Crítica | Grandes Olhos

estrelas 4,5
Para que esses olhos tão grandes? São para te ver melhor, disse o lobo. Existe uma boa analogia em relação aos olhos da artista e aqueles que ela representa neste novo longa, Grandes Olhos, dirigido por Tim Burton. Aqui torna-se um tanto quanto irônico que a pintora dos olhos escancaradamente abertos tivesse uma voz tão tímida e retraída a ponto de perdê-la. Durante o casamento de dez anos Margaret Keane assinou peças que elevaram o nome do marido em seu lugar. Ele anula a voz dela. Ela se anula. Em determinado momento da fita a personagem interpretada por Amy Adams passa a retratar a si mesma com outros olhos, uns mais apertados, talvez representando o esforço dela em voltar a enxergar forçando, assim, o olhar.A personagem de Walter Keane, o marido que usurpou a identidade da esposa para se tornar reconhecido, buscava ser ouvido. Entretanto, como o talento dele se restringia a se fazer notar em vez de ter o que dizer, resolveu mimetizar uma voz que geraria conteúdo dissonante o suficiente para dar o que falar. Christoph Waltz é quem se entrega para exercer todas as contradições de personalidade deste homem visionário, que identificou espaços para a exploração da arte como item de consumo popular e convidou os olhos de toda parte do mundo a verem os gigantes que ele assinava como seus.

A assinatura de copy write antes do sobrenome é a primeira imagem que vemos durante a impressão de diversos Keane. Dizer que toda obra de arte comunica algo pessoal do artista é uma das pinceladas que a história toca na telona do cinema. A comercialização do que há de mais íntimo é outra. A exploração da vida pessoal e o zumbido gerado pela mídia mais uma. E a relação entre pessoas e arte, que chega a beirar o absurdo, marca os direitos autorais da trama.

Adams acerta na dose de vulnerabilidade e convence com os trejeitos sutis da artista e o manuseio íntimo de pincéis. Captando a personalidade de Margaret, em silêncio a personagem de Adams toma as atitudes de maior força e cheias de medo. Todas as grandes atitudes dela (que fugiam das imposições) foram discretas. Já a retratação de Walter Keane feita por Waltz se destaca ao extrapolar e adquirir uma persona extravagante e carismática ao mesmo tempo em que entrega ações lunáticas e possessivas. Ambos os personagens apresentam dualidades que os tornam imensamente interessantes e são capazes de humanizar situações inacreditáveis, mas bem normalizadas pelo contexto histórico de uma sociedade machista. As escolhas e atos de Margaret estão impregnados disso.

A sociedade pode muito bem ter sido o grande júri ao longo desta história e pode também ter contribuído para calar a boca dela. Isso ocorreu como parte da vida destas pessoas retratadas na fita, mas agora se expande para alcançar o status de arte cinematográfica, capaz de suportar todo tipo de mais uma grande soma de interpretações e reconfigurações. As cenas com efeitos especiais são marcantes, pois os olhos pintados largamente ganham vida nos rostos das pessoas que a personagem vê pelas ruas e em si mesma. A narrativa flui através dos anos e a edição agiliza esse trajeto que perpassa São Francisco e Honolulu.

Na história que inspirou o filme, Walter e Margaret foram convidados a fazer uma performance na frente de toda a imprensa com duas telas em branco para deixar claro quem era o autor das obras. Ele nunca apareceu e a verdade foi constatada também nos tribunais quando ele se recusou a pintar por uma dor no ombro. Antes de resolver contar a verdade, Margaret teve de lidar com a crescente demanda de Walter, que chegou a cobrar 100 quadros antes de assinar o divórcio e concordou em pagar apenas U$100 por cada um. Havia pressão psicológica e até certo nível de tortura emocional da parte do homem que ela temia e obedecia.

É 1950. A distanciação temporal exerce um efeito positivo para o espectador notar a força do contexto que impunha a subserviência feminina. Mas o espectador não escapa de se contorcer na poltrona do cinema ao ver uma situação sufocante, classificada como submissa (quando isso ainda era uma exigência). Essa contextualização também funciona para dissociar Margaret de uma figura digna de pena ou simplesmente burra. Porque uns podem dizer que ela se escravizou a situação (e também literalmente, sedo forçada a produzir diversos quadros de forma anônima), outros podem contestar que ela se acomodou. Mas o que importa é que isso tudo compõe uma das maiores histórias de fraude no meio artístico e tudo toma um ar fantástico e inacreditável.

A atuação de Amy Adams como Margaret lhe rendeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz. Em discurso, Adams comentou algo direcionado ao comportamento humano e agradeceu ao marido por não ser o tipo de pessoa que abafaria a voz dela em nenhuma circunstância e fez ainda menção à filha. Sempre parece ser algo muito importante discutir personalidades femininas que são conflitantes e se chocam entre a inocência e a força, mas às vezes parece que foi algo que simplesmente surgiu quando de fato essa força já estava arraigada na figura feminina.

O que ocorre é que certas pessoas, ao olhar para estas mulheres, muitas vezes não viam o todo e captavam só a superfície condizente com o que estava agendado nos costumes de determinadas épocas. Por isso, ainda é relevante ter histórias como esta e como várias outras realidades aumentadas nas telas do cinema. E não importa se são relatos baseados na realidade ou na ficção. Afinal, a ficção faz parte do imaginário e parte de quem somos realmente.

Os roteiristas Scott Alexander e Larry Karaszewski estiveram envolvidos no projeto deste filme por 11 anos e ao lado de Tim Burton na direção conseguiram extrair uma verdadeira obra de arte cheia de movimentos, ora delicados e ora enérgicos, sem nunca se esquecer da fantasia que permeia a esperança de Margaret, as cores vívidas, assim como a beleza que é exaltada ali. E cabe ao espectador aplaudir a descoberta da verdadeira artista, a única artista. A artista dos grandes olhos, vista pelos olhos de Tim Burton e tantos outros pares.

Grandes Olhos (Big Eyes, EUA, Canadá – 2014)
Diretor: Tim Burton
Roteiro: Scott Alexander, Larry Karaszewski
Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Huston, Terence Stamp, Jon Polito, Elisabetta Fantone, Dalaney Raye, Madeleine Arthur
Duração: 106 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.