Crítica | Guardiões da Galáxia (1969) – Vol. 2

Depois da estreia dos Guardiões da Galáxia em 1969 e de sua utilização ao longo dos 8 anos seguintes nos mais diversos títulos, conforme detalhado em nossa crítica do Volume 1, o grupo cósmico da Marvel ganhou, injustamente, uma diminuição em sua “patente”. Afinal de contas, apesar de ter pulado de título em título desde sua criação, a publicação Marvel Presents foi a casa desses heróis por exatamente 10 números, com histórias muito boas, valendo especial destaque à origem do misterioso Starhawk.

E essa redução em destaque veio com a retirada do grupo de Marvel Presents para que ele passasse a figurar, novamente, como coadjuvante em publicações de outros heróis. Foi assim a partir de dezembro de 1977, quando o grupo figurou até com bom destaque em Thor Anual #6, em uma história independente, mas que serviria de trampolim para a longa Saga de Korvac, publicada em Os Vingadores, do número 167, de janeiro de 1978, até o 181, de março de 1979. Em seguida, porém, o grupo figurou em Ms. Marvel #23, de abril de 1979, em Marvel Team-Up #86 (com o Homem-Aranha), em outubro de 1979 e, novamente (pois essa foi a revista seguinte depois da de origem, em 1969), em Marvel Two-in-One #61 a 63 de março a maio de 1980 e, finalmente, na mesma revista só que no #69, de novembro de 1980, que marcaria a última vez que os heróis seriam vistos por muitos anos.

Como foi feito na última crítica, os comentários abaixo serão divididos conforme as publicações mudam.

Thor Anual #6
(dezembro de 1977)
roteiro: Len Wein, Roger Stern
Arte: Sal Buscema, Klaus Janson

estrelas 3

guardians 2 1 finalExistia uma época na Marvel em que Thor era muito mais humilde em termos de poderes. Apesar de usar seu palavreado semi-shakespeareano que dá vontade de rir (algo que, hoje, ainda bem, foi reduzido ao mínimo), seus poderes não eram lá muito grandes e ele não podia, por exemplo, sobreviver por muito tempo aos rigores do vácuo do espaço. Assim, depois de impedir um assalto aparentemente comum, o Deus do Trovão é arremessado ao futuro e, ato contínuo, é catapultado ao meio do espaço, por um ser envolto em sombras. Os Guardiões da Galáxia, já voando em sua nova nave Freedom’s Lady (nome bem melhor do que “Capitão América”) então, encontram um bloco de gelo com o viking flutuando no espaço e, bem no estilo “Capitão América congelado”, descongelam o coitado.

Imediatamente, Thor reconhece o grupo pelos relatos do Capitão América no encontro com eles (vai gostar de ler relatório assim lá no inferno!) e eles passam a enfrentar Korvac, o ridículo vilão meio homem, meio máquina (literalmente, pois é o torso de um homem conectado com uma “mesa” tecnológica) e seus capangas extra-terrestres. Korvac já havia aparecido uma vez antes em Os Defensores Giant-Size #3, de 1975, e é reutilizado aqui muito mais como um começo de uma história bem maior do que qualquer outra coisa. Afinal de contas, a ameaça de Korvac é risível de tão simples e os Guardiões e Thor não demoram nada para derrotá-lo em uma história com narrativa simples, ainda que eficiente, mas sem qualquer senso de urgência.

A arte de Sal Buscema com Klaus Janson é muito boa nos movimentos e dinâmica dos heróis, ainda que não passe muito disso. A ousadia não existe nessa edição, apenas uma distribuição comum de quadros que, porém, funciona bem para a narrativa básica proposta por Len Wein e Roger Stern.

Os Vingadores #167 a 181 (A Saga de Korvac)
(janeiro de 1978 a março de 1979)
roteiro: Jim Shooter, Roger Stern, Len Wein, Bill Mantlo
arte: George Perez, Sal Buscema, David Wenzel 

estrelas 3,5

guardians 2 2 finalTalvez a crítica da Saga de Korvac devesse figurar em nossa coluna Sagas Marvel, mas a grande verdade é que, considerando que ela antecede a “saga-mãe” Guerras Secretas e que, se espremermos de verdade, de saga mesmo ela não tem nada a não ser a quantidade de heróis envolvidos, é mais conveniente que ela seja inserida aqui, dentro do contexto maior dos Guardiões da Galáxia. No entanto, mesmo levando em consideração esse grupo de heróis, é fácil constatar que eles são relegados a meros “extras” dentro de um imbróglio maior com muita gente e extremamente bagunçado. Na verdade, os Guardiões da Galáxia são, apenas, o estopim para a história, com pouquíssima presença em seu miolo, voltando a participar ativamente da história somente mais para o final.

