Crítica | Grace and Frankie – 1ª Temporada

estrelas 3,5

Mais do que a premissa inusitada, Grace and Frankie, a nova comédia dramática da Netflix, atrai pela oportunidade rara de ser ver quatro veteraníssimos atores contracenando na telinha: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterson e Martin Sheen. Todos eles com 75 ou mais anos de idade, com Jane Fonda com impressionantes 77, são um deleite visual pela lição de jovialidade que demonstram a cada minuto em tela, com apenas uma pequena exceção, que mencionarei mais adiante.

Por um momento, logo depois que a trama é catapultada e os espectadores passam a ser apresentados à família dos dois casais de terceira idade – Grace (Fonda) e Robert (Sheen) e Frankie (Tomlin) e Sol (Waterson) – fica uma impressão que os criadores da série pecaram no exagero de juntar, sob um mesmo telhado, todo tipo de correção política. Um casal é judeu o outro não, um casal tem dois filhos adultos adotados, um branco ex-drogado e um negro todo certinho e o outro casal tem duas filhas, uma dona de casa e mãe de família exemplar e outra uma esperta e independente mulher de negócios.

E isso tudo em cima da premissa que envolve a revelação de que, depois de 40 anos de casados, Robert e Sol saem do armário e pedem divórcio para poderem se casar. O choque na família é sentido imediatamente, com as ultrajadas esposas humilhadas e tendo que morar juntas na casa de praia que os dois casais haviam comprado em condomínio.

Parece um pouco demais, não?

Mas Marta Kauffman e Howard J. Morris, criadores da série, até conseguem de maneira suficientemente esperta reduzir o impacto da correção política exagerada ao não perder tempo explicando o passado da família. A questão da adoção, por exemplo, fica nas entrelinhas, sem muito drama, sem muita exploração (com apenas um momento estranho e desnecessário em que um dos filhos diz que está procurando sua mãe biológica). O foco fica todo na dupla do título que precisa se adaptar à sua nova condição sem maridos e tendo que conviver sob um mesmo teto, apesar de nunca terem sido grandes amigas. E aí está o grande acerto.

A fotografia de câmera única repousa de maneira inclemente à frente de Tomlin e Fonda, cada uma vivendo a versão de terceira idade do tipo de pessoa que o imaginário popular montou de cada atriz ao longo das décadas. Tomlin é a incurável “riponga” que anda de cabelo desgrenhado, roupas largas e sandálias, acende velas, medita, usa alucinógenos, dá aula de pintura a ex-condenados e acredita em todo tipo de religião ou seita alternativa. Ela está sempre de bem com a vida e sempre tem um ensinamento a passar adiante.

Fonda, por sua vez, é a versão de cair o queixo do símbolo sexual que foi na década de 60 e da professora de ginástica pela televisão na década de 80. Ela está perfeitamente em forma – ela tem 77 anos! -, elástica, cuida da aparência meticulosamente com cabelo sempre armado, pintado e usa roupas elegantes mesmo que para tarefas mundanas do dia-a-dia.

As personalidades de Grace e Frankie refletem as de suas respectivas atrizes e, com isso, há uma piscadela de meta-história nos roteiros, divertindo o espectador sem que nem mesmo a trama seja impulsionada. Mas a narrativa caminha e caminha bem, mas longe da perfeição. Há um certo desequilíbrio entre drama e comédia que às vezes incomoda, mas que é difícil apontar o dedo exatamente no problema. Os capítulos da temporada transitam entre o fortemente crítico e o escracho e muitas vezes não há harmonia, deixando evidente o esforço que todos fizeram para que fusão funcionasse, mas as partes são ainda visíveis dentro do todo.

Do lado masculino da quadra de ases que comanda a série, Sam Waterson e Martin Sheen divertem, mas bem menos que suas contrapartidas femininas. Waterson está muito bem como o sentimental Sol, que tem enorme dificuldade em magoar sua agora ex-esposa, tornando a separação muito traumática. O ator está realmente dedicado ao personagem e podemos facilmente nos compadecer por suas agruras, além de sua química com Tomlin ser perfeita. Mas o mesmo não acontece com Sheen. Ele parece “não estar lá” na maioria do tempo. Não sei se foi o roteiro que não lhe reservou bons momentos, mas ele parece querer se esconder atrás de seu personagem e não o contrário, resultando em uma atuação muda e muitas vezes deslocada, que não gera boa conexão com a de Waterson, sempre ao seu lado.

Já em relação aos filhos dos casais, eles são o que deveriam ser mesmo na série: adereços. Sua presença é constante, não se enganem, mas eles estão lá para dar sabor à narrativa maior, notadamente a de Grace e Frankie. Suas respectivas histórias são superficiais e, com exceção de Brianna (June Diane Raphael), filha de Grace e Robert e administradora da empresa de cosméticos que um dia fora da mãe, os demais têm narrativas pouco engajantes.

Mas é como disse: Lily Tomlin e Jane Fonda estão nos holofotes e é para lá que todas as atenções devem realmente convergir. Elas roubam cada sequência em que aparecem e, quando juntas, competem ferrenhamente para uma aparecer mais do que a outra. É absolutamente encantador vê-las se divertindo e se desnudando (algumas vezes literalmente!) em seus papeis, abraçando com fervor a idade e a feminilidade. Não é todo o ator ou atriz – mesmo décadas mais novo – que tem coragem de fazer o que elas fizeram aqui.

Grace and Frankie, apesar de seus problemas, promete diversão e deslumbramento encarnado em Fonda e Tomlin. Essas são razões mais do que suficientes para se conferir a série.

Grace and Frankie – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2015)
Showrunners: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Ernie Hudson, Craig T. Nelson
Duração: 25-32 min. por episódio (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.