da morte de Thomas e Martha Wayne – acontecimento que, ainda recente em nossa memória, graças a Batman Begins, acaba não gerando em nós o grau necessário de empatia. Felizmente Ben McKenzie recupera nossa simpatia em sua conversa com Bruce Wayne, quando, enfim, o episódio começa a andar. A partir de tal momento acompanhamos a investigação do assassinato, enquanto a química entre Gordon e Bullock é trabalhada. Donal Logue nos traz uma figura descontraída que muito nos lembra a atuação de Michael Rooker como Merle Dixon em The Walking Dead. É uma ideal contraposição entre os dois personagens que garante uma boa dinâmica para as investigações.

Existe, porém, um elemento altamente artificial que se demonstra presente desde os minutos iniciais do episódio: a ânsia por apresentar todos os personagens famosos dos quadrinhos. Da Mulher-Gato, passando por Hera Venenosa, até o Pinguim vemos todos aparecendo, seja através de pontas ou papéis de destaque. Sejamos honestos e vamos admitir que é um pouco difícil de acreditar que inúmeros super-vilões de Batman apareçam logo de imediato justamente na investigação do assassinato dos pais de Bruce. É como um apelo dos realizadores aos fãs, implorando que eles assistam à série, mas que acaba nos distanciando dela. Afinal, um elemento interessante nos prequels é justamente observamos o surgimento de alguns personagens ao longo da trama e não tudo jogado direto no roteiro do primeiro capítulo.

Essa artificialidade, infelizmente, permeia todo o piloto, e acaba quebrando grande parte de nossa imersão. A progressão da narrativa, contudo, funciona de forma fluida, exagerando em certos pontos para o didatismo, mas conseguindo nos convencer de que a série conta com seu potencial. Em suma, portanto, Gotham é uma experiência positiva que, como esperado, muito se distancia do que vimos nas produções do CW. Resta torcer para que os defeitos sejam consertados e que a série não caminhe para uma estrutura de “caso da semana”.

Gotham 1X01: Pilot (EUA, 2014)
Showrunner: Bruno Heller
Direção: Danny Cannon
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Ben McKenzie, Donal Logue, David Mazouz, Zabryna Guevara, Sean Pertwee, Robin Lord Taylor, Erin Richards, Camren Bicondova, Cory Michael Smith, Jada Pinkett Smith, John Doman
Duração: 48 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.