Crítica | Gotham 1X10: Lovecraft

estrelas 3

O midseason finale de Gotham mais uma vez prova que a série pode fugir do lugar comum. Saindo, parcialmente, da famigerada estrutura vilão da semana, LoveCraft nos traz uma narrativa marcada pela coesão, não só interna como da temporada como um todo. As distintas peças do quebra-cabeça começam a se juntar e, por mais que tenhamos alguns ligeiros cliffhangers para nos deixarem ansiosos para a segunda etapa da temporada, não podemos deixar de sentir que um pequeno arco foi encerrado.

Rebecca Dameron, por mais que conte com pouca experiência como roteirista, consegue fazer o que pouco vimos na série – uma união orgânica dos diversos pontos de vista em um só. Iniciamos já direto na ação, com um ataque à mansão Wayne por um grupo misterioso de assassinos que não sabemos se estão atrás de Selina ou Bruce. A tentativa de assassinato, porém, cia por terra com a intervenção de Alfred, que já se provou ser muito mais que um mordomo (ou um valet). Essa cena introdutória nos leva para dois interessantes focos principais. O primeiro gira em torno de Wayne e Kyle, em fuga, com uma relação que continua a ser trabalhada desde o episódio anterior. Já o segundo, como de costume, centra em Gordon, Harvey e, para nos tirar da mesmice, Pennyworth (Sean Pertwee roubando as cenas novamente).

O que é notável na construção do texto é a forma como a ameaça desse grupo misterioso se encaixa com o plano geral estabelecido ao longo dos capítulos passados. O empresário corrupto Lovecraft, que dá nome ao episódio, é o principal suspeito por trás da tentativa de homicídio, trazendo à tona o assassinato dos Wayne. Mas o encaixe com as outras subtramas da temporada não param por aí. Dameron deixa a dúvida constante de quem é o verdadeiro cérebro por trás da operação, nos remetendo, nas entrelinhas, aos outros mafiosos de Gotham, especialmente Maroni e Falcone. O enigma, contudo, permanece inabalado, já que todos eles possuem motivos a favor e contra a morte do casal milionário.

Aqui entramos no primeiro grande defeito do episódio: ele dá relances de respostas, mas, de fato, não nos traz nenhuma. Em linhas gerais, LoveCraft não acrescenta nada – ele muda a disposição dos personagens, mas não oferece revelações, algo que deveria vir especialmente em um midseason finale. No momento que esperamos alguma mínima resposta, a cena é interrompida pelos assassinos enigmáticos que chegam em hora muito apropriada. Esse fator influencia diretamente na falta de um cliffhanger clássico, de grande porte, que nos deixaria ainda mais ansiosos pela próxima temporada.

Do lado da construção dos personagens, porém, temos alguns evidentes avanços. O destaque vai para a relação de Jim e Harvey, que já demonstram uma clara cumplicidade e até uma amizade. A despedida entre os dois nos momentos finais causa um aperto no coração e se classifica como um dos poucos pontos a nos deixar curiosos pelo que está por vir.

Nem todos os personagens, contudo, receberam o tratamento que mereciam. O Pinguim, que se estabeleceu como um dos pontos altos da série, esteve notavelmente ausente no episódio, carecendo de um avanço maior em sua subtrama. Mais uma vez a falta de uma ponta solta maior foi sentida.

Lovecraft, portanto, trabalhou muito bem com o que veio antes, estabelecendo uma coesão nítida dessa metade da temporada como um todo. A fase introdutória de Gotham passou e agora veremos o que o Asilo Arkham reserva para Jim Gordon. Como midseason finale não foi tão potente quanto deveria, carecendo de elementos claros que nos deixem engajados para a segunda parte do ano. Seus desfecho demasiadamente acelerado não ajudou, resolvendo (ainda que parcialmente) o caso da semana de forma simples demais. Ainda assim, trata-se de um episódio com seus claros méritos, que o colocam acima da média da temporada.

Gotham 1X10: LoveCraft (EUA, 2014)
Showrunner:
Bruno Heller
Direção: Guy Ferland
Roteiro: Rebecca Dameron
Elenco: Ben McKenzie, Donal Logue, David Mazouz, Zabryna Guevara, Sean Pertwee, Robin Lord Taylor, Erin Richards, Camren Bicondova, Cory Michael Smith, Victoria Cartagena, Andrew Stewart-Jones, Jada Pinkett Smith, Nicholas D’Agosto, Richard Kind
Duração: 43 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.