Crítica | Grand Theft Auto (1977)

A estreia diretorial de Ron Howard não é a das mais extraordinárias, aproximando-se de outros começos de carreira mais satisfatórios, como os de Martin Scorsese e Steven Spielberg. De fato, o diretor – e também ator – já havia dirigido uns curtas antes, mas este é o primeiro longa-metragem de Howard, de muitos que ainda viriam e virão. O que não se esperava, porém, em uma revisitação da trajetória cinematográfica do diretor, era uma obra tão fraca quanto essa, a qual funciona somente para os amantes de escapismo descerebrado. Antes de Velozes e Furiosos, tivemos Grand Theft Auto e não poderíamos desagradecer mais por isso. Na pretensão de achar que veria uma crítica social, ou algo levemente relevante (lembrem-se que estamos em 1977, qualquer coisinha já seria algo bem maior pelo contexto da época), sobre o caráter da submissão feminina perante os desejos dos pais; a questão da influência, do desejo de criar do nada uma organização familiar, tendo em vista os interesses que se revelam disso, decepcionei-me. No anseio de me deparar com uma corrida grandiloquente, fomentada por maus entendidos consecutivos, a qual encontra alicerce no tom cômico, também me decepcionei.

A realidade é que Ron Howard parece estar se divertindo no longa-metragem, o primeiro e único em que atua e dirige. O filme, em consequência, é o cineasta correndo com os seus carrinhos de Hot Wheels ou alguma variação deles, quase como uma massagem feita a si mesmo, satisfazendo seus desejos mais infantis – nada de errado nisso, até aqui. A premissa coloca o casal Sam Freeman, interpretado pelo próprio Ron Howard, e Nancy Morgan (Paula Powers) para fugir em direção à Las Vegas, pretendendo se casar. A questão é que Nancy é prometida a outro homem, deixando seu pai Bigby Powers (Barry Cahill) furiosíssimo, começando, em razão disso, sem mais nem menos, uma perseguição de carro pelas estradas. De um lado, Nancy roubou, em sua fuga, o Rolls-Royce de seu pai, e do outro, uma grande bola de neve começará, com mais e mais pessoas entrando nessa confusão automobilística. Em resumo, temos um enredo básico, sem muita ornamentação, que serve como pretexto para Howard colocar carros em alta velocidade colidindo com o que vier pela frente. No meio de tudo isso, a narrativa é conduzida por caminhos muito bobos, com um humor que não encontra seu lugar.

O que pode ser apreciado em Grand Theft Auto são mesmo essas perseguições de carro, essência da obra. Tudo de legal, possível de ser encontrado no filme, resume-se às manobras e à destruição. A equipe realizadora do longa-metragem deve ter tido sérios problemas em destruir uma tonelada de carros, ou não, visto que eles não economizam muito nessa questão. Afinal, em menos de 20 minutos, Collins Hedgeworth (Paul Linke), pretendente original de Paula, já tinha destroçado dois carros – quase nada, se comparado com a contagem final de amassados. O segundo, aliás, sofre uma batida completamente inesperada, a qual deve muito à montagem fraca de Joe Dante, sem saber conduzir muito bem a corrida do maluco. Ron Howard também aproveita para destruir carros sem a menor explicação argumentativa possível. É a destruição pela destruição, sem propósitos de storytelling algum. O playground dos sonhos. Ademais, o começo do filme, com a discussão entre pais e filha, fica mais robótica do que seria originalmente devida a cortes bastante problemáticos. Por falar em robótico, Paul Linke está péssimo, um personagem inverossímil, bastante atacado, que não agrega em nada à narrativa da obra, apenas atrasando-a.

Grand Theft Auto é uma diversão sem compromissos, mas não um filme que se esforça minimamente para ser algo além. No mais, a obra tinha um verdadeiro potencial de tirar sarro de si mesma, ou trabalhar de forma adequada seus personagens, no meio de perseguições frenéticas – como Mad Max: Estrada da Fúria faz. Mas isso é querer demais de um roteiro bem mal acabado, que consegue encontrar seus melhores momentos na relação, nem tão desenvolvida, entre Sam e Nancy. Os dois funcionam mesmo assim, surpreendentemente. Sem graça, o humor é risível, no pior sentido possível – aquele pastor que corre atrás de Collins enquanto fala de Deus é vergonha cinematográfica alheia. Dessa forma, o problema do longa-metragem não é Ron Howard estar estimulando em si mesmo os seus desejos mais joviais, de uma época em que ainda havia cabelo em sua cabeça. O problema é esquecer que está produzindo cinema e não um vídeo caseiro a ser visto e revisto durante seus momentos de descanso. Dessa forma, este acaba sendo, infelizmente, o único exemplar de sua própria juventude: carros explodindo, episódios de Corrida Maluca e namoros à cem quilômetros por hora.

Grand Theft Auto — EUA, 1977
Direção: Ron Howard
Roteiro: Ron Howard, Rance Howard
Elenco: Ron Howard, Nancy Morgan, Elizabeth Rogers, Barry Cahill, Rance Howard, Paul Linke, Marion Ross, Don Steele, Jack Perkins, Paul Bartel, Bill Conklin, Garry Marshall, Robby Weaver, Leo Rossi, James Ritz, Clint Howard
Duração: 84 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.