Mas vamos à história. Korvac desapareceu ao final de Thor Anual #6, comentado acima. Mas os Guardiões foram atrás e essa perseguição os levou ao século XX (onde mais?) e em órbita da Terra, com sua gigantesca base espacial Drydock. Depois de serem invadidos pelos Vingadores, com um grupo inicial formado por Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Fera, Feiticeira Escarlate, Visão e Magnum, há o clássico desentendimento inicial até que Thor e o Capitão param a luta por, evidentemente, reconhecerem os heróis. Eles explicam que Korvac, aparentemente, fugiu para o século XX e que ele deve estar atrás da versão mais nova de Vance Astro (que vimos em Os Defensores) para matá-lo e, com isso, impedir a formação dos Guardiões no futuro e, claro sua derrota. Típica história de viagem no tempo e seus paradoxos, mas que, ao longo da longa narrativa, toma contornos bem mais complexos.

Bem, dito isso, como os Guardiões sabem que a presença dos dois Vance Astro na Terra causam distúrbios espaço-temporais, o Vance adulto fica na base, em órbita da Terra e os demais partem para vigiar o jovem Vance para salvá-lo de Korvac. Não me perguntem como um cara todo feito de rocha cristalina, outro todo azul e uma mulher de pele cinza e com cabelos de fogo conseguem se “disfarçar” para fazer essa vigília; apenas aceitem essa impossibilidade. Starhawk, por sua vez, tem um interessante embate “cósmico-psicoloógico” com um novo Korvac, super-poderoso, agora chamado apenas de Michael, e ele perde, sendo morto e reconstituído completamente pelo semi-deus, só que sem a memória do que ocorreu.

Acontece que, a partir daí, os Guardiões da Galáxia desaparecem completamente da narrativa e todo o foco recai nos Vingadores que, no lugar de procurarem Korvac, preferem cuidar dos seus próprios casos. E o que vemos é um desfile longo de missões dos Vingadores que, aos poucos, vão tendo seu número aumentando por alguns outros heróis, como a Ms. Marvel, Vespa, Jaqueta Amarela (uma das várias personas de Hank Pym e a que mais gosto) e Gavião Arqueiro. Eles enfrentam bandidos como o ridículo Porco Espinho, Jocasta, Ultron, o Colecionador e, claro, o chato do agente governamental Henry Peter Gyrich, talvez o pior de todos eles. Os Guardiões ficam em 15º apenas e isso até o #175, quando Korvac volta a ser o foco.

Korvac é, sem dúvida alguma, um vilão interessante. Com enormes poderes, ele é capaz de ficar invisível perante todas as entidades omniscientes da Marvel, incluindo Odin, o Vigia e até a Enternidade. O que vemos, em seguida, é uma batalha de proporções épicas, envolvendo um número enorme de Vingadores e todos os Guardiões da Galáxia que são literalmente quase que totalmente mortos. Evidente que as coisas “voltam ao normal” ao final, mas a ambivalência do vilão, sua amante Carina (filha do Colecionador) e a complexidade de sua personalidade valem o esforço da leitura quando o foco volta integralmente para ele. A tragédia de Korvac o transforma em um personagem quase único dentro da galeria de vilões da Marvel e ele realmente poderia ter ganho uma saga mais focada.

A arte varia muito por toda a saga, co George Perez iniciando os trabalhos com seus desenhos detalhados e com ótima profundidade. Sal Buscema e David Wenzel também fazem bons trabalhos, ainda que menos impressionantes.

Ms. Marvel #23
(abril de 1979)
roteiro: Chris Claremont
arte: Mike Vosburg

estrelas 3

guardians 2 3 finalOs Guardiões e sua gigantesca base espacial Drydock continuam no presente depois da Saga de Korvac. Com isso, Ms. Marvel é levada para lá depois que é enganada por Salie Petrie, amiga sua que é controlada por um antiquíssimo inimigo marveliano chamado The Faceless One.

