Crítica | Gotham – 4X01: Pax Penguina

– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas outras críticas da série aqui.

Um dos aspectos mais notáveis em Gotham é como, a cada temporada, o estado da cidade muda drasticamente. Já a vimos dominada pela máfia, entregue aos monstros criados por Hugo Strange, à mercê do grande plano da Corte das Corujas, dentre muitas outras situações. Após a crise que abalara esse lugar na temporada anterior, era de se esperar uma nova grande mudança nesse quarto ano do seriado e é justamente isso o que vemos em Pax Penguina: uma nova loucura, que só poderia funcionar nesse surreal universo da série. De forma ágil, então, retomamos a história dessa cidade.

A sequência inicial remete, imediatamente, ao término do ano anterior, embora um certo tempo tenha se passado entre o final e esse começo. Bruce Wayne, já assumindo o manto de vigilante mascarado (que ainda não é o Batman), impede um casal de ser assaltado nas ruas, clara referência à morte dos Wayne. Após espantar os bandidos, eles dizem que possuem uma licença pra tal, o que nos leva ao ponto principal desse episódio: o Pinguim, depois de ter assumido o controle do crime em Gotham, passou a entregar tais licenças para certos criminosos. Qualquer um sem uma dessas não pode cometer qualquer crime na cidade, enquanto que aqueles que a portam ganham “passes livres” da GCPD – obviamente Jim Gordon não fica tão contente com isso.

Considerando toda a loucura vista na temporada anterior, esse novo estado das coisas é, dentro desse universo, claro, justificado. Todos anseiam por uma baixa na criminalidade e Cobblepot oferece justamente isso, da maneira mais inusitada possível. Sabiamente, porém, o roteiro já coloca em xeque essa medida, através da figura de um bandido que é contra essa licença e que, inadvertidamente, acaba libertando o alter-ego de Jonathan Crane: o Espantalho, em uma sequência que respeita ao máximo o visual mais atual do icônico vilão, com as influências de Batman Begins permanecendo em evidência, especialmente no que diz respeito ao efeito da substância de Crane.

Declaradamente, essa primeira metade da temporada foi inspirado em O Longo Dia das Bruxas, mas podemos perceber algumas claras referências a Ano Um, de Frank Miller, como quando Gordon é espancado por outros policiais ou a própria origem do Morcego, que está à beira de efetivamente aparecer. Chega a ser impressionante ver como David Mazouz cresceu desde o início da série, a tal ponto que conseguimos acreditar nele como o herói mascarado em seus primórdios, algo que ele faz funcionar através da postura mais séria, não demonstrando muitas dúvidas em relação a suas ações. O amadurecimento do personagem está bastante claro.

Existem, claro, alguns problemas nessa caracterização do vigilante, como o fato de Bruce, mais de uma vez, retirar sua mascara no meio da rua, sequer preocupando-se com a identidade secreta. Felizmente, isso é contrabalançado pelas boas coreografias das cenas de luta, que, aliadas de uma direção dinâmica e nada confusa, nos fazem sentir como se aquele realmente fosse o famoso herói da DC Comics em ação.

Infelizmente, a montagem não apresenta o mesmo cuidado, realizando a transição entre sequências de forma rápida demais, cortando antes da hora, criando, pois, um nítido incomodo visual. Claro que isso se dá em razão da quantidade de eventos ocorridos no capítulo – Gotham continua demonstrando sua agilidade narrativa, mas faltou um refino maior nesses encadeamentos. Ao mesmo tempo, mesmo mostrando diversos personagens, nesse claro estabelecimento do estado inicial da temporada, não é criada uma grande fragmentação narrativa, de forma que uma subtrama diretamente dialoga com as outras, nos fazendo sentir como se estivéssemos, de fato, assistindo uma grande história, com focos diferentes que afetam uns aos outros de maneira orgânica.

Portanto, mesmo com um ou outro deslize, Pax Penguina prova ser mais um bom episódio de Gotham, uma série que custou um pouco a se achar, mas, quando o fez, passou a nos entregar uma das melhores produções televisivas baseadas em quadrinhos. Com a situação inicial da cidade bem estabelecida, já podemos inferir sobre quais caminhos serão explorador a seguir, em uma temporada que, enfim, promete nos mostrar a origem do Morcego, além de, claro, muitos vilões, como é o caso do Espantalho nesse première. Resta torcer para que essas expectativas sejam não apenas cumpridas, mas superadas.

Gotham – 4X01: Pax Penguina  – EUA, 21 de setembro de 2017
Showrunner: 
Bruno Heller
Direção:
Danny Cannon
Roteiro:
John Stephens
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, Robin Lord Taylor, David Mazouz,  Cory Michael Smith,  Camren Bicondova, Sean Pertwee, Anthony Carrigan, Michael Buscemi,  Maggie Geha, Jessica Lucas, Crystal Reed,  Charlie Tahan
Duração: 
42 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.