Crítica | Gotham 1X02: Selina Kyle

estrelas 2,5

Atenção: contém spoilers do episódio comentado

Após o episódio introdutório, que nos apresenta a cada um dos personagens que veremos, ao menos nesse começo, de Gotham, já caímos direto no caos que é a cidade do futuro vigilante mascarado. Temos um começo preciso de episódio, que nos diverte sem problemas, nos aproximando ainda mais de Jim Gordon. Ele e seu parceiro, Harvey, discutem na delegacia, demonstrando que a química, em formação no episódio anterior, já se demonstra eficaz neste capítulo – por mais distantes que sejam seus métodos.

Selina Kyle, porém, acaba revelando indícios de uma possível queda de qualidade na série. A começar por Fish Mooney, representada por Jada Pinkett Smith da maneira mais dramática e irreal possível. A impressão deixada é que estamos diante de um vilão da saudosa série dos anos 1960. Não é preciso dizer que tal retratação completamente se destaca do restante que vemos na série e mesmo Cobblepot e Edward Nygma, vistos de forma mais caricata, não destoam tanto do cenário mais amplo. O diálogo entre Fish e Falcone é, no mínimo, de se sentir vergonha alheia e aqui a culpa não somente vai para a forma como a personagem é apresentada e sim para o próprio roteiro, que utiliza um diálogo raso que tenta impactar, mas somente tirando a total credibilidade de ambos os vilões.

Somado a esse grande deslize, o episódio nos coloca exatamente na posição que temíamos: na estrutura de “caso da semana”. É claro que existem os elementos de coesão geral da temporada, como a fuga do Pinguim e a relação Jim x Harvey, Jim x Bruce. Estes, contudo, não conseguem ofuscar a ideia de que a subtrama envolvendo as crianças raptadas fora um completo preenchimento de espaço: sem maiores impactos (ao menos imediatos) e resolvido de forma simples, não oferecendo qualquer tipo de tensão ao espectador. Lili Taylor é completamente desperdiçada, por mais que possa aparecer em um capítulo posterior – o que não diminui o defeito deste episódio, que deveria se estabelecer firmemente a despeito do restante da temporada.

Felizmente alguns elementos do universo do Morcegão foram citados, podendo trazer repercussões mais interessantes que o simples, desnecessário e forçado aparecimento de vilões, ainda mirins, a cada sequência. Esses pontos interessantes são a menção do Asilo Arkham – atualmente fechado – e o Dollmaker. Os leitores de Detective Comics, dos novos 52, lembrarão imediatamente que este é o vilão do primeiro arco, Faces da Morte. Como um antagonista secundário da mitologia de Batman, esse é o tipo de personagem que facilmente, de forma orgânica, pode entrar na série. O Morcego conta com uma miríade de vilões de menor porte, igualmente assustadores, que poderiam ser utilizados. Ao invés disso, o que temos é a velha introdução forçada de personagens conhecidos, como um apelo para que os fãs assistam a série.

Dito isso, alguns dos indivíduos famosos já apresentados conseguem se destacar. O primeiro deles é Oswald Cobblepot, que adota uma linha narrativa completamente psicopata e funciona bem de forma intercalada com nosso ponto de vista de Jim Gordon. A segunda é Selina Kyle, que dá nome ao capítulo. Camren Bicondova, atriz ainda bastante inexperiente, consegue nos convencer como a futura Mulher-Gato, ainda que sua presença em tela soe como um simples artifício do roteiro. A identificação do público com a personagem é claramente gradativa e é interessante notar que mesmo ela é representada de forma mais adulta, não caindo para as vias do young adult de Smallville ou Arrow.

De um ponto de vista técnico o episódio se mantém nas mesmas firmes bases estabelecidas no Piloto. Com tons mais acinzentados temos uma boa construção do caráter sombrio e melancólico de Gotham. O que incomoda neste capítulo especificamente é sua montagem incerta. Primeiro porque interrompe as atuações, utilizando um simples plano e contra-plano de forma excessiva, segundo porque destrói completamente a já criticada subtrama das crianças desaparecidas. Trata-se de um capítulo sem clímax – a resolução, quando vem, nos joga imediatamente para uma cena em caráter de epílogo, quebrando completamente a tensão que já não fora construída de boa maneira.

O segundo capítulo de Gotham, Selina Kyle, representa um grande deslize, já nos passos iniciais, dessa série. A queda de qualidade desde o piloto é visível e preocupante, podendo significar um completo desvirtuamento da temporada. Ainda assim, sua narrativa consegue nos entreter, de forma bastante básica. O mérito vai para as atuações de Ben McKenzie, Donal Logue e Robin Lord Taylor, mas somente isso não será o suficiente para nos manter assistindo.

Gotham precisa mudar, antes que seja tarde.

Gotham 1X02: Selina Kyle (EUA, 2014)
Showrunner: Bruno Heller
Direção: Danny Cannon
Roteiro: Bruno Heller
Elenco: Ben McKenzie, Donal Logue, David Mazouz, Zabryna Guevara, Sean Pertwee, Robin Lord Taylor, Erin Richards, Camren Bicondova, Cory Michael Smith, Jada Pinkett Smith, John Doman, Lili Taylor
Duração: 48 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.