Crítica | Grace and Frankie – 3ª Temporada

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estrelas 4,5

Obs: Contém spoilers apenas das temporada anteriores, cujas críticas podem ser lidas aqui.

São raras as séries que consistentemente melhoram na medida em que avançam de uma temporada para outra. Grace and Frankie, felizmente, é uma dessas afortunadas, o que é uma excelente notícia por si só, já que ela é um dos poucos veículos que colocam atores da chamada terceira idade, que já viveram seus dias de glória plena em Hollywood, em destaque novamente. Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterson e Martin Sheen voltam mais uma vez para agraciar o público com suas atuações desde já inesquecíveis como, respectivamente, as duas melhores amigas disfuncionais e o casal gay que sai do armário 40 anos depois de casados com suas esposas.

Na terceira temporada, os showrunners Marta Kauffman e Howard J. Morris talvez tenham encontrado o perfeito equilíbrio entre as narrativas das duas duplas de protagonistas, ainda que, obviamente, mantendo seu foco em Grace (Fonda) e Frankie (Tomlin). Além disso, os coadjuvantes – os filhos dos ex-casais – saem das sombras de seus pais e ganham histórias mais encorpadas que, mesmo subsidiárias, ajudam narrativamente em justificar sua presença constante ao longo da temporada.

A linha mestra do que vemos aqui é resultado da frustração de Grace e Frankie em sua tentativa, na temporada anterior, de entrar (reentrar, no caso de Grace) no mundo dos negócios. Juntas, elas efetivam sua sociedade e partem para fabricar e vender um vibrador lilás criado por elas tendo senhoras de idade em mente. O assunto em si é tabu e polêmico o suficiente para já justificar sua utilização na série e os roteiros fazem isso de maneira elegante e relevante, sem jamais descambar para brincadeiras óbvias para tirar risadas baratas do espectador. Vê-se um evidente respeito pelo tema do “envelhecer” e isso é algo que permeia cada episódio da série desde o começo. Confesso, porém, que é na terceira temporada que o lado mais cômico de Fonda e Tomlin consegue realmente ganhar destaque, afastando um pouco a pegada dramática das anteriores, ainda que, claro, ela ainda esteja fortemente presente, como deveria estar mesmo.

Com isso, as limitações físicas das duas é abordada – inclusive, há um episódio inteiro, The Floor, que se passa no chão da casa delas em razão de problemas nas costas – resultando em discussões realmente interessantes como, por exemplo, o ponto em que os filhos devem intervir e tomar medidas para que seus pais tenham segurança. A saúde é também vista sob o ponto de vista da ciência plena versus a ignorância proposital. Será que é melhor conhecer seus problemas e tratá-los ou continuar desconhecendo-os? Além disso, o amor na terceira idade é discutido fora do núcleo masculino de Robert e Sol, com o romance entre Jacob (Ernie Hudson) e Frankie se intensificando.

Como disse, porém, a temporada atinge um bom equilíbrio, com Rober e Sol também ganhando os holofotes, algo que há vinha acontecendo desde o evento catalisador da temporada anterior (o ataque cardíaco de Robert). Aqui, os dois se mudam para uma casa nova, mais com a cara deles e passam a discutir algo importante: qual é o momento de parar? Afinal, ambos ainda trabalham como advogados e nunca pensaram em aposentadoria, mas Robert sente-se tão bem como dono de casa, que levanta o assunto e toma uma decisão radical de uma hora para outra, deixando Sol um tanto quanto desamparado e tendo que olhar para si mesmo para enfrentar a situação. Ao mesmo tempo, Robert consegue o papel principal em 1776, musical que será montado pelo teatro comunitário local, algo que ele abraça de coração e que serve para a série discutir a relação deles de fora para dentro, com a visão de radicais contra gays no teatro, levando Robert também a revelar para sua mãe que é gay.

E o equilíbrio continua com destaques para a nova relação amorosa de Bud (Baron Vaughn) com uma hilária hipocondríaca, a vida de viciado em recuperação de Coyote (Ethan Embry) e a relação entre os dois, já que Coyote ainda vive no sofá da sala de Bud. O mesmo vale para as irmãs Brianna (June Diane Raphael) e Mallory (Brooklyn Decker) que se aproximam a partir de suas diferenças e passam a representar uma geração que se mostra insatisfeita com o que tem, cada uma de certa foma desejando a vida da outra em uma linha narrativa independente da principal, mas que não soa artificial ou de qualquer forma aleatória.

Ainda há alguns problemas pontuais com a série, como o “desaparecimento” e “reaparecimento” de personagens conforme a conveniência da história e sem muita cerimônia e um pequeno grau de repetição temática que poderia ser evitado talvez com a redução de episódios. Mesmo assim, Grace and Frankie vem mostrando franco amadurecimento, com escolhas criativas cada vez mais ousadas – afinal, não é toda série que lida com vibradores como a mesma naturalidade que falamos sobre a previsão do tempo – e com o uso de seu elenco de maneira cada vez mais cativante e, acima de tudo, relevante.

Grace and Frankie é uma deliciosa série que sabe valorizar sua veteraníssima quadra de ases e mostra que nem só de corpos e rostos de 20 e poucos anos vive a indústria.

Grace and Frankie – 3ª Temporada (Idem, EUA – 24 de março de 2017)
Showrunners: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Ernie Hudson, Peter Cambor, Geoff Stults, Ed Begley Jr., Millicent Martin, Lois Smith, Peter Gallagher
Duração: 25-32 min. por episódio (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.