Crítica | Gotham – 4X11: Queen Takes Knight

  • Contém spoilers do episódio. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Things That Go Boom armou um encerramento explosivo para A Dark Knight, primeiro arco da quarta temporada de Gotham e, de certa forma, é isso que vemos em Queen Takes Knight. Se era previsível que Cobblepot sofreria mais uma queda de seu pedestal, alguns desenvolvimentos foram bem trabalhados, especialmente o plano de Sofia Carmine que assume o legado de seu pai e efetivamente acaba com a Pax Penguina.

Mas a sofreguidão para entregar o que fora prometido tornou o midseason finale apressado e desorganizado, com as diversas linhas narrativas recebendo relativamente pouco tempo de tela. Além disso, é visível que o arco do mimado Bruce Wayne (ai, me bateu, não brinco mais!), que mais uma vez demite Alfred, ficou em segundo plano, não havendo qualquer tipo de encerramento efetivo. Aliás, é interessante notar como o desenvolvimento de Master B parece não se encaixar com os títulos dos arcos, já que de “um cavaleiro das trevas” (que sorveu a narrativa de O Longo Dias das Bruxas) não houve muita coisa e o segundo arco que, pelo que foi anunciado, será inspirado mais  diretamente em Ano Um, parece avançado demais para o estágio em que ele se encontra.

De toda maneira, colocando Wayne de molho por um segundo já que ele, por incrível que pareça, me parece o ponto fraco de toda a série, o plano-mestre de Sofia para vingar-se de Jim Gordon e, ao mesmo tempo, calçar os sapatos de seu pai Carmine, é o grande destaque do episódio, cujo título, claro, faz referência direta a ela. Aqui, o roteiro de John Stephens bebe dos episódios anteriores, resultando em uma trama que tem uma boa lógica interna, ainda que sua execução dependa muito de um bom grau de suspensão da descrença por parte dos espectadores.

A questão é que há várias peças móveis nesse complexo tabuleiro de Sofia, peças essas que precisam encaixar-se perfeitamente para que tudo funcione, desde o assassinato de seu pai, passando pela derrocada do império do Pinguim e a própria prisão de Cobblepot em razão do “assassinato” do garoto que vimos anteriormente. É informação demais para ser processada em pouco mais de 40 minutos e, com isso, a forma como as peças se movem deixam a desejar e exigem que aceitemos, em elipses sucessivas pouco inspiradas, graças a um trabalho simplista de Bruno Heller na direção, que Gordon conseguiria não só tomar o efetivo controle de sua delegacia, como sua equipe seria mais eficiente do que o próprio Batman em liquidar com o crime organizado em toda cidade.

A pressa, como diz o ditado, é inimiga da perfeição. Enquanto a lógica do que Sofia coloca em movimento é boa, seu plano exigiria no mínimo um episódio duplo ou um cliffhanger para ser continuado no próximo arco ou, talvez, que ele fosse colocado em movimento antes. Sem isso, temos uma correria infernal que se torna, portanto, improvável e, pior, enfraquece os alicerces sobre os quais a série é construída. Afinal, se derrubar impérios criminosos é tão rápido e fácil – mesmo que consideremos uma passagem de tempo razoável em nossa cabeça, o que vemos na telinha não reflete essa dilação -, então não há porque temer, nem de longe, a formação de uma nova máfia, desta feita sob o controle de Sofia Carmine.

Como se a narrativa principal já não fosse importante o suficiente para tomar no mínimo um episódio integralmente, ela sofre a interferência de outras linhas de desenvolvimento que não estão diretamente ligadas a ela. Há, claro, o já mencionado – e repetitivo – “barraco” entre Bruce Wayne e Alfred que deixa o primeiro cliffhanger leve que obviamente será resolvido alguma hora muito em breve com a volta de Alfred para o seio familiar, depois do garoto quebrar muito a cara por aí. Depois, há pequenos teasers sobre Edward Nygma, cada vez mais abrindo espaço para a volta completa do Charada e o confronto entre Tabitha e Solomon Grundy, com a primeira tentando fazer o segundo lembrar-se de sua vida como Butch Gilzean. Sem dúvida alguma, o roteiro abusa dos clichês, primeiro usando o espelho para lidar com a dupla personalidade de Nygma e, depois, frustrando Tabitha, somente para nos mostrar que sim, sua estratégia de espancar seu ex deu certo. O que isso significará para Nygma e para Barbara Kean é difícil de medir, especialmente porque “des-Grundy-zar” o sujeito não me parece uma alternativa viável para a série, pelo menos não de forma definitiva. De toda maneira, esses dois desvios narrativos funcionaram, ainda que eles estejam deslocados neste episódio.

Particularmente, sempre gostei da forma como a cidade é retratada na série, uma mistura de um lugar real, com um lado sombrio com pitadas góticas bem leves retiradas de alguns quadrinhos e da versão Tim Burton dos cinemas. É, para todos os efeitos, uma das melhores versões live-action da cidade. No entanto, de uns tempos para cá, os exteriores têm se tornado cada vez menos inspirados, com seu lado mais bem trabalhado ficando limitado a interiores, especialmente o da delegacia e a mansão dos Falcone (ali, o exterior também funciona bem). Espero que isso se resolva com o tempo, pois a cidade é um personagem tão importante para a série quando Gordon ou Cobblepot.

Aliás, falando em Gordon, é particularmente alvissareira a forma inédita como o chefe de polícia é abordado aqui, com uma excelente atuação de Ben McKenzie. Queen Takes Knight, apesar da velocidade vertiginosa dos acontecimentos, mostra exatamente as qualidades desta versão de Gordon: um homem torturado e culpado por suas ações do passado, que voltam à tona a cada bom trabalho que ele faz para salvar sua cidade. Dentre a loucura e histrionismos da galeria vilanesca do Batman entulhando a série, Gordon é uma espécie de oásis em que vemos uma falsa calmaria prestes a explodir. Afinal, se as mentes da maioria dos vilões parece ceder facilmente ao peso de suas ações e obsessões, porque não poderia o mesmo acontecer com o outro lado.

Queen Takes Knight merecia ter sido o começo de um fim mais protraído para A Dark Knight, mas Bruno Heller preferiu privilegiar a correria para dar ares de encerramento de arco ao episódio. Com isso, ele sacrificou a história que vinha sendo montada cuidadosamente, mesmo que o resultado final não tenha sido exatamente desapontador. Agora, só resta saber como o império de Sofia Carmine será erigido e qual será o papel do “Coringa-que-não-é-Coringa” nessa equação toda.

*Gotham volta em data ainda não determinada em 2018.

Gotham – 4X11: Queen Takes Knight (EUA, 07 dezembro de 2017)
Showrunner: 
Bruno Heller
Direção:
Danny Cannon
Roteiro:
John Stephens
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, Robin Lord Taylor, David Mazouz,  Cory Michael Smith,  Camren Bicondova, Sean Pertwee, Anthony Carrigan, Maggie Geha, Jessica Lucas, Crystal Reed,  Charlie Tahan, John Doman, Morena Baccarin
Duração: 
43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.