Crítica | Gotham – 4X02: The Fear Reaper

– Contém spoilers do episódio. Leiam nossas outras críticas da série aqui.

Ao realizar remakesreboots ou até utilizar personagens em comum com outras produções tidas como exemplos do gênero, é importante que seja feito o máximo para se evitar a comparação entre a obra atual e a “clássica” (usando o termo bem livremente aqui). Dito isso, as referências e inspirações tiradas de Batman Begins, por parte do seriado Gotham sempre vieram de forma a evitar que imediatamente comparemos ambas as obras, o mesmo vale pela utilização do Coringa, que foi apresentado de maneira bastante diferente na série da Fox. Já com o Espantalho a situação não foi exatamente a mesma, já que ambas as versões do personagem são muito parecidas, deixando-nos com a pulga atrás da orelha nesse capítulo, The Fear Reaper.

Claro que estamos falando de um universo retratado de forma completamente diferente, até mesmo em épocas diferentes, mas, ao optar pela superexposição do vilão, é inevitável que recordemos do antagonista interpretado por Cillian Murphy no filme de 2005. Até mesmo o efeito do gás perde parte de seu impacto narrativo em razão disso, já que a expectativa do espectador fora levantada pela obra de Christopher Nolan. Em razão disso, não vejo o excesso de exposição do Espantalho como um aspecto positivo – se sua presença fosse reduzida teríamos um impacto maior, ainda mais considerando que sua principal arma é o medo e, como todo bom diretor de terror sabe, o medo é melhor estabelecido pelo imaginário do espectador.

Ironicamente, no mesmo episódio temos um exemplo de como a referência pode surtir um bom efeito. Refiro-me, claro, à intervenção de Lucius Fox nas atividades de Bruce e Alfred, que justificaram os traços de pedra e concreto na roupa do Wayne como consequência de “escaladas”, óbvia citação ao spelunking de Batman Begins. A similaridade aqui mexe com a memória afetiva do espectador, evita comparações, possibilitando que nos aproximemos ainda mais de Fox, já que imediatamente fazemos a conexão entre ele e a versão interpretada por Morgan Freeman. Além disso, passamos a ver o quão Gotham está perto de nos entregar o Batman de verdade, ao passo que, enfim, ele conseguiu a primeira versão de sua roupa, aos mesmos moldes do que fora feito no longa-metragem de Nolan.

Aliás, esse segundo episódio da quarta temporada deu conta de criar mais uma história de origem, ainda que essa seja continuação do que vimos na temporada anterior. Ivy, que permanecera bastante tempo em segundo plano, finalmente decide fazer sua voz ser escutada, fruto de uma ótima construção de personagem, que soa orgânica e fluida, com cada destrato em relação a ela sendo levado em conta. Evidente que o artifício da poção mágica soa um tanto quanto exagerada, até para os padrões dessa série, algum tipo de produto químico teria funcionado melhor, mas, ao menos, isso irá permitir que a personagem ganhe mais destaque daqui para a frente.

Outro vilão que parece que irá voltar à ativa é Falcone, em uma decisão arriscada, mas lógica de Gordon, que ainda se recorda do estado mais “normal” da cidade, quando era dominada por mafiosos e não malucos ou monstros. Aqui temos o típico caso “dos males, o menor”, que leva em conta o estado no qual a cidade se encontra quando o Batman aparece pela primeira vez. Claro que inúmeras versões surgiram ao longo dos anos, mas seria interessante enxergar tudo retornando para um estado menos caótico, ainda que com a criminalidade em alta. Resta saber como irão proceder em relação ao Pinguim, já que não há como retratar sua queda, mais uma vez, sem soar repetitivo.

Por falar em repetição, o constante vai e vem de Barbara Kean retorna com todas as forças, questão que provavelmente irá dialogar com o retorno de Butch, que fora anunciado nos minutos finais do ano anterior. Dito isso, Gotham precisa aprender a se livrar de verdade de alguns de seus personagens, já que Barbara não desempenha qualquer função essencial dentro da narrativa já há algum tempo. O tempo em tela da personagem poderia ser dado a outras personagens mais relevantes, escolha que permitira maior desenvolvimento de Tabitha, por exemplo, que até agora permanece na unidimensionalidade.

Mesmo com seus deslizes, The Fear Reaper configura-se como um satisfatório episódio de Gotham, ainda que, em qualidade, esteja aquém do première da temporada. Com superexposição do espantalho e repetitividade no arco de Barbara, ficamos um tanto temerosos em relação ao futuro dessa metade de temporada – resta torcer para que o seriado continue nos tirando do lugar comum, revolucionando a situação da cidade constantemente, como sempre fez.

Gotham – 4X02: The Fear Reaper  – EUA, 28 de setembro de 2017
Showrunner: 
Bruno Heller
Direção:
Louis Shaw Milito
Roteiro:
Danny Cannon
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, Robin Lord Taylor, David Mazouz,  Cory Michael Smith,  Camren Bicondova, Sean Pertwee, Anthony Carrigan, Maggie Geha, Jessica Lucas, Crystal Reed,  Charlie Tahan
Duração: 
42 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.