Crítica | Gotham – 4X20: That Old Corpse

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Ok, vamos lá novamente… Quando Bruno Heller apresentou Jerome em Gotham, todo mundo começou a dizer que aquele personagem seria, um dia, o Coringa. Mas Heller, mostrando-se misterioso e cheio de planos, afirmou e continuou reafirmando, mesmo à medida em que Jerome se aproximava ainda mais do maior nêmesis do Batman, que aquele ali não era o Coringa e que essa nunca fora sua ideia.

Todo o mistério chegou ao fim em uma dobradinha de episódios bem recentes. O primeiro, Mandatory Brunch Meeting, introduziu o conceito mais do que batido de que Jerome tinha um irmão gêmeo secreto que ele nunca sequer mencionara chamado Jeremiah, também vivido pelo ótimo Cameron Monaghan, claro. No lugar de desenvolver essa narrativa com a mesma calma com que Heller desenvolveu Jerome, o showrunner pisou fundo no acelerador e, no terrível episódio seguinte, That’s Entertainment, livrou-se de Jerome, estabeleceu o mito do Coringa como algo que transcende a pessoa e colocou Jeremiah no lugar do irmão em definitivo. Promessa cumprida, não é mesmo?

Só que Heller não estava satisfeito. Ele precisava justificar essa sua escolha idiota e apressada de alguma maneira para calar a boca de críticos como eu ou de fãs mais vocais. Ele precisava mostrar que era mais “inteligente” e mais “esperto” que a maioria dos showrunners revelando que seu plano tinha raízes profundas e macabras, que havia uma lógica nessa sua reviravolta foguete. E é para isso que That Old Corpse serve: para deixar evidente seu “brilhantismo” em nos enganar e fazer alterações realmente “significativas”. Se não ficou claro pelas aspas, meu modo sarcasmo estava ligado…

Afinal, seu grande ás na manga é nos apresentar a um Coringa – RUFEM OS TAMBORES – sério! Uau, não é incrível isso? A originalidade que ele apresenta nessa incrível reviravolta é algo que deixaria qualquer criança de seis anos sem fôlego, com vontade de canonizar o showrunner por um trabalho que deixaria qualquer um absolutamente enlouquecido pela ousadia que ele apresenta aqui. Quem imaginaria, afinal, um Coringa sem um sorrisão monstruoso no rosto, cometendo crimes sem risadas maquiavélicas, sem flores que espirram água? Nunca antes na história de Batman algo assim foi tentado e o que Heller faz aqui é sem precedentes.

Desculpem-me. Esqueci de desligar o modo sarcasmo. Mas não dava. Impossível lidar com esse plot twist de outra maneira.

Tendo desancado essa bobagem de Heller e desligado meu sarcasmo, sou obrigado a fazer algo aparentemente contraditório e afirmar que, apesar dos pesares, That Old Corpse consegue se segurar bem, com um resultado acima da média, ainda que longe, bem longe de chegar aos pontos altos desta temporada errática. O primeiro elemento a destacar é, sem dúvida, a atuação de Monaghan, de novo mostrando que tem domínio absoluto sobre seu Jerome (mesmo sendo Jeremiah disfarçado de Jerome) e sobre a pegada do psicopata séria que Jeremiah apresenta. Suas inflexões de voz, suas alterações sutis em suas feições mostram um ator em plena forma que toma conta completamente do cenário, especialmente considerando que, aqui, seu trabalho é simples, já que ele contracena basicamente com o fraco e caricato David Mazouz, que jamais apresentou um grande desafio em termos dramáticos como o sempre bom Ben McKenzie, por exemplo.

Mas o episódio vai além da boa atuação de seu vilão principal, pois há um ótimo trabalho no design de produção na ambientação das sequências do cemitério que lembram filmes de horror dos anos 40 e 50, além da sequência caótica na delegacia que serve de pano de fundo para o resgate heroico de Lee pelo Charada, uma dupla que só vem crescendo em interesse ao longo dos últimos episódios, de certa forma até rivalizando com Cobblepot e Grundy, digo, Butch, que também tem breves aparições no episódio.

That Old Corpse, estranhamente, mostra, ao mesmo tempo, o que há de pior e de melhor em Gotham. De um lado, temos um showrunner que acha que fazer reviravoltas toda hora é mais importante do que desenvolver personagens e, de outro, uma equipe de produção azeitada que cria um dos melhores visuais para a cidade-título que o cinema ou televisão já viram. Fico imaginando o quanto a série poderia ser incrível se os roteiros refletissem fielmente a qualidade do visual…

Gotham – 4X20: That Old Corpse (EUA, 03 de maio de 2018)
Showrunner: Bruno Heller
Direção:
Louis Shaw Milito
Roteiro:
Charlie Huston
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, Robin Lord Taylor, David Mazouz,  Cory Michael Smith,  Camren Bicondova, Sean Pertwee, Anthony Carrigan, Maggie Geha, Jessica Lucas, Crystal Reed,  Charlie Tahan, John Doman, Morena Baccarin, Peyton List, Cameron Monaghan
Duração: 
44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.