Crítica | Gravidade

estrelas 5

Saí do cinema com uma sensação cada vez mais rara de se ter com a Sétima Arte. Sabem aquela sensação gostosa de ter visto algo diferente, com um fator “uau” gigantesco, daquelas que nos fazem ter vontade de ver tudo novamente, por mais que saibamos que essa sensação não se repetirá em sua plenitude? Sabem também quando nós mergulhamos de tal maneira no filme que, quando os créditos começam a rolar, nós meio que vagarosamente despertamos de um sonho – ou pesadelo, depende da película – e demoramos uns cinco, dez minutos para entendermos o que está acontecendo ao nosso redor?

Isso tudo e mais talvez apenas comece a descrever o que é a experiência de se assistir Gravidade.

Alfonso Cuarón volta para a “ficção científica” (as aspas serão explicadas, fiquem tranquilos) depois do sensacional Filhos da Esperança, de 2006. E Gravidade também marca sua volta à direção de longas-metragens. E que retorno, meus caros leitores. E que retorno.

Em 90 minutos que passam como se fossem 15, o diretor apresenta o melhor filme de ação dos últimos anos, a melhor “ficção científica” dos últimos anos e o melhor uso de efeitos especiais dos últimos anos. E não é exagero.

Como fita de ação, o filme é a soma de longos planos-sequência extremamente tensos, quase sem diálogo e sem nenhum som que não sejam os sons diegéticos e uma trilha sonora parcimoniosa, mas potente de Steven Price, que se mistura às imagens primorosamente, começando com a ensurdecedora abertura feita unicamente para valorizar o silêncio que se segue. Cuáron, que também escreveu o roteiro junto com seu filho Jonás e trabalhou na perfeita montagem com Mark Sanger, criou uma história simples, básica mesmo, mas visceral de sobrevivência contada por meio de longas tomadas sem corte de um brilhantismo técnico que há muito não se vê e que mimetizam ao mesmo tempo que engolem os planos-sequência do próprio Cuarón em Filhos da Esperança. Os trailers do filme – ambos com duas dessas sequências sem corte – não dão sequer a dimensão do que o diretor constrói perante nossos olhos. A impressão que dá é que Cuarón queria fazer todos os 90 minutos em um só plano-sequência, mas as necessidades do roteiro o impediram.

Quando a Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) está consertando o telescópio Hubble em órbita da Terra, seu ônibus espacial é atingido por destroços de satélites e ela, juntamente com o experiente astronauta Matt Kowalksi (George Clooney) têm que tentar voltar à Terra. A história é simples, linear, mas, nos minutos iniciais do filme, em um balé espacial realístico comparável ao balé de naves de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, as personalidades de cada um são estabelecidas, com a ajuda de diálogos espertamente escritos que nada mais são do que aparentes conversas de rotina com a base em Houston, perfeitamente representada pela voz de Ed Harris, que jamais aparece. E eu digo perfeitamente, pois não só ele é convincente em seu trabalho incorpóreo como o espectador consegue fazer a correlação imediata com outra obra de desastre espacial em que Harris fez o mesmo papel: Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo. Mas, diferente do ótimo filme de Ron Howard, Cuarón mantém todo o foco já no espaço e não perde nem um segundo em estabelecer a trama e colocar o motor em movimento.

Como “ficção científica”, o diretor nos presenteia com um épico do chamado hard science, ou seja, um trabalho fortemente galgado na realidade, que em determinados momentos funciona quase como um documentário. Há a “mochila voadora” de Kowalksi, o ônibus espacial, o telescópio Hubble, a Estação Espacial Internacional e uma estação espacial chinesa que, se ainda não existe, há planos concretos de ser lançada em futuro bem próximo. Os diálogos são todos funcionais e desvelam procedimentos que podem muito bem ser a exata réplica do que aconteceria em uma situação dessas. São expositivos até certo ponto, mas orgânicos a todo o momento. Os efeitos da gravidade sobre os corpos e objetos impressionam qualquer um e chegam a ser parte essencial da narrativa. Se em 2001 tínhamos os sapatos de velcro para impedir que a aeromoça flutuasse na nave da PanAm, em Gravidade vemos os detalhes das roupas espaciais e como os líquidos – e o fogo também! – se comportam no vácuo sem gravidade. E o que vemos diante de nossos olhos é tão impressionante que até Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, em entrevista à The Hollywood Reporter, deu sua chancela à película, deixando claro que o que vemos é mesmo o que acontece. E exatamente por ser a reprodução da realidade hoje existente que Gravidade não é um exemplar do gênero ficção científica e sim um thriller que se passa no espaço. No entanto, considerando que o ano de 2013 foi cheio de promessas sci-fi que não se cumpriram e que Gravidade tem vários outros elementos caracterizadores dessa categoria, classificar a obra de Cuarón como tal não é completamente fora desse mundo (com trocadilho!).

