Crítica | Grandes Astros – Superman

O encadernado americano de Grandes Astros – Superman (All-Star Superman), colecionando todos os 12 números da série de Grant Morrison, Frank Quitely e Jamie Grant que homenageia o mais super-herói dos super-heróis, estava na minha lista de “para ler”, desde que recebeu críticas positivas universais ao longo dos três anos que levou para ser publicado pela primeira vez (de novembro de 2005 até outubro de 2008). Mesmo quando o adquiri, ele ficou algum tempo colhendo poeira em minha estante de quadrinhos, pois caí na besteira de ver o terrível desenho animado da DC Entertainment antes. Simplesmente não podia acreditar que tão aclamada revista pudesse gerar um desenho tão desconexo.

Mas aí soube que a Panini iria lançar, ainda em outubro, um encadernado de luxo colecionando toda a história e resolvi tirar a poeira do meu para ler e passar minhas impressões aqui no Plano Crítico para nossos fiéis leitores de quadrinhos.

No entanto, uma coisa deve ficar clara logo de início: apesar de eu ser um veterano leitor de quadrinhos, que acompanhou religiosamente as publicações de Superman, no Brasil, durante toda a década de 80 e metade da década de 90, nunca verdadeiramente gostei do herói. Seu problema maior, para mim, sempre foi e ainda é seus incríveis poderes que impedem – com raras e honrosas exceções – qualquer linha narrativa com um mínimo de credibilidade (claro, a credibilidade possível considerando-se o contexto). Nunca vi qualquer senso de ameaça ao super-poderoso sobrevivente de Krypton. Nunca entendi porque seu maior inimigo é um mero ser humano com intelecto avantajado. Sempre senti suas histórias presas por rédeas invisíveis, criadas por anos de continuidade confusa que só serviam a um propósito: aumentar seus poderes. No curto espaço de tempo em que Superman fica mais “humano”, suas histórias são débeis, frágeis ao ponto de serem quebradiças. Quando surge alguma ameaça que realmente poderia matá-lo, como Doomsday, o personagem é artificial, enfiado “goela abaixo” em uma linha narrativa ridícula, sem que por um segundo sequer sintamos verdadeiro perigo. E não é por saber que Superman não ficaria morto por mais do que alguns meses, mas sim por não ser crível que o herói, que, ao longo de seus exatos 80 anos de vida editorial enfrentou ameaças muito maiores, sucumbiria diante de socos e pontapés de um monstrengo qualquer.

Feita essa ressalva, considero-me um crítico e, como tal, alguém que, pelo menos em tese, deveria impedir que seus “achismos” pouco técnicos contaminem uma crítica. Mas, diferente de Superman, sou humano, e sempre achei que se um crítico não deixar vazar seus sentimentos para o que escreve, então ele deve procurar um psiquiatra, pois alguma coisa está muito errada.

E, com isso, vamos a Grandes Astros – Superman.

A publicação completa, com 302 páginas, é dividida em 12 capítulos, representativos dos 12 trabalhos de Superman, em uma óbvia alusão aos 12 trabalhos de Hércules, o semi-deus da mitologia grega. O paralelo entre Superman e um deus é algo muito presente em qualquer história um pouco mais bem escrita do herói e, portanto, longe de ser uma novidade. A diferença, aqui, é que Grant Morrison, por mais estranho que ele seja, sabe escrever. Não gosto de tudo que ele faz, mas é inegável que ele é, hoje, um dos mais “autores” dos escritores mainstream, e isso é, no meu livro, algo muito bom, que sempre agregará se ele não partir para devaneios metafísicos extremos, algo que ele quase faz aqui.

Em Grandes Astros – Superman, Morrison propões a seguinte pergunta: o que Superman faria se soubesse que seus dias estão contados? Para isso, ele cria uma situação em que Superman, em razão de uma armadilha de seu eterno arquiinimigo Lex Luthor, sobrecarrega suas células com energia solar amarela e elas começam a morrer. Diante de sua mortalidade, logo detectada pelo super-cientista Leo Quintum, Superman passa a fazer uma espécie de lista de tarefas que tem que completar antes de morrer, dentre elas contar sua identidade para Lois Lane, resolver a questão da cidade miniaturizada de Kandor e uma infinidade de outros problemas, muitos deles que vão acontecendo na medida em que ele tem que resolver outros.

Mas Grandes Astros – Superman é muito mais do que a soma de suas partes. Morrison encapsula a essência de Superman e a destrincha vagarosamente ao longo de centenas de páginas. É uma espécie de super-resumo para os 80 anos de vida do herói, em que os exageros de tudo que escreveram para ele ficam ainda mais exagerados. Afinal de contas, agora, por causa de seu passeio solar mortal, Superman está ainda mais poderoso, imune até à kryptonita e pode fazer o que quiser.

Morrison costura uma linha narrativa que é a morte de Superman e o prazer que Lex Luthor sente com isso, mesmo preso e no corredor da morte. Seu inimigo mortal quer livrar o mundo do heróis, pois, em sua cabeça, Superman impede que Luthor salve o mundo. A lógica distorcida é levada até os limites e mostra que Luthor poderia mesmo ser uma espécie de Superman, mas não atua como tal unicamente em vista de um ódio sem sentido por ter sido ofuscado por alguém vindo de fora do planeta Terra.

