Crítica | Green Blood – Vol. 1 (mangá)

estrelas 4

Masasumi Kakizaki era para mim, até bem pouco tempo, um ilustre desconhecido. Hideout foi meu primeiro contato com ele e esse mangá de horror me impressionou muito positivamente. Atmosfera, cadência, roteiro e arte próximos da perfeição. Assim, foi sem qualquer sombra de hesitação que peguei Green Blood para ler, obra do mesmo autor, dessa vez em cinco volumes, que começou a ser publicada no Japão em 2011, na Young Magazine.

green blood coverO primeiro volume, objeto da presente crítica, foi publicado, no Brasil, em dezembro de 2014 e, como de praxe, contém as quatro páginas iniciais coloridas em papel de gramatura mais alta e as duas seguintes em preto e branco, na mesma gramatura. Depois, o papel perde em qualidade, mas a história começa de verdade, ao sermos apresentados ao Grim Reaper, ou Ceifador, pistoleiro e assassino de aluguel da gangue Grave Diggers (Coveiros) que utiliza seus serviços para limpar a cidade de Nova York, em 1865, de alvos específicos na violenta e favelizada região conhecida como Five Points (retratada em detalhes em Gangues de Nova York, de Martin Scorsese). O aparente segredo sobre a identidade do pistoleiro é só aparente mesmo, pois logo aprendemos (não é spoiler) que ele é Brad Burns, irmão mais velho de Luke Burns, imigrantes irlandeses sem pais que vivem juntos em péssimas condições.

O interessante é que, enquanto Luke é retratado de forma simplista e unidimensional – sempre um honesto rapaz, que acha que conseguirá fazer sua vida honestamente, trabalhando como estivador e recusando-se a juntar-se a gangues – seu irmão, Brad, é quase que uma versão de faroeste de Batman, se Bruce Wayne não tivesse dinheiro. Kakizaki retrata o jovem como um completo vagabundo durante o dia, que finge que procura emprego, mas que não faz muito mais do que dormir, somente para, de noite e sem o irmão caçula saber, vestir-se de pistoleiro para cumprir seus contratos mortais vindos de Gene McDowell, o chefe dos Grave Diggers e a pessoa que o acolheu e ajudou quando ainda muito jovem. E Grim Reaper/Brad ainda tem um propósito, relacionado com seu passado, que ele vai deixando entrever ao longo da narrativa sem revelar detalhes ao menos ao longo desse primeiro volume.

Kakizaki não economiza na violência gráfica e em painéis que tentam – e conseguem – emular o espírito dos grandes faroestes, com tomadas em plano aberto, em extremo widescreen, para maior efeito dramático. E, mesclando mitologias, Kakizaki ainda usa uma arma de fogo para o Grim Reaper que une uma pistola com uma lâmina estilo baioneta, emulando a imagem clássica da Morte e sua foice (que, em inglês, se chama justamente Grim Reaper). Essas jogadas visuais de Kakizaki, que ainda abusa de ângulos cinematográficos, torna sua obra extremamente fotogênica e eletrizante.

green blood 2

Não é, porém, algo tão engajante quanto Hideout. Mas há uma explicação óbvia para isso. Hideout é um volume só fechado, com ação frenética do começo ao fim. Cada volume de Green Blood, por sua vez, equivale a um Hideout inteiro, o que exige mais complexidade dramática e, também, revelações a conta-gotas. Assim, a comparação direta não faz justiça a Green Blood.

Mas, mesmo esquecendo esse aspecto, há que se mencionar que, com uma estrutura de sete capítulos, esse primeiro volume do mangá sofre de momentos expositivos em demasia, além de ser muito visível a natureza episódica da série. Cada capítulo se fecha em si mesmo e conta uma pequena história, o que avança a trama um pouco a solavancos. Somente os dois finais apresentam uma nova situação que terá consequências mais para a frente, criando o necessário cliffhanger.

De toda forma, Green Blood é um faroeste “urbano” (algo raro de se ver, na verdade) muito eficiente e difícil de ignorar. Não só revela um excelente trabalho de pesquisa histórica do autor, como permite a ele empregar toda sua deslumbrante arte em preto e branco de alto contraste. Assim como em Hideout, os detalhes são fotorrealistas. Cada ripa de madeira tem nós que saltam aos olhos. Cada ponto de ferrugem da pistola-ceifadeira do Grim Reaper é visto quando ele saca a arma. A chuva é trabalhada como raios laser atravessando a noite escura. É uma daquelas artes que dá vontade de arrancar algumas páginas para enquadrá-las. Como fazer isso é crime inafiançável, resta ao leitor admirar pausadamente uma, duas, três vezes cada páginas, voltando sempre para apreciar cada detalhes.

Que venha o segundo volume!

Green Blood – Vol. 1 (Idem, Japão – 2011)
Roteiro: Masasumi Kakizaki
Arte: Masasumi Kakizaki
Editora (no Japão): Kodansha (2011)
Editora (no Brasil): Editora JBC (dezembro de 2014)
Páginas: 202

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.