Crítica | Gracepoint 1X01

estrelas 4

O costume americano de se fazer um remake de uma obra de sucesso do exterior não é de hoje. De O Grito até Deixe Ela Entrar já observamos inúmeras dessas obras, tanto nas telonas quanto na televisão. A raridade surge quando uma dessas produções acaba superando a original, como éo caso de The Office. Gracepoint, refilmagem da série inglesa de enorme sucesso de 2013, Broadchurch, não é uma dessas exceções – ao menos não neste primeiro episódio.

A nova série já nasce com um enorme problema: a inevitável comparação do espectador que já assistiu a ambas. É claro que este não é o público alvo, por mais que tenhamos David Tennant escalado para o mesmo papel. O jovem Daniel Latimer, de apenas doze anos, se torna Daniel Solano e seu misterioso assassinato, na pequena cidade de Gracepoint é o centro da narrativa. Não confie em ninguém éo bordão da obra e ele se demonstra presente desde este princípio, tornando qualquer um, desde os pais atéo melhor amigo do menino, como possíveis culpados. A cargo da investigação estão os detetives Emmett Carver e Ellie Miller (Anna Gunn, a Skyler de Breaking Bad).

A série praticamente recria seu material base ao utilizar uma fotografia similar, priorizando tons mais sóbrios para criar aquele ar de melancolia. O uso constante da câmera lenta enfatiza essa intenção ao nos passar a impressão de um tempo emocional, com ações dilatadas de acordo com a percepção dos personagens sobre elas. A caminhada dos detetives do carro até a porta da casa dos Solano, para contar sobre o ocorrido, é exibida de forma mais lenta, revelando o receio, o remorso, de ambos os policiais.

É incrível notar que, mesmo com essas claras heranças de Broadchurch, esta nova série conta com um ar completamente americano. Os traços claramente ingleses da original são evidentemente deixados para trás. Infelizmente, com isso, parte do drama também se perde – écriada uma maior sensação de urgência Pela sutilmente mais ágil montagem, quando a melancólica Lentidão seria mais apreciada.

Esse fator, porém, não tira a força do elenco principal, composto por Tennant e Gunn. O primeiro nos entrega exatamente o que esperávamos tendo assistido a produção original – um detetive com ar de cansado, brusco e nem um pouco sociável. Ele é o “bad cop” da dupla. Existe, porém, nas entrelinhas, a clara percepção de que ele oculta uma tristeza em seu passado. Há claramente um motivo do porquê ele ser assim. Anna Gunn, por sua vez, nos traz uma figura mais familiar, atenta e simpática à sua comunidade. Sua envolvente retratação ainda nos distância de seu ótimo papel como Skyler White – certamente consegue nos entregar uma atuação tão sólida quanto a de Olívia Colman.

Gracepoint, não se enganem, começa como uma ótima série dramática policial. Seu maior obstáculo ése firmar como uma obra àparte da original, se distanciando da ótima Broadchurch. A comparação, contudo, ainda é inevitável e prejudica a nossa completa imersão – por enquanto, afirmo: assistam a original.

Veremos se nossa percepção se altera ao fim da temporada.

Gracepoint (idem – EUA, 2014)
Showrunner:
Chris Chibnall
Direção: James Strong
Roteiro: Chris Chibnall
Elenco: David Tennant, Anna Gunn, Virginia Kull, Kevin Rankin, Kevin Zegers, Josh Hamilton, Jessica Lucas

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.