Crítica | Grace and Frankie – 2ª Temporada

estrelas 4

Obs: Contém spoilers apenas da temporada anterior, cuja crítica pode ser lida aqui.

Começando exatamente do ponto em que a primeira temporada parou, a segunda temporada de Grace and Frankie mostra que, assim como sua quadra de protagonistas, a qualidade aumenta com o tempo. A impressão de trama solta que se apoiava demais em Jane Fonda e Lily Tomlin vivendo versões fictícias delas mesmas desaparece quase que por completo na segunda temporada, com uma narrativa mais orgânica e completa, que aproveita o timing cômico das duas e também de suas ex-caras metade, os personagens vividos por Sam Waterson e Martin Sheen para discutir questões sérias e constrangedoras sem perder a leveza.

Com Grace (Fonda) e Frankie (Tomlin) mais acostumadas a viver juntas, apesar de suas enormes diferenças, o gancho do final da temporada anterior – o adultério de Sol (Waterson) com Frankie – ganha o centro das atenções quando Sol, moído pela culpa, decide contar o ocorrido a Robert (Sheen) apenas para encontrar seu futuro marido desacordado à mesa, depois de um ataque cardíaco. Assim, o lado dramático da série ganha forte destaque, com o dilema moral de Sol posto à prova, especialmente quando a família toda dá sua opinião sobre o que fazer e o que não fazer quando um Robert pré-operatório exige casar-se com Sol imediatamente.

O interessante dos roteiros da série comandada por Marta Kauffman e Howard J. Morris é que, desta feita, eles praticamente contam uma história só a partir dos acontecimentos acima não só mantendo o destaque em Grace e Frankie – as verdadeiras grandes estrelas, não há dúvida! – como, também, trazendo Sol e Robert para o centro do palco quase que em pé de igualdade com suas contrapartidas femininas. Além disso, a temporada se esmera ao tirar Brianna (June Diane Raphael) e Bud (Baron Vaughn) do marasmo a que foram sujeitos na primeira temporada colocando-os em lados opostos de uma engraçada disputa que tem Frankie no centro e ao tentar – mas sem sucesso completo – fazer o mesmo com Coyote (Ethan Embry) e Mallory (Brooklyn Decker), o primeiro com a continuação de um fiapo de trama sobre sua mãe biológica e a segunda com a introdução da noção de que ela está grávida novamente.

A naturalidade com as sub-tramas são introduzidas e se desenrolam, sempre servido à narrativa maior é o que demonstra a maturidade da série. A comicidade dos eventos torna-se aspecto subsidiário para dar leveza a questões complexas como o adultério (e não só o principal, como também outro, de dar aperto no coração, envolvendo Grace), o suicídio assistido, as relações familiares e, claro, a amizade. Nada é tabu demais para ser abordado, nem mesmo a auto-consciência dos showrunners, representados por seus personagens, com a própria formação das famílias Bergstein e Hanson, uma formada por um casal de tradições judaicas que adotou dois filhos de etnias diferentes e outra de tradições católicas que tem de um lado uma filha que representa a emancipação feminina e, de outro, uma que representa a escolha por um estilo de vida que outrora fora considerado “padrão” para mulheres. O choque nas relações causadas por essas escolhas narrativas se em um momento podem parecer forçadas, funcionam bem como um microcosmo de nossa sociedade, especialmente quando vêm envelopadas pela premissa da série: o relacionamento homossexual. Com isso, a série vai a fundo em sua tentativa de se cutucar o status quo, em nos fazer pensar naquele “clichezão” básico que faz parte de tantas mensagens de auto-ajuda por aí, mas que curiosamente as pessoas esquecem, na linha de que o que interessa é o amor e o respeito, o resto é balela.

E tudo isso vem referendado por grandes estrelas das telonas e telinhas, aqui representadas pelo quatro protagonistas que ganham o reforço de Conchata Ferrell vivendo Vó Jean, a hilária “outra avó” na família de Grace, Ernie Hudson voltando como Jacob, interesse romântico de Frankie, Sam Elliott sendo introduzido na série como Phil, paixão de Grace já na terceira idade e principalmente Estelle Parsons como Babe, amiga de longa data de Grace e Frankie e responsável por alguns dos momentos mais belos da temporada. Há enorme prazer em ver essa equipe toda perfeitamente azeitada em tela, proporcionando episódios atrás de episódios que não tentam apenas fazer uso do artifício “atores idosos contracenando”, mas sim sempre dar importância ao que eles contam, às lições que eles passam aos espectadores de todas as idades. Ainda há elementos pouco trabalhados, como fica evidente pelos momentos dedicados a Coyote e Mallory e em episódios como The Test, que estão ali apenas para “ocupar espaço”, mas não é nada que não possa ter seu rumo corrigido na medida em que a série evolua.

Se, no ínicio, Grace and Frankie era “apenas” uma curiosidade divertida, agora a série encontrou verdadeiramente seu passo e mostrou a que veio. Temas maduros trazidos de maneira adulta e sem floreios, mas com uma pitada de graça e leveza que permite a absorção da lição em meio a risadas – e algumas lágrimas – de coração arrancadas com boa constância. Um grande acerto do elenco, dos showrunners e do Netflix.

Grace and Frankie – 2ª Temporada (Idem, EUA – 06 de maio de 2016)
Showrunners: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Ernie Hudson, Estelle Parsons, Sam Elliott, Swoosie Kurtz, Marsha Mason, Rita Moreno, Amy Madigan, Jai Rodriguez, Conchata Ferrell, Carrie Preston
Duração: 25-32 min. por episódio (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.