Crítica | Grease: Nos Tempos da Brilhantina

estrelas 5,0

A Era de Ouro dos Musicais não durou para sempre e mesmo marcada por clássicos grandiosos como O Mágico de OzCantando na Chuva e A Noviça Rebelde, começara a ver seu fim no final da década de 60 com o surgimento do movimento cinematográfico da Nova Hollywood. Influenciado pelo cinema europeu, esse movimento veio para quebrar com os padrões do cinema americano feito à “moda antiga” e se adequar ao público da época, que buscava um cinema mais sério com mensagens mais relevantes a serem passadas. Com Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas e A Primeira Noite de um Homem, ambos de 1967, o cinema duro, realista e sem o propósito de se passar mensagens moralistas tornava-se realidade.

Mesmo que os filmes de Elvis Presley e dos Beatles estivessem conseguindo atingir seus respectivos nichos, os musicais em si estavam fadados ao esquecimento, ao menos que fossem revigorados. Cabaret, de 1972, já se adequava perfeitamente ao novo jeito de se fazer cinema. Era um filme mais robusto, mais pesado, que permitia-se ser distanciado perfeitamente da aura e outrora. E sendo assim, na Broadway, o teatro musical também via o surgimento de peças mais agressivas, entre elas Grease, de 1971, que viria a ganhar uma versão cinematográfica em 1978 – e que, 39 anos depois, viria a se tornar o objeto de análise nesse texto.

A trama de Grease: Nos Tempos da Brilhantina gira em torno de Sandy Olsson (Olivia Newton-John) e Danny Zuko (John Travolta), um casal de adolescentes que se apaixonam no verão, mas acabam por ter que se despedir, pois Sandy irá voltar para a Austrália. Mudança de planos, Sandy acaba permanecendo e o acaso a faz ser matriculada na mesma escola que Danny. Com o encontro entre os dois, as diferenças surgem e delas, um conflito de personalidades distintas de um casal apaixonado. Debaixo de um pretexto mais familiar, há alguns retratos da adolescência na Califórnia do final dos anos 50: drogas, sexo, gravidez indesejada, confronto de gangues rivais, entre outros. No entanto, perceptivelmente, todos são bastante suavizados comparados com o musical de 71.

O roteiro de Bronte Woodard e Allan Carr não se esforça em entregar uma história mais complexa, mas é preciso ressaltar que o roteiro, de fato, não se propõe a fazer isso. Enquanto Sandy é forçada a passar por diversas mudanças gigantes para ficar finalmente com Danny, o personagem de John Travolta sofre algumas poucas pequenas crises de consciência, que nunca se transformam em algo concreto. Não há uma real devoção do roteiro em ser imparcial e neutro sobre o modo “correto” de se comportar. Pode-se dizer que na verdade o roteiro faz um estudo sobre os comportamentos masculinos e femininos na época, e que dificilmente um garoto mudaria o seu jeito de agir para ficar com a mocinha. Tudo, porém, fica na dimensão das suposições.

Esse foi o primeiro trabalho em uma longa metragem do diretor Randal Kleiser, que depois nunca mais conseguiria emplacar um grande sucesso como este. O cineasta molda as cenas de maneira a torná-las bastante divertidas, imprimindo uma estética jovial ao filme. A corrida de carros entre os T-Birds e os Scorpions é uma das mais despretensiosamente lúdicas da história do cinema. Além disso, as cores são vibrantes e dá ainda mais vida ao longa graças ao ótimo trabalho do figurinista Albert Wolsky. A obra ainda possui uma veia cômica muito apurada durante alguns momentos impagáveis como a sequência de cenas nas quais Danny tenta encontrar-se em algum esporte. De uma trama morna provinda de um roteiro simplíssimo surge uma narrativa interessante, engraçada e energética.

O elenco dos estudantes é todo formado por atores muito mais velhos do que o papel pede. Por exemplo, Michael Tucci, interpretando um dos T-Birds, Sonny Lattiery, está horrível. Ele interpreta o membro mais infantil do grupo, contudo, o ator já tinha 31 anos na gravação desse filme. Foi um casting tenebroso, fruto de seu próprio tempo. Felizmente o ator, assim como outros coadjuvantes, aparecem muito pouco e não dão chances para os seus personagens ameaçarem estragar o filme. Embora desconfortante de início, tudo é amenizado pela forma orgânica que algumas das outras interpretações se desenvolvem, especialmente das dos personagens mais relevantes para a trama geral.