A cada capítulo, vemos um grande feito do herói e muitos deles funcionam bem, como o que ele revela sua identidade para Lois Lanes que, por sua vez, simplesmente não acredita. Afinal de contas, como é que Clark Kent poderia ser Superman? Como é que ela, a melhor repórter investigativa do mundo, não percebera isso? Essas perguntas são feitas e refeitas pelo eterno amor de Superman enquanto ele a leva para um passeio em sua fantasticamente absurda Fortaleza da Solidão e, ao final, dá de presente a ela uma poção (mágica?) que faz com que Lois viva 24 horas com superpoderes, com direito até a uniforme e à alcunha Superwoman. Assim, os dois podem partilhar das mesmas experiências por um curto espaço de tempo. É uma sequência belíssima, em que os dois enfrentam Sansão e Atlas, além de dinossauros evoluídos vindos do centro da Terra.

Em outra aventura, vemos Jimmy Olsen, retratado como um repórter queridinho fashion, visitando a base lunar do Dr. Quintum e, claro, se metendo em uma enrascada que acaba fazendo com que o ultrapoderoso Superman se vire para o mal, sob os efeitos da kryptonita negra. Olsen, destemido, não reluta em tomar ele próprio um soro que o transforma em ninguém menos do que o próprio Doomsday.

Morrison, com essas alfinetadas, brinca com a confusão editorial de Superman e com as diversas decisões equivocadas que se seguiram. O autor é inteligente demais e sabe fazer isso sem tornar óbvias suas críticas à própria editora que publicou sua história e que a republicou uma dezena de outras vezes mais. Talvez o maior exemplo do brilhantismo de Morrison em criticar sem criticar é quando Superman cria um universo (sim, isso mesmo) e, dentro dele, há a Terra Q que evolui como a nossa e chega até a década de 30 com “alguém” criando Superman para os quadrinhos. Duvido que os editores não tenham tido muita vontade de rasgar essa página do roteiro do autor…

Outro capítulo que merece nota é a invasão da Terra cúbica de Bizarro e o encontro de Superman com Zibarro, o único “bizarro” normal em um mundo em ruínas, com seres extremamente limitados. A narrativa é tocante, belíssima mesmo, ainda que, para isso, seja necessária muita paciência para ler balões de fala próximos do ininteligível.

Quando Superman volta para Smallville, ele tem que se deparar com o aparecimento de um esquadrão de Supermen de vários futuros diferentes, seus descendentes. A narrativa chega a ser um pouco confusa e exige atenção, mas a manipulação do passado, presente e futuro, mais do que em qualquer outro capítulo, representa um perfeito resumo do que é ser Superman, além de responder – sem responder – a pergunta: mas Superman morre mesmo ao final?

Como encapsulamento de tudo que Superman representa, Grandes Astros Superman é uma obra que merece comenda. No entanto, ainda que Morrison tenha tentando ao máximo fugir das rédeas da continuidade (trata-se de uma história que poderia se passar dentro de uma série Elseworlds, se essa rotulação fosse realmente necessária), ele não deixa de trazer muitos elementos que só seriam digeríveis por alguém que não conhecesse nada do herói com um pouco mais de explicação. Um desses momentos é a visita de Clark Kent a Luthor na prisão. Inadvertidamente, Kent passa próximo do vilão Parasita e este passa a absorver seus poderes até crescer absurdamente. É um momento estranho, diferente dos demais, que não só depõe contra a inteligência de Luthor (afinal, como ele pode não deduzir qual é a fonte de poder sendo absorvida pelo Parasita?), como exige um certo conhecimento do passado editorial do herói. Mas acaba sendo um momento que não atrapalha demais a compreensão do arco principal.

O desenho de Frank Quitely não é de fácil absorção. Seu Superman gigante com uma capinha vermelha é bem diferente do que estamos acostumados, assim como muitos dos personagens coadjuvantes, que são basicamente recriados para a história de Morrison. Quitely também não ousa na composição dos quadros o que, na verdade, é algo muito bem vindo, pois já não é fácil acompanhar a narrativa convoluta de Morrison e experimentações nos quadros apenas serviriam para tornar a revista ilegível.

No entanto, apesar da estranheza inicial que o desenho de Quitely causa, ele acompanha muito bem o texto épico – mitológico mesmo – que Morrison cria. Superman é grande por que ele é maior que a vida. Um verdadeiro deus entre os homens, mas um deus benevolente, de caráter ilibado e ações altruísticas mesmo diante de seu inevitável fim.

Mas o que realmente funciona na arte de Quitely é sua caracterização de Clark Kent. Ele tem o cuidado de alterar a postura do repórter, arqueando seus ombros e costas, relaxando a barriga e tornando-o mais estabanado ainda. Ele se transforma, no traço de Quitely, em alguém impossível de ser Superman. Afinal de contas, ninguém, nem mesmo os fãs cegos de Supermam podem aceitar que ninguém o reconheça em Kent só por causa dos óculos, não é mesmo?

No final das contas, porém, exatamente por encapsular tão bem e em relativamente poucas páginas a vida e os valores de Superman, Morrison deixa transparecer exatamente os pontos mais absurdos do herói, o que, para aqueles que não gostam dele por ser poderoso demais, vai acabar incomodando muito. Além disso, por tentar falar muito em muito pouco espaço, por várias vezes o texto é confuso e críptico, especialmente no último capítulo em que Superman tem que enfrentar seu arquiinimigo, ao mesmo tempo que um engolidor de sóis se aproxima da Terra, sem nenhuma explicação mínima que seja. O texto, em muitos pontos, acaba ficando hermético demais e arrogante demais para fazer com que essa seja realmente a obra máxima de Morrison como muitos preconizam.

Mas uma coisa deve ficar clara, apesar dos pesares: Grandes Astros Superman é uma obra que precisa ser lida pelos apreciadores de quadrinhos. Não é necessário gostar dela, mas apenas apreciar o que Morrison, Quitely e o colorista digital Jamie Grant tentaram fazer com o mais importante herói dos quadrinhos.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.