Chegando lá, Carol Danvers se junta a Vance Astro na luta contra esse inimigo em uma história de dupla que surpreende pela química entre os heróis, ainda que sua resolução seja simplista. Mas, como número solto, Ms. Marvel #23 funciona bem, reapresenta um vilão tirado lá do fundo do baú. Nada memorável, nada especial, mas é sempre bom ver uma dupla inusitada funcionando bem. É claro que estamos falando de um roteiro de Claremont em seu auge, o que ajuda bastante.

Marvel Team-Up #86
(outubro de 1979)
roteiro: Chris Claremont
arte: Bob McLeod

estrelas 3

guardians 2 4 finalUnindo uma trama leve de espionagem com traços característicos do Homem-Aranha, especialmente suas piadinhas e sua, digamos, baixa auto-estima, Claremont monta uma história divertida com o aracnídeo e parte dos Guardiões da Galáxia: Starhawk, Nikki e Martinex. Assim como no número comentado acima, de Ms. Marvel, não há nada particularmente especial aqui, apenas uma aventura descompromissada, unindo heróis improváveis.

Mas, novamente, assim como no caso de Ms. Marvel, essa união funciona bem com o roteiro de Claremont que, apesar de fazer o básico – desentendimento inicial seguido de união e derrota dos vilões (Hammer e Anvil) – sempre escreveu muito bem, com diálogos criativos e que prendem a atenção. Bob McLeod é o “desenhista convidado” e ele consegue uma dinâmica de ação muito boa, digna de uma história como essa que é literalmente voltada unicamente para a aventura.

Marvel Two-in-One #61 a 63
(março a maio de 1980)
roteiro: Mark Gruenwald
arte: Jerry Bingham

estrelas 4,5

guardians 2 5 finalContando apenas com a presença de Starhawk dos Guardiões, essa breve trilogia na revista Marvel Two-in-One é surpreendentemente densa. Trata-se de uma aventura verdadeiramente cósmica da Marvel, contando com a misteriosa presenta de Ela, a contra-partida feminina de Adam Warlock em busca de seu amado. Para isso, ela sequesta Alicia Marsters, a cega namorada de Bem Grimm, pois ela teria sido a última pessoa a “ver” Warlock. É claro que Grimm não gosta nada disso e sai em perseguição de Ela e, no meio do caminho, passa a contar com a ajuda de Starhawk, que havia sentido o nascimento de Ela.

Os dois, então, partem para encontrar o Alto Evolucionário, “pai” de Warlock, mas ele está morto. A Serpente da Lua também ajuda Ela e Marsters e o conflito inicial acaba, como sempre, em uma aliança bem construída de todo esse grupo, inclusive do Alto Evolucionário, que é ressuscitado pelos poderes combinados de Ela e Serpente da Lua. Na verdade, o grande deslocado nessa história toda é o Coisa, que não tem muito o que fazer a não ser ser nosso interlocutor para a obtenção de explicações pseudo-científicas do Alto Evolucionário. Mas, apesar de ser muito expositivo, o texto de Mark Gruenwald é leve e, saindo da boca de pedra do gigante alaranjado, tudo fica mais engraçado, apesar da solenidade que os demais personagens emprestam à trama.

Nessa altura da história do Universo Marvel – estamos falando de 1980 – Adam Warlock estava morto há algum tempo e esse conhecimento pelos leitores torna tudo muito mais trágico. Afinal, todos sabemos que Ele (que viria a se tornar depois Warlock) foi criado para ser uma figura de Jesus Cristo na Marvel, com enormes sacrifícios pessoais pelo bem de toda o universo. Essa proximidade com o conto bíblico não é nada discreta, aliás, pois Warlock chega a ser literalmente crucificado em uma de suas aventuras. A criação de Ela, sua versão feminina, apesar de um tanto forçada, funciona organicamente e faz sentido – dois opostos, macho e fêmea e por aí vai – e a presença de Starhawk, Serpente da Lua e do Alto Evolucionário, além de uma raça extraterrestre, dá peso ao trabalho de Gruenwald e até mostra que talvez houvesse material suficiente para uma verdadeira saga se a narrativa fosse expandida por mais um ou dois números.

A arte de Jerry Bingham é excