Crítica | Grace and Frankie – 4ª Temporada

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das temporadas anteriores. 

Em determinado momento da 4ª Temporada de Grace and Frankie, quando Grace decide mostrar a Nick, seu namorado mais novo e milionário, quem ela verdadeiramente é, vemos, diante de nossos olhos, Jane Fonda desnudar-se. E não falo de suas roupas, mas sim de sua alma: o símbolo sexual dos anos 60 e a professora de aeróbica em vídeo dos anos 80, retira seus cílios postiços, suas mechas  de cabelo implantadas e sua maquiagem, revelando-se como ela é hoje de verdade, aos 80 anos de idade.

Sim, ela provavelmente já fez cirurgias plásticas e reparos estéticos extensivos, mas não é todo dia que vemos uma atriz, em uma infelizmente rara idade de se ver em papel protagonista na TV ou no cinema, mostrar sua verdadeira face, seu verdadeiro eu. É nesse momento que a temporada mostra realmente a que veio, depois de começar de forma um pouco cambaleante com a abordagem das consequências do cliffhanger da anterior, que separa Frankie de Grace. 

O problema desse começo está na velha “finta” televisiva em que uma série ameaça mudar, somente para reverter à mesma estrutura anterior. Vemos Frankie, que se mudara para Santa Fe com Jacob, de volta à San Diego para visitar Grace e sua família deparando-se com Sheree (Lisa Kudrow) morando com sua amiga na casa de praia. São três episódios lidando com essa questão somente para Sheree ser defenestrada da temporada e tudo voltar a ser como era, com Grace e Frankie mais uma vez juntas, de certa forma “traindo” o cliffhanger anterior.

Mas esse jogo é muito comum em séries de TV. Apenas achei que essa premissa pudesse ser a força motriz de toda a temporada, e não só de seu comecinho, o que empresta aquela sensação de “mudar para não mudar nada” que chega a ser um tique nervoso de uma vasta quantidade de showrunners.

De toda forma, esse começo de maneira alguma estraga a experiência sempre mais do que agradável que é ver Fonda contracenando com Lily Tomlin em uma série que não se furta de abordar as questões mais “difíceis” da terceira idade: as limitações físicas inerentes e a morte no horizonte. Mas quem acompanha Grace and Frankie desde o começo, sabe que mesmo esses assuntos pesados são tratados com uma leveza inteligente que emociona ao mesmo tempo que nos faz encarar nossa mortalidade, preparando-nos para ela.

Portanto, se por um lado a temporada vê o fim do relacionamento de Frankie com Jacob, por outro há o fortalecimento do namoro de Grace com o divertidamente insistente Nick. Se por um lado vemos a quadra principal lidar com sucessivos velórios de amigos próximos, por outro vemos o conturbado nascimento da filha de Bud e Allison. Se Frankie descobre que está legalmente morta, a série celebra a vida apesar de tudo.

E a vida de casal de Sol e Robert também ganha uma baita sacudida quando o bonitão e bem mais jovem Roy (Mark Deklin) entra no cenário após um cruzeiro folk em que apenas Sol vai quando Robert o “troca” por mais um protagonismo em um musical local. A relação dos dois, então, passa a ser o foco de praticamente metade da temporada e, desta vez, de maneira razoavelmente independente dos acontecimentos gerais, o que, porém, surpreendentemente, acaba funcionando bem ao dar vida própria aos dois sem a eterna conexão direta com Grace and Frankie.

No entanto, um dos elementos vitoriosos da temporada anterior, ou seja, o aproveitamento constante e bem amarrado de Brianna, Mallory, Bud e Coyote como coadjuvantes fica um pouco de lado, mas, felizmente, nunca esquecido. Com exceção talvez de Mallory, todos têm um grau aceitável de importância dentro da narrativa macro e contribuem para sua impulsão evitando aparecimentos e desaparecimentos convenientes de roteiros impensados. 

Acontece que esse “empurrão” dos coadjuvantes um pouco mais para escanteio na temporada em comparação com a anterior abre espaço para bons momentos com Grace e Frankie lidando com seu dia-a-dia, aí incluídos o joelho machucado de Grace (algo aconteceu mesmo com Fonda e é inserido brilhantemente na estrutura da temporada) e as confusões mentais de Frankie que deságuam naquela pergunta que todos querem evitar fazer: qual é a melhor solução quando os idosos não podem ou não devem mais viver sozinhos ou quando até mesmo a convivência com a família não é mais suficiente? 

Mostrando ainda um impressionante fôlego, Grace and Frankie vale cada segundo de sua projeção como um lembrete de que teremos sorte se chegarmos à terceira idade com o vigor da quadra protagonista. Mais do que isso até, a série nos pede para vivermos cada segundo de forma completa, sem preocupação com a máscara que a sociedade nos exige colocar. E, em meio ao inevitável fim da vida, porque não rirmos um pouco, não é mesmo?

Grace and Frankie – 4ª Temporada (Idem, EUA – 19 de janeiro de 2018)
Showrunners: Marta Kauffman, Howard J. Morris
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Sam Waterston, Martin Sheen, Brooklyn Decker, Ethan Embry, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Ernie Hudson, Tim Bagley, Peter Cambor, Michael Charles Roman, Marsha Mason, Megan Ferguson, Peter Gallagher, Talia Shire, Mark Deklin, Lisa Kudrow
Duração: 25-32 min. por episódio (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.