Crítica | Gotham – 4X21: One Bad Day

Sequências adaptando A Piada Mortal:

Episódio como um todo:

  • Contém spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos episódios anteriores.

Não sei se aplaudo ou se execro a tentativa de Bruno Heller de adaptar A Piada Mortal, uma das mais icônicas e inesquecíveis HQs do Batman, escrita por Alan Moore e com arte de Brian Bolland. A história sobre loucura e sobre a interdependência quase umbilical entre o Homem Morcego e o Coringa é um dos pontos altos dos quadrinhos mainstream, com impactantes momentos que qualquer fã reconheceria de longe.

Claro que, com o material que o showrunner vinha desenvolvendo, seria completamente impossível algo sequer próximo da obra original, e o temor de uma narrativa que ferisse de morte o espírito do que Moore tão magistralmente fez era grande e justificável. Mas é justamente por isso – a necessidade de restringir-se ao que estava disponível – que essa versão televisiva de 44 minutos escrita por Tze Chun e dirigida por Rob Bailey torna-se intrigante e atrativa.

Quem nunca leu a HQ (se é seu caso, pare agora de ler a crítica e corrija esse erro indesculpável, até porque haverá spoilers dos quadrinhos daqui para frente) não vai entender nada que foi feito no episódio, ainda que ele, claro, continue fazendo todo sentido dentro da série. Como na obra de Moore, o episódio trabalha essa conexão doentia entre herói e vilão, com Jeremiah – já posso chamá-lo de Coringa ou ainda é cedo? – continuando seu plano maquiavélico de destruir Gotham com os geradores-bomba patrocinados por Bruce Wayne sem seu conhecimento.

Sem perder tempo, vemos o Cor…, digo, irmão de Jerome com o figurino do Coringa em A Piada Mortal liderando o agora muito bem aprumado grupo de loucos que o enlouquecido falecido comandava. Gordon, para todos os efeitos, morreu e essa vitória valeu-lhe a lealdade desses marginais e Jeremiah logo mostra a Harvey seu poder de fogo ao destruir uma torre em pleno centro da cidade e dando um ultimato para que Gotham seja evacuada em seis horas. Esse é o tipo de plano de grandes proporções que a série precisava há muito tempo, diria, mas é uma pena que sua resolução tenha sido tão simplista. Mas eu chego já já nesse assunto.

Antes, queria tratar da morte de Gordon. Sei que Gotham é cravejada de constantes mortes e ressurreições dos mais variados personagens, algo muito claramente inspirado nos quadrinhos, onde a morte é sempre relativa, transitória ou temporária. Mas Gordon não é um personagem qualquer, e sim o protagonista da série. A explosão ao final de That Old Corpse, que funcionou como cliffhanger, estabelece a noção bobalhona de que Gordon teria morrido, algo que One Bad Day continua deixando no suspense por uns 10 minutos, somente para revelar que ele escapara sem nenhum arranhão sequer e fora resgatado off camera (e off logic…) por Ed Nygma. Apesar de tentar, Gotham não é quadrinhos e sim uma série de TV e, como tal, deveria obedecer um mínimo de cerimônia e trabalhar melhor a morte que nós sabemos que não é morte. Se é para Gordon aparecer livre, leve e (quase) solto pouquíssimo tempo depois, a manutenção do suspense – para nós – de seu falecimento é, pela falta de palavra melhor, simplesmente idiota. Nada impedia que ele continuasse morto pelo tempo que fosse para Jeremiah, Bruce e Harvey, mas, para o telespectador, é uma perda de tempo se isso não é desenvolvido com mais vagar.

Mas no que estou pensando ao pedir “mais vagar” para Bruno Heller, não é mesmo? O sujeito simplesmente não sabe mais construir uma narrativa compassada. De tempos para cá, tudo para ele é como macarrão instantâneo: fica pronto muito rápido, mas não tem gosto de nada nem com aqueles saquinhos de veneno colorido para misturar. Mas calma, não quero dizer que o capítulo em si seja Miojo, mas sim essa linha narrativa de “Gordon morto” apenas. Aliás, vou além, pois todas as sequências de Gordon com Lee são de chorar não só pela implausibilidade de seu resgate, como, também, pela cansativa transformação atômica da personagem de Morena Baccarin em uma vilã cartunesca que ousa usar a saúde da cidade cujos habitantes são preciosos para ela para barganhar um perdão do prefeito. Onde está a Lee da série? Foi substituída por um Skrull? Ops, citação de editora errada, foi mal.

