Crítica | Gotham 2X12/13: Mr. Freeze e A Dead Man Feels No Cold

estrelas 3

Aviso: contém spoilers

Similarmente ao que vemos nas temporadas mais recentes de The Walking DeadGotham tem sua temporada dividida em dois arcos dramáticos bastante claros, uma narrativa segmentada que nos passa a nítida impressão de estarmos diante de duas temporadas distintas. Em uma série de vinte e quatro episódios a escolha não poderia ser melhor, além de não causar uma desnecessária e lenta dilatação da trama geral, a estratégia não obriga o espectador a ter assistido a primeira metade, dando a ele a possibilidade de “pegar o bonde andando”. A divisão desse segundo ano de Gotham é evidenciada, inclusive, pelo subtítulo de cada parcela da temporada – a primeira, Rise of the Villains (ascensão dos vilões) e a segunda Wrath of the Villains (ira dos vilões). O que vemos aqui neste pequeno arco que compõe Mr. FreezeA Dead Man Feels no Cold, contudo, mais justifica o primeiro subtítulo.

Após o assassinato de Theo Galavan pelas mãos de Jim Gordon (e o Pinguim, é claro), algo que claramente referencia os primeiros episódios da série, Gotham se encontra em uma situação pior que nunca. O caos deixado pelas ações do louco milionário em conjunto com sua gangue de insanos tira qualquer estabilidade da cidade – os criminosos estão mudando e até mesmo o Pinguim enxerga isso com olhar cauteloso. Cautela essa que já previa seu declínio, que o levaria, agora, para as mãos de Hugo Strange. Enquanto isso, um novo assassino surge na cidade, um homem com o poder de congelar os outros instantaneamente – não é preciso dizer qual vilão é esse, não é?

Gotham, como esperado, retorna à sua estrutura de vilão da semana, o faz, contudo, de forma velada, trazendo icônico inimigo do homem-morcego em um arco que explora as motivações do assassino. Assistimos aqui mais uma história de origem, com um Mr. Freeze, ou Victor Fries, vivido por Nathan Darrow, o Edward Meechum de House of Cards. Darrow garante a empatia que temos pelo personagem, traz um retrato convincente da angústia de se ter um amado(a) em sofrimento graças à doença, tornando sua jornada um tanto plausível, embora os efeitos visuais da arma de gelo não agradem muito aos olhos do espectador – o plano, naturalmente, poderia contar com menos teatralidade, mas isso é Gotham, afinal. O “cospobre” do vilão também não atua a seu favor, um figurino que chega a ser risível, remetendo ao terrível Legends of Tomorrow e que não poderia estar na foto de capa acima.

Não podemos deixar de sentir, contudo, como se a parcela mais interessante da trama fosse abordada somente no plano de fundo. Refiro-me, naturalmente, às experiências de Hugo Strange em Oswald Cobblepot, fio que, provavelmente, será desvelado com o passar desta segunda metade da temporada. A agonia do Pinguim chega a nos fazer sentir pena do personagem, sua súplica a James Gordon nos atinge em cheio – aspecto, obviamente, sedimentado pela interpretação de Robin Lord Taylor, uma das peças chave para o sucesso do seriado. Não muito atrás, Donal Logue nos traz os alívios cômicos, um dos poucos personagens que soam verídicos, não abusando de uma dramaticidade exacerbada, característica da suposta finada Fish Mooney.

Dos acertos deste primeiro arco pós-hiato, porém, talvez nenhum deles seja maior que a calma com a qual o roteiro encaminha cada ação. A mudança em relação à primeira temporada parece ter sido da água para o vinho e, enquanto muitos dos problemas permaneçam, Gotham deixou de ser uma odisseia apressada que busca trazer mais e mais elementos dos quadrinhos do Batman. Sim, isso ainda ocorre, mas, felizmente, temos roteiros mais orgânicos, que justificam cada momento, cada aparição e não simplesmente os jogam no meio do texto. Mesmo Mr. Freeze conta com um propósito maior e não é só mais um vilão derrotado, pavimenta o caminho para os planos de Strange, mais uma adição assustadora ao quadro da cidade, ainda que sua assistente seja completamente descartável, nos remetendo a um Dick Vigarista com uma comparsa completamente teatral, soando como uma vilã da clássica série de TV do Morcego de anos atrás.

Com esses altos e baixos, Mr. Freeze e A Dead Man Feels No Cold consegue congelar nossa atenção, mantendo nosso olhar fixo e curioso pela resolução deste arco. Bruno Heller apresenta um evidente amadurecimento em relação à sua empreitada original do ano passado e corrige muitos dos erros anteriormente apresentados. Gotham ainda tem muito que melhorar para chegar aos pés de outras séries de destaque da atualidade, mas, ao menos, não repete seus deslizes. Resta esperar e torcer para que o roteiro orgânico continue e justifique o subtítulo Wrath of the Villains, transformando-o em algo mais que pura jogada de marketing.

Gotham 2X12/13: Mr. Freeze e A Dead Man Feels No Cold (EUA, 2016)
Showrunner:
Bruno Heller
Direção: 
Nick Copus, Eagle Egilsson
Roteiro: 
Ken Woodruff, Seth Boston
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, David Mazouz, Morena Baccarin, Sean Pertwee, Robin Lord Taylor, Erin Richards, Camren Bicondova, Cory Michael Smith
Duração:
42 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.