A rebelde Betty Rizzo, interpretada por Stockard Channing é a figura com mais camadas do filme, que começa como uma garota incrédula, pessimista e irresponsável. Contudo, com o tempo e a ocorrência de alguns eventos pontuais, ela vai amadurecendo o seu pensamento e o seu jeito particular de olhar a vida. O ótimo trabalho de figurinos atinge um ápice na transposição das cores apáticas das vestes no primeiro ato do filme para um roxo mais alegre, no final do segundo. Ademais, o próprio namorado de Rizzo, Kenickie Murdock (Jeff Conaway), contribui com a movimentação do arco da personagem, mas em uma análise mais aprofundada, o ator está apenas decente como melhor amigo de John Travolta. Seria interessante ver um estudo mais alongado da amizade do personagem com Danny.

Por falar em Danny, esse é o maior papel da carreira de John Travolta, junto com Pulp Fiction, de 1994. Por já ter tido participado do musical homônimo, o ator já veio preparado para dançar e cantar. Ele está excelente em todos os trejeitos e poses características que o personagem pede, transmitindo-os de forma bastante natural. É muito interessante comparar a maneira como Danny comporta-se com seus amigos e a maneira como ele comporta-se com Sandy. Enquanto está com os T-Birds, ele tenta se provar como o maioral, chegando a uma arrogância ácida. Mas quando está contracenando apenas com Olivia Newton-John, ele torna-se mais leve, um tanto bobo. Olivia é outra que está impecável, sendo que o conjunto dela com Travolta, dupla em projetos posteriores, invoca uma química poderosíssima que infelizmente nunca viria a ser explorada com decência noutros longas futuros.

Como abordado no início do texto, essa não é apenas uma comédia romântica sobre as desventuras da vida adolescente. É um musical. As músicas têm que ser o coração da obra. E que coração! O filme começa com uma abertura embalada pela excelente Grease is the Word, que dá nome à frase estampada nos pôsteres da época. Temos também a canção Look at Me I’m Sandra Dee, interpretada por Stockard Channing, que acaba por ser “um tapa na cara” da Velha Hollywood. Channing ainda canta a belíssima There Are Worse Things I Could Do, que transmite um senso de melancolia muito forte. Hopelessly Devoted to You, no entanto, é a música mais impactante e emocionante do filme e, curiosamente, a última a ser gravada, rendendo o único Oscar de Nos Tempos da Brilhantina.

O eterno Danny, John Travolta, performa duas músicas assombrosamente boas: Sandy e Greased Lightining, esta última remetendo ao rock n’ roll da década de 50. Outra canção notável é Beauty School Drop Out que fala da frustração profissional de forma delicada enquanto nos envolve com uma performance belíssima de Frankie Avalon. E finalmente a incrível We Go Together encerra com chave de ouro o filme em uma das maiores exaltações de alegria já vistas no cinema, comparável com a canção homônima ao clássico Cantando na Chuva.

O musical ainda contém as mais conhecidas e hoje clássicas Summer Nights e You Are The One That I Want; ambas magníficas. Enquanto a primeira trabalha uma diferenciação da visão masculina e feminina sobre o romantismo na década de 50, é na segunda que vemos pela primeira vez Danny e Sandy em perfeita sintonia. Grease é perfeito – musicalmente. Todavia, como filme romântico voltado para adolescentes, o filme continua sendo muito bom. Mas essa obra não é acima de tudo um musical? Levando isso em conta, Grease é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores musicais de todos os tempos, moldado por protagonistas carismáticos, uma trilha sonora irretocável, uma narrativa ágil e uma alma única.

Grease: Nos Tempos da Brilhantina (Grease) — EUA, 1978
Direção:
 Randal Kleiser
Roteiro: Allan Carr, Bronte Woodard
Elenco: John Travolta,  Olivia Newton-John,  Stockard Channing, Jeff Conaway, Barry Pearl, Michael Tucci,  Kelly Ward, Didi Conn, Frankie Avalon
Duração: 110 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.