E, para realizar tudo isso, claro, há uma forte dependência da fita de efeitos especiais em computação gráfica. Mas essa dependência, aqui, é extremamente positiva, pois são esses efeitos que permitem a câmera de Cuarón passear por onde passeia sem cortes, a apresentar ângulos inusitados e a observarmos um visual arrebatador. Nada parece fora do lugar. Nada parece falso, exagerado ou menos do que seria se Cuarón tivesse filmado Gravidade em locação. É o uso maciço do CGI da maneira como todo diretor deveria usar: para contar a história que deseja organicamente. Desde espetaculares cenas de destruição até pequenos detalhes como as lágrimas de Ryan flutuando para fora de seus olhos, a câmera passeando por dentro e por fora do capacete da astronauta e o gelo se formando na escotilha da cápsula, os efeitos especiais mesmerizam e cativam, criando um universo crível, lógico e coeso.

E os efeitos também foram utilizados na renderização 3D, já que 70% da estereoscopia foi gerada no computador. Sou um grande crítico do que Hollywood fez com o 3D, banalizando-o, transformando-o em nada mais do que um artifício para arrancar mais dinheiro dos espectadores. Para o leitor ter uma ideia, só considero que essa tecnologia é realmente importante em quatro filmes: Avatar, pela novidade e pelo mundo que James Cameron criou; A Caverna dos Sonhos Esquecidos, pela funcionalidade do 3D para mostrar aspectos dos desenhos nas cavernas; Pina, por nos envolver completamente na narrativa e em A Invenção de Hugo Cabret, por acrescentar tremendamente à narrativa. Gravidade acaba de entrar nesse rol e talvez em primeiro lugar, pois Cuarón é bem sucedido em ao mesmo tempo alcançar o senso de estupefação de Avatar, a imersão de Pina, além de funcionar com um eficiente elemento narrativo como em Hugo Cabret.

Nas cenas externas, no espaço aberto, o 3D permite uma profundidade de campo às vezes linda, realçando a paisagem natural que é a Terra e às vezes aterrorizante, ao nos fazer ficar atentos e próximos a várias camadas do filme: os astronautas em primeiro plano, outros mais no fundo e, ainda, o ônibus espacial, todos sob ataque dos destroços de satélites. Nas cenas internas, dentro de cápsulas de escape e de estações espaciais, o 3D realça a claustrofobia desses lugares, fazendo-nos acompanhar de perto o espaço confinado e sofrer juntamente com os atores.

E isso tudo graças ao excelente trabalho do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, parceiro de Cuarón em Filhos da Esperança e de Malick em A Árvore da Vida. Sabendo usar planos extremamente abertos que facilmente passam a planos mais fechados, chegando ao extremo close-up, Lubezki e Cuarón trazem à tona a beleza e o perigo do espaço e os conflitos internos da Dra. Ryan Stone.

Sandra Bullock, que durante a metade do filme só aparece com o rosto e, mesmo assim, dentro de um enorme capacete de astronauta, dá um show de atuação, em um papel muito mais natural e convincente do que o que a fez ganhar o Oscar em 2010, por Um Sonho Possível. Ela consegue uma amplitude enorme, mesmo limitada ao meio em que está, passando de cientista certinha para astronauta à deriva, a mãe torturada e à heroína de filme de ação sem deixar de ser perfeitamente crível por um segundo sequer. George Clooney faz o que tem que fazer de maneira eficiente, mas a natureza de seu papel é muito diferente do de Bullock, pelo que sua participação é mais alegórica e autoconsciente, novamente graças ao roteiro esperto que sabe brincar com o próprio ator.

Mas não esperem uma história intrincada, como já mencionado acima. Cuarón e seu filho escreveram uma aventura básica, em que os heróis têm que sair do ponto A e ir ao ponto B e assim por diante, com uma leve camada de drama pessoal para nos identificarmos com os personagens. Os inimigos são os destroços espaciais e o espaço em si, não seres humanos vilanescos ou monstros espaciais. E temos que aceitar, de certa forma, determinadas “sortes” que os personagens têm ao longo da trama, mas nada que não faça parte da necessária suspensão da descrença que, ainda que Cuarón nos exija um pouquinho mais dela do que o usual, ele compensa largamente ao literalmente nos catapultar para dentro da ação ao ponto de nos deixar sem ar juntamente com a Dra. Ryan e nos permitir alívio na desde já clássica nova versão do “ventre espacial” de 2001.

É difícil concluir uma crítica sobre um filme que o chacoalha profundamente em todos os níveis. Gravidade é uma obra-prima de ação que eleva o uso da computação gráfica a um ou dois níveis acima do que vemos por aí. Se o preço que tivermos que pagar para que Cuarón produza mais uma obra desse gabarito é outro intervalo de sete anos, que assim seja.

Gravidade (Gravity) – EUA, 2013 Direção: Alfonso Cuarón Roteiro: Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Orto Ignatiussen, Paul Sharma, Amy Warren, Basher Savage Duração: 90 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.