Crítica | Gotham 1X09: Harvey Dent

estrelas 3,5

Seria pedir demais que Gotham, em sua estrutura superfaturada de episódios mantivesse o mesmo nível de qualidade dos dois anteriores em Harvey Dent. O resultado, porém, não decepciona completamente, contendo apenas alguns elementos que soam estranhos e nos causam aquele sentimento de “por que?”. Como um todo, o capítulo consegue caminhar dentro dos trilhos construídos em Penguin’s UmbrellaThe Mask, unindo a estrutura de “vilão da semana” com o plano de fundo estabelecido desde o assassinato dos Wayne. O pecado dessa semana se encontra nos detalhes, alguns problemas de execução de propostas que seriam muito bem vindas dentro da série.

A primeira delas é a inclusão de ninguém menos que o homem que garante o título do episódio, Harvey Dent, ainda no princípio de sua carreira, ainda que já tenha um pouco de sua fama de “correto”. O maior problema aqui é a inevitável comparação com o personagem em O Cavaleiro das Trevas. Estamos diante da síndrome do reboot (ainda que Gotham não o seja). As memórias da atuação de Aaron Eckhart no filme de Christopher Nolan ainda estão muito recentes na memória dos espectadores e considerando que foi uma personificação magistral somente piora o caso da série televisiva. Mas o problema em si somente aparece em conjunto com a atuação de Nicholas D’Agosto. Vemos em seu Dent, um homem alegre demais, exageradamente entusiasmado, algo que não passa a credibilidade de um homem que luta contra o crime em Gotham. Para piorar, seu acesso de fúria no terço final do capítulo soa completamente exagerado, adiantando cedo demais um vislumbre de seu alter-ego futuro.

A situação ainda se complica pelo lado do roteiro, que simplesmente joga em nossos colos a aparição do personagem, através de uma cena mal construída e mal aproveitada entre ele, Gordon, Montoya e Allen. A percepção da sequência ainda cai por terra diante da revelação final do capítulo – uma discreta tensão de Montoya em relação a Jim poderia ter sido estabelecida, para que a entendêssemos somente nos minutos finais, garantindo a coesão do episódio. Ao invés disso, tivemos cenas desconexas que pareceram jogadas dentro da trama, formando uma linha narrativa fragmentada.

Felizmente, salvando-nos da desgraça temos, para nossa surpresa, todo o restante do capítulo. As três subtramas focadas no Pinguim, no “caso da semana” e em Fish se interligaram organicamente, exigindo pouca ou até mesmo nenhuma suspensão de descrença de nossa parte. De um lado mais discreto também observamos um avanço não só em alguns personagens como na própria GCPD. Dentre esses, o que se destaca é Bullock, que estava mais engajado na investigação que o próprio Gordon, refletindo uma “salvação” do personagem, que passa a voltar a seu antigo modo de pensar após Spirit of the Goat.

De um lado menos conectado da trama, mas ainda engajante, temos a relação de Bruce, Alfred e Selina, que garante um sopro de vida a este enfoque no futuro Batman. Por mais que estejamos diante de uma mudança em relação aos quadrinhos (o que não é algo negativo), a construção da interação entre os dois é feita de forma não só divertida como orgânica, se encaixando dentro da narrativa do capítulo e dando alguns passos adiante na formação de Bruce. O trabalho de Sean Pertwee é o que mais chama a atenção, com seu Alfred mais incisivo que o costumeiro mordomo educado e faz-tudo.

Harvey Dent conta com seus evidentes problemas em determinados pontos de sua duração, mas, ainda assim, se firma nos acertos, finalizando com um saldo positivo. Trata-se de uma queda de qualidade em relação aos dois capítulos anteriores, mas nada que seja o suficiente para estragar nossa percepção da série. Os defeitos aqui apresentados não mais permeiam o encontro de uma linguagem para a série, esta já foi encontrada e se mantém aqui. Resta esperar que o futuro Duas-Caras ganhe um tratamento melhor daqui para a frente.

Gotham 1X09: Harvey Dent (EUA, 2014)
Showrunner:
Bruno Heller
Direção: Karen Gaviola
Roteiro: Ken Woodruff
Elenco: Ben McKenzie, Donal Logue, David Mazouz, Zabryna Guevara, Sean Pertwee, Robin Lord Taylor, Erin Richards, Camren Bicondova, Cory Michael Smith, Victoria Cartagena, Andrew Stewart-Jones, Jada Pinkett Smith, Nicholas D’Agosto, Richard Kind
Duração: 42 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.