Além disso, as farpas entre Gordon e Nygma são ridículas e infantis, com os dois competindo pela namoradinha do primário como duas crianças bobalhonas. Foram momentos dolorosos que me deram vontade de torcer para que Jeremiah clicasse o botão da bomba mais próximo do esconderijo de Lee para que meu sofrimento acabasse…

Por sorte, porém, o roteiro não investe tanto tempo assim na tortura que descrevi acima, logo partindo para a história principal com o Coringa sério de Heller dando azo à sua obsessão por Bruce Wayne em uma sequência que sensacionalmente espelha a tentativa de enlouquecer Jim Gordon na “casa de espelhos” em A Piada Mortal. Usando Alfred como isca, o episódio não economiza no seu lado doentio, com direito até a navalhada na boca e tiro na cabeça, com um Bruce perdendo as estribeiras e começando a nos dar os contornos do vigilante psicopata que ele se tornará. É uma pena, porém, que David Mazouz não seja ator o suficiente para nos brindar com uma performance que o momento merecia.

Mas, no espectro diametralmente oposto ao de Mazouz, temos Cameron Monaghan. Sou o primeiro a dizer e a reiterar que detestei como Jeremiah foi introduzido em Mandatory Brunch Meeting e como a troca de Jerome por Jeremiah foi efetivada a toque de caixa em That’s Entertainment, mas também quero ser o primeiro a reconhecer que não só Monaghan continua arrasando neste seu segundo papel, como essa versão séria do Palhaço do Crime é muito bem utilizada aqui, com um efetivo senso de ameaça e aqueles traços de loucura debaixo da superfície pálida e impassível do personagem.

Infelizmente, como mencionei acima, o desfecho do grande plano de Jeremiah é corrido e fácil demais, apagando todo o senso de terror insano até então construído. Até é simpático ver Harvey reconhecido como um grande herói por seus pares, mas a trama das “bombas-conectadas-bastando-achar-e-desligar-uma-para-que-tudo-acabe-bem” é cansativa e boboca, além de estridentemente clichê. O mesmo vale para o ensaio de conflito entre Cobblepot e Jeremiah que, se é interessante em seu primeiro minuto, logo perde o gás e fica parecendo o que é: a boa e velha “encheção de linguiça”.

A conexão de Jeremiah com Ra’s Al Ghul, ao final, apesar de soar forçada, coloca os dois vilões mais obcecados com Wayne juntos pela primeira vez no que parece ser o impulso final para o garoto mimado torna-se o Cruzado Encapuçado. Afinal, Jeremiah chegando silenciosamente (que sistema de segurança porcaria que a mansão tem, não?) e atirando em Selina compensa qualquer problema ou conveniência anterior, em uma sequência muito bem dirigida por Rob Bailey que abafa o som, ativa a câmera lenta e trabalha primeiro e segundo planos com perfeição, com Bruce sobre uma Selina mortalmente ferida na frente e um furioso Alfred espancado um inerte Jeremiah ao fundo. Isso sim é um baita de um cliffhanger!

Portanto, respondendo minha própria dúvida do começo, devo dizer que Heller merece aplausos pelo que ele tentou fazer, mesmo com todos os penduricalhos equivocados em volta. Agora é torcer para que, no último episódio da temporada, a promessa de vermos o início do arco Terra de Ninguém de Batman não apague ou apresse a finalização da adaptação de A Piada Mortal. Será um desperdício se não houver consequências duradouras físicas para Selina e mentais para Bruce.

Obs: No momento de publicação da presente crítica, a renovação de Gotham para a 5ª temporada pela Fox é incerta e dependente da contratação de um novo ator para protagonizar Lethal Weapon. Ao que tudo indica, apenas uma das duas séries seria renovada e Lethal Weapon teria prioridade.

Gotham – 4X21: One Bad Day (EUA, 10 de maio de 2018)
Showrunner: Bruno Heller
Direção:
Rob Bailey
Roteiro:
Tze Chun
Elenco: 
Ben McKenzie, Donal Logue, Robin Lord Taylor, David Mazouz,  Cory Michael Smith,  Camren Bicondova, Sean Pertwee, Anthony Carrigan, Maggie Geha, Jessica Lucas, Crystal Reed,  Charlie Tahan, John Doman, Morena Baccarin, Peyton List, Cameron Monaghan
Duração: 
44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.