Crítica | Gotham 1X08: The Mask

estrelas 4,5

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Atenção: contém spoilers do episódio comentado.

Estava mais do que claro, após o fim do ótimo episódio, Penguin’s Umbrella, que a série voltaria à estrutura de “vilão da semana”. Gotham, porém, nos surpreende aqui neste capítulo pela forma como consegue utilizar esse molde sem deixar de lado o que ocorreu na semana anterior. O resultado é uma boa mistura de tensão episódica com um avanço na trama principal, transformando esta em uma narrativa sólida, que não apresenta dificuldades em nos manter atentos.

A projeção tem início com um assustador prólogo, nos mostrando dois homens mascarados lutando por suas vidas em um escritório abandonado. A cena é brutal e já nos deixa com um nó no estômago, ampliando nossa percepção da decadência da cidade. Sabemos que Jim Gordon está tentando salvá-la, mas é interessante observar que, a cada caso resolvido por ele, mais para o fundo do poço Gotham parece cair. Após esses breves minutos nosso foco vai para o detetive protagonista encontrando o corpo deixado após esse combate mortal. Desde já percebemos que há uma nítida tensão no ar – Jim não está à vontade e logo descobrimos que se isso foi causado pelo ocorrido no episódio anterior: ele foi abandonado pelos outros policiais e somente Harvey o apoiou.

O roteiro de John Stephens garante essa revigorante coesão à temporada como um todo. Por mais que estejamos diante de uma subtrama filler, ele sabe nos passar a sensação de que estamos diante de uma importante parcela da narrativa central. A relação entre Bullock e Gordon tem um papel central nessa construção, ao passo que apresenta claros avanços – já temos aqui uma amizade formada, um pode contar com o outro e eles sabem disso, por mais que exibam a personalidade de “durão” a maior parte do tempo. Outro fator que influencia nessa percepção positiva do capítulo é a própria disposição dos outros policiais em relação a Jim. Agora eles não são apenas figurantes que compõem o plano de fundo daquela delegacia: realizam um papel importante na construção do tom aqui, criando um maior engajamento por parte do espectador, que passa a ver tal lugar de forma mais orgânica, menos artificial.

O “caso da semana” em si também consegue nos prender, trazendo um conceito interessante que vai além de um mero caso de um psicopata ou criminalidade propriamente dita. O mundo dos negócios é mostrado aqui mais selvagem que nunca, dando uma profundidade maior a Gotham. O dinheiro e o sucesso vale mais que a vida humana, traçando uma interessante e perturbadora representação do que é o capitalismo selvagem. As entrevistas de emprego, uma guerra incessante contra os outros candidatos aqui ganha o sentido literal, com candidatos dispostos a fazer qualquer coisa para serem empregados. Não temos uma situação muito mais que parecida na vida real? The Mask traz, sim, algumas situações irreais acerca dessa subtrama, mas elas cumprem seu papel narrativo. Há uma inverossimilhança, em especial nos minutos finais reality show do episódio, mas eles atuam para criar um desconforto ainda maior no espectador, causando até um possível questionamento.

Vamos, então, para o Pinguim, que já se provou um dos lados mais engajantes da série e que, aqui, continua a se aprofundar em seus planos. Sua cena inicial com Fish é  maravilhosamente bem dirigida por Paul A. Edwards, nos conseguindo passar uma nítida sensação de dor, desprezo e ódio e o velho tom de ironia de Cobblepot. Robin Lord Taylor está mais à vontade do que nunca em seu papel, cativando as audiências a cada capítulo. Pessoalmente espero que ele mesmo dê fim à Mooney, com suas próprias mãos, traria um bom desfecho para a temporada, ainda que não acredito que a personagem será descartada assim tão cedo.

Dentro de um episódio quase que totalmente ausente de problemas, encontramos apenas um leve deslize, mas esse seria apenas um “meio tropeço”. Refiro-me a Bruce Wayne. O foco no personagem parece perdido aqui, contudo, nos traz um engajante desenvolvimento de sua narrativa. Wayne retorna à escola e logo se depara com um bully, que catapulta o personagem para um treinamento com Alfred a partir do próximo episódio. Já era evidente que o garoto precisaria começar a treinar logo, afinal, ele não se torna o Morcego da noite para o dia – ainda assim, tivemos um bom estopim para um desenvolvimento desse seu lado mais “físico”, o que garante um maior realismo à obra, ao passo que não introduz uma motivação como “quero lutar para combater criminosos”, algo que se demonstraria irreal neste estágio da vida de Bruce. Além disso, Sean Pertwee se mantém excepcional em sua retratação desse Alfred mais durão.

The Mask é um episódio nada pretensioso de Gotham. Ele mantém o rumo do episódio anterior, unindo organicamente à estrutura de “vilão da semana”. Temos interessantes e diferentes focos ao longo do capítulo, que trabalham precisamente com cada um de seus personagens. É evidente a progressão de cada um deles até aqui, no que seria a metade da temporada (se ela não tivesse sido ampliada para a terrível estrutura de 22 episódios). Gotham parece, enfim, encontrar sua linguagem e demonstra isso com um roteiro, direção e atuações sólidas.

Gotham 1X08: The Mask (EUA, 2014)
Showrunner:
Bruno Heller
Direção: Paul A. Edwards
Roteiro: John Stephens
Elenco: Ben McKenzie, Donal Logue, David Mazouz, Zabryna Guevara, Sean Pertwee, Robin Lord Taylor, Erin Richards, Camren Bicondova, Cory Michael Smith, Jada Pinkett Smith
Duração: 42 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.