Crítica | Gotham 1X19-21: Birds of Prey/ Under the Knife/ The Anvil or the Hammer

gotham192021

estrelas 4

Spoilers

A segunda metade da primeira temporada de Gotham trouxe evidentes melhorias para a série, abandonando inúmeros dos defeitos presentes nos primórdios da série. A presença da estrutura “vilão da semana”, contudo, se demonstrou presente em diversos capítulos, por mais que algumas narrativas duplas fossem utilizadas. O arco de três partes, iniciado em Beasts of Prey e encerrado em The Anvil or The Hammer, que à princípio em muito se assemelha a essa estrutura quebra os paradigmas estabelecidos pelo showrunner Bruno Heller, introduzindo uma trama intrincada, coesa e que sabe o que deixar de fora nos momentos certos. Não temos ainda o ideal, mas estamos ligeiramente mais próximos disso.

O que, a princípio, parece mais uma investigação criminal se torna um elemento de coesão entre diversas subtramas, unindo sob um assassino, conhecido como The Ogre (ou o Ogro), histórias que antes pareciam completamente desconexas dentro da temporada. Percebam como mesmo o investimento na novela entre Jim e Barbara é bem utilizado aqui nesta tríplice, por mais que a desenvoltura psicológica da ex-namorada de Gordon seja completamente duvidosa, levando a momentos difíceis de engolir (vide a reação risível ao quarto de horrores do psicopata em questão). Essa maior complexidade do roteiro, que não simplesmente se resume a “temos um assassino livre, precisamos capturá-lo” se traduz em um caso melhor trabalhado, que não é resolvido às pressas e, portanto, não soa como um tapa-buracos que une o restante das subtramas do capítulo.

A investigação segue linearmente e traz interessantes mudanças no modus operandi de Jim, que, muitas vezes, deixa transparecer a influência de seu parceiro, Harvey, em sua personalidade. Ainda assim, a alma do personagem não é deixada de lado e sua determinação gera uma homogênea mistura com esse seu lado implacável. Com esse lado da trama agindo como cimento de toda a narrativa do arco a tensão no espectador segue um ritmo constante e crescente, culminando em um surpreendente clímax que reitera o aumento da violência na série, ainda que o desfecho da subtrama em si tenha sido mais que previsível e sem sal.

Aliado a esse lado da história, temos mais engajantes situações. Primeiro, a escapada de Fish Mooney que somente dá as caras em Birds of Prey, encerrando sua fase “filme de terror” no asilo do Dollmaker – quem não havia percebido quem ele era teve essa revelação mais que soletrada nessa primeira parte do arco, algo inteiramente desnecessário que quase quebra a quarta barreira, faltando somente que Pinkett-Smith virasse para a tela e falasse seu nome, algo muito similar ao que vemos em O Hobbit: A Desolação de Smaug, com Gandalf praticamente nos dizendo “vejam, esse é o Sauron”. Mas, como diria Ritter Fan, eu divago. Fish foi sabiamente deixada de lado nos dois episódios subsequentes, abrindo a possibilidade para uma dramática reaparição em Gotham no Season finale.

Do outro lado do palco temos uma nítida progressão na trama de Oswald Cobblepot, que até então permanecia em um quase eterno vai e vem. A guerra, tão repetida nas recapitulações da série, enfim, acontece é no centro se encontra o Pinguin. Ou será ele mesmo o Pinguin? Percebam como Maroni distintamente se refere a ele em um determinado ponto como palhaço, um possível easter egg para um interessante plot twist que pode vir a se concretizar. Afinal, Heller confirmou que veríamos a construção do Coringa na série é nada impede que estejamos sendo enganados em relação a Cobblepot – nada impede que a série se distancie o quanto quiser de seu material original.

Em paralelo mais um futuro vilão alcança um ponto chave em sua “carreira”. Nygma comete seu primeiro assassinato e o realiza de forma bastante psicótica, em uma subtrama lenta e bem construída, que não ocupa mais do que deveria dentro da duração dos capítulos.

Do outro lado temos Bruce Wayne, que, enfim progride em sua investigação, dando continuidade aos acontecimentos de Everyone has a Cobblepot, reiterando a coesão estabelecida nessa segunda metade da temporada. O aprofundamento na corrupção das indústrias Wayne certamente consegue prender a nossa atenção e ainda traz uma importante figura dentro da mitologia do Morcego, Lucius Fox. Possivelmente o finale irá focar na guerra entre Maroni e Falcone, mas não podemos deixar de ansiar por um posterior desenvolvimento na relação entre o jovem e Fox. Acima disso, contudo, Wayne, enfim, traça sua inquebrável regra de nunca matar ninguém, que vem junto de uma interessante cisão entre ele e Selina.

Com roteiros concisos é bem trabalhado, estabelecendo uma narrativa que flui de forma orgânica e engajante, a tríade Beasts of Prey, Under The Knife e The Anvil or The Hammer traz o melhor que Gotham teve de oferecer até então. Ainda não chegamos em sua plena capacidade, mas sua linguagem certamente foi encontrada – resta se livrar dos problemas de direção que trazem uma evidente teatralidade a alguns personagens e furos no roteiro, mas nada que nos impeça se apreciar os outros nítidos pontos positivos da série.

Gotham 1X19-21: Birds of Prey/ Under the Knife/ The Anvil or the Hammer (EUA, 2015)
Showrunner:
Bruno Heller
Direção: 
Eagle Egilsson, T.J. Scott, Paul A. Edwards
Roteiro: 
Ken Woodruff, John Stephens, Jordan Harper
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, David Mazouz, Zabryna Guevara, Sean Pertwee, Robin Lord Taylor, Erin Richards, Camren Bicondova, Cory Michael Smith, Jada Pinkett Smith, Drew Powell, Morena Baccarin
Duração:
45 min. cada episódio

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.