Crítica | Grandma (2015)

grandma festival do rio plano critico

estrelas 4,5

Simples, curto, direto e com atuações sensacionais. Grandma é assim. Pega o espectador de assalto por breves 79 minutos e o faz sair da projeção com um sorriso no rosto e com a certeza de ter visto uma pequena pérola cinematográfica.

Lily Tomlin vive talvez o papel que toda sua carreira a preparou para viver. Mas não espere nada diferente daquilo que marcou a carreira da atriz (basta ver seu papel em Grace and Frankie) ou mesmo algo particularmente profundo. Seu trabalho é, “apenas”, envolvente, marcante e enternecedor, graças também a um roteiro sensível e sem firulas de Paul Weitz, que faz seu melhor trabalho até agora também. Tomlin vive Elle, a avó do título – lésbica, sem dinheiro e ranzinza ao extremo, que perdeu a esposa há um ano e meio e que acabou de acabar um relacionamento com uma mulher bem mais jovem – que, procurada por sua neta Sage (Julia Garner), parte para ajudá-la a conseguir 630 dólares para um aborto.

Apesar de o estopim da história ser uma questão que, por si só, gera controvérsias e Weitz não se furta de abordá-las, ainda que esse não seja seu foco, ela não passa de uma desculpa para que Elle refaça o caminho que a levou ao ponto onde se encontra, reencontrando-se com seu passado há muito esquecido de maneira que ela tenha oportunidade de se redimir de alguns erros e olhar para si própria na figura da jovem neta. Passado apenas ao longo de algumas horas, Grandma é quase um road movie circunscrito a uma cidade, com Elle e Sage batendo de porta em porta de antigos conhecidos para reunir o dinheiro. A cada nova porta, um pouquinho do passado de Elle vai aparecendo, seja seu longo casamento com Violet, seja sua vida amorosa atual, seja momentos ainda mais obscuros e esquecidos de seu passado longínquo. E o melhor é que o texto de Weitz não exagera no drama e encara as diversas questões que são levantadas com leveza e muito humor que fica ao encargo exclusivamente de Tomlin, muito à vontade em seu “papel resumo de carreira”. Ficaria surpreso se ao menos uma indicação ao Oscar não estivesse em seu horizonte.

Mas Tomlin, apesar de dominar a tela (é, por incrível que pareça, seu primeiro papel como protagonista em 27 anos), não é responsável pela única ótima atuação de Grandma. Com exceção daqueles personagens que tem meros segundos de presença na história, como o namorado de Sage, todos os demais parecem ter sido escolhidos magicamente para se encaixar na história. A própria Julia Garner, apesar de sua constante aparição apenas como sidekick de Tomlin, encarna com perfeição seu papel de jovem inteligente, decidida, mas que precisa desesperadamente de ajuda. Seu arco de crescimento é curto, mas eficiente e circular, com seu medo de revelar a gravidez à mãe sendo resolvido de maneira lógica e humana. Marcia Gay Harden como Judy, filha de Tomlin e mãe de Sage é a mulher de negócios por excelência e, mesmo sendo introduzida apenas nos minutos finais de projeção, tem sua presença/ausência sentida desde o começo por menções aqui e ali ao ponto de, quando somos apresentados a ela, sabemos exatamente o que esperar em um esperto “truque” do roteiro.

Entre uma ponta e outra, há, ainda, Laverne Cox (a transexual que despontou em Orange is the New Black) como uma tatuadora e amiga de longa data de Elle, Judy Greer como a recente ex-namorada de Elle e, por último, mas com certeza não menos importante, o veterano Sam Elliott. Aliás, o momento de interação entre Tomlin e Elliott é o único em que a atriz encontra seu par em termos de atuação. Não que Cox e Greer não estejam ótimas, mas Elliott traz ao seu personagem Karl uma gravidade, seriedade e experiência que geram faíscas com Tomlin a seu lado. É realmente algo bonito de se ver.

Confesso que ao mesmo tempo que considerei 79 minutos a duração perfeita para a simples, mas muito eficiente história de redenção e auto-descoberta, queria ter passado mais alguns minutos na companhia desse elenco, um sentimento que com certeza só atesta para a qualidade dessa diminuta obra que possivelmente, para nosso infortúnio, passará despercebida se um dia chegar a circuito no Brasil.

Grandma (Idem, EUA – 2015)
Direção: Paul Weitz
Roteiro: Paul Weitz
Elenco: Lily Tomlin, Julia Garner, Marcia Gay Harden, Judy Greer, Laverne Cox, Elizabeth Penã, Nat Wolff, Sam Elliott
Duração: 79 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.