Crítica | Grande Hotel (1932)

GRANDhotel

estrelas 4

Repleto de curiosidades cinematográficas, Grande Hotel tem sua importância no cinema marcada não apenas por ter sido concedido o Oscar de Melhor Filme, mas por ter introduzido um característico tipo de narrativa, que muito se repetiria nesses mais de setenta anos desde o lançamento da obra. Refiro-me, é claro, a diferentes histórias, de personagens distintos que, em comum, possuem somente o local onde habitam na ocasião da história em questão.

Baseada na peça America de William A. Drake, o longa se estabelece no Grand Hotel em Berlim, tido como um dos mais caros do país. Operadoras telefônicas abrem a narrativa, transferindo diferentes ligações dos personagens que viríamos a conhecer ao longo do filme. É curioso constatar que as diferentes subtramas que nos são apresentadas não possuem absolutamente nada em comum e, com o desenrolar da trama, vemos tais indivíduos terem pontuais momentos de interação. Embora tenhamos um maior enfoque no Barão (John Barrymore) e na bailarina Grusinskaya (Greta Garbo) chega a ser nítido o esforço do roteiro em equilibrar o espaço em tela de cada um dos clientes retratados no hotel – cada um conta com ocasiões específicas de destaque, que garantem ao filme seu, já citado, caráter único à época.

Um texto como esse, contudo, vem com um problema inerente, difícil de ser contornado: a criação de um enredo que prenda o espectador – afinal, não temos aqui um trama linear propriamente dita, trata-se de uma colcha de retalhos que muito dificilmente pode ser unificada. Para tal, a direção de Edmund Goulding é precisa, trabalhando com uma visível rigidez, que traz de cada ator uma marcante personalidade, seja pela fala, seja pelo gestual. Aos poucos são criados pontos de identificação com cada um dos indivíduos, permitindo um engajamento maior com a trama.

Para isso ser bem sucedido, é preciso, além da direção, uma bom trabalho por parte dos atores. Nesse quesito, quem mais se destaca é Greta Garbo e Joan Crawford, ainda que em papéis de mulheres sujeitas a um personagem masculino, o Barão. Greta, para seu papel, utiliza técnicas que veríamos posteriormente com o surgimento do Actor’s Studio, utilizando o método de Stanislavksi a fim de perfeitamente mergulhar em seu papel – a caráter de exemplo, a atriz, em uma das cenas mais emblemáticas da obra, continuava a beijar sua contraparte mesmo após o término da filmagem.

Com o passar dos minutos, porém, o filme lentamente se aproxima de um status quo, uma relativa monotonia. Em tal momento preciso temos um chocante plot point, que certamente nenhum espectador esperava. O ato final do filme é delineado por tal evento, unindo cada um dos personagens apresentados,  enfim. A ideia de que se trata de um breve olhar sobre ocasiões dentro do hotel se mantém, ao mesmo tempo que o imaginário e a memória do espectador são fisgados pela surpreendente narrativa.

Infelizmente nem tudo atua a favor da obra. O mais notável desses elementos é o trabalho de montagem de Blanche Sewell, que causa estranhamentos na transição dos planos mais abertos para os constantes closes nos rostos dos personagens. O raccord sai visivelmente prejudicado, com algumas pontuais quebras de continuidade, não condizentes com a estirpe de tal obra.

Sabendo contornar, com seu olhar, esse problema, o espectador ainda pode aproveitar o longa sem hesitações. Certamente um filme que vale ser assistido, seja pelo seu valor histórico, seja pela intrigante narrativa estabelecida.

Grande Hotel (Grand Hotel) — EUA, 1932
Direção:
 Edmund Goulding
Roteiro: Vicki Baum
Elenco: Greta Garbo, John Barrymore, Joan Crawford, Wallace Beery, Lionel Barrymore, Lewis Stone, Jean Hersholt
Duração: 112 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.