Crítica | Grease 2: Os Tempos da Brilhantina Voltaram

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estrelas 1

*Crítica publicada sob veementes protestos de Ritter Fan.

Grease: Nos Tempos da Brilhantina é incrível. Adaptado de um musical premiado e construído sobre um roteiro simples o resultado não poderia ter sido melhor: uma narrativa divertida, espirituosa e jovial, mesclada com interpretações energéticas, personagens carismáticos e algumas das sequências musicais mais incríveis e memoráveis do cinema, sem nenhuma canção fora de tom. Mas como tudo que é bom pode ser estragado, aproveitando-se do estrondoso sucesso comercial do filme de 1978, foram abertas, para o pesar de todos, as portas para uma sequência.

A velha turma que conhecemos já se formou. Dois anos se passaram e as Pink Ladies agora são lideradas por Stephanie Zinone (Michelle Pfeiffer), enquanto os T-Birds são liderados por Johnny Nogerelli (Adrian Zmed). Os dois líderes tiveram um relacionamento conturbado e agora estão separados. Vindo da Inglaterra, surge Michael Carrington (Maxwell Caulfield), o primo de Sandy Olsson, a protagonista do primeiro filme. Michael então almeja ter sua própria motocicleta (já começou errado, não é?) e entrar para os T-Birds, para que enfim consiga ter alguma chance com Stephanie, a garota que foi educada com ele uma vez

O trabalho da diretora Patricia Birch não é de total desprezo. Ela conseguiu trazer as ótimas coreografias de volta, visto que ela tinha trabalhado como coreógrafa no filme anterior e já possuía na época uma carreira de respeito na Broadway. Mas de resto temos uma direção pouco inspirada que busca copiar o estilo da anterior, mas falha em proporções estratosféricas. Por outro lado, o roteiro de autoria de Ken Flickeman não tem salvação alguma e a situação já pode ser diagnosticada pelas futuras “obras-primas” que ele viria a escrever: a sequência (parece que ele tem uma atração por continuações desnecessárias) de Apertem os Cintos… O Piloto Sumiu e Quem é Essa Garota?, filme estrelado pela “magnífica” “atriz” Madonna.

Se a retratação feminina no primeiro filme era pouco revolucionária, podendo ter sido mais bem explorada, Flickeman consegue nesse seu trabalho levar a figura da mulher a um nível porco de rebaixamento, ou o que quer que seja que ele estava pensando enquanto escrevia essa estapafúrdia desgraça. Agora as Pink Ladies só podem ficar com os T-Birds, como bem explica Frenchy (Didi Conn) para o personagem de Maxwell Caulfield, de modo totalmente didático e expositivo. E para piorar, os T-Birds nem ao menos são um grupo legal e carismático como o anterior (cadê você John Travolta?). Não há ao menos uma explicação razoável para as garotas sentirem uma atração maior por garotos com jaquetas de couro. Eles são estúpidos, infantis ao extremo, arrogantes e muito ofensivos. Aliás, essa obra é uma ofensa gigantesca.

Felizmente, Stephanie transmite algumas características fortes que não deixa o filme tornar-se uma obra totalmente risível no tratamento ás suas figuras femininas. A cena do primeiro beijo que ocorre entre ela e Michael ocorre em circunstâncias bem desenvolvidas. Mas a situação não consegue sobressair-se por estar envolta em uma camada espessa e bastante rígida de estupidez narrativa. No final tudo o que ela quer mesmo é um motoqueiro bacana, o que a torna uma personagem totalmente superficial e sem graça.

O elenco sepulta de vez o vergonhoso roteiro de Ken Flickeman. Durante todos os “torturosos” 114 minutos, Michelle Pfeiffer não consegue transmitir simpatia do público para com a sua personagem. Ela não está ruim, mas sua interpretação é totalmente esquecível. Todos os atores que compõe os T-Birds são horríveis. Nem Maxwell Caulfield, nem Adrian Zmed têm o mesmo carisma de John Travolta. É tudo tenebroso, grotesco, mal escalado. Os responsáveis pelo filme escalaram Didi Conn para reprisar como Frenchy só para remeter ao original. Ela serve como recurso narrativo para explicar à Michael como funciona aquele lugar e só. Talvez os personagens adultos se salvem. Eu não sei. É tudo muito confuso, mas eles estão mais engraçados e se tem mais alguma coisa boa no filme são eles.  Deve ser.

Sabe aquelas músicas que grudam na cabeça, vão, voltam, ficam, passam e depois voltam e após algumas horas tornam-se um tumor? Essa é a trilha sonora de Grease 2. É difícil não comparar com o clássico original. Enquanto o primeiro inicia-se com uma sequência animada espetacular ao som de Grease is the Word, essa besteira começa com uma música genérica e brega (para não falar ridícula, mesmo que seja ridícula) sobre voltas ás aulas.

Enquanto as músicas dos primeiro filme eram todas usadas como recurso narrativo para contar a história ou exprimirem um ponto de vista pessoal, aqui elas são relegadas a serem apenas músicas que por algum motivo que ninguém sabe as pessoas estão cantando. Por exemplo, a segunda canção exibida é sobre boliche (eu acho que tinha alguma conotação sexual por detrás dessa obra musical, mas nada é muito claro). Até aí tudo bem. Mas nem sequer a canção é legal. São refrões repetidos. E refrões chatos. Muito chatos. Apenas Cool Rider tem alguma qualidade, mas a lírica é problemática e casa com o tratamento vazio que o roteirista dá as suas personagens. Particularmente eu gosto de Reproduction, mas de forma geral é uma canção muito vulgar e obscena para com o local que é cantada. Quase doentia. É uma música que deixa a sensação de que alguma coisa esta errada. E está. Tudo.

Até o subtítulo nacional desse filme conseguiu se superar. Ele é horrível.

Resumo da ópera. Grease 2: Os Tempos da Brilhantina Voltaram é uma bobagem que não deveria ter sido feita. Com um roteiro machista, uma narrativa lenta e clichê, músicas enfadonhas e um elenco pouco inspirado temos aqui um desserviço ao filme original. Com boas coreografias, algumas decisões acertadas (porém em suma desperdiçadas), além de uma ou duas canções aceitáveis, essa pode não ser a maior atrocidade cinematográfica já feita. Mas se puder vista sua jaqueta de couro, penteie seu topete, suba na sua moto e vá para o mais longe possível desse filme. Quem sabe voltar para os tempos da brilhantina de verdade?

Grease 2: Os Tempos da Brilhantina Voltaram (Grease 2) — EUA, 1982
Direção:
 Patricia Birch
Roteiro: Ken Flickeman
Elenco: Maxwell Caulfield, Michelle Pfeiffer, Adrian Zmed, Didi Conn, Lorna Luft, Eve Arden, Sid Ceaser, Tab Hunter
Duração: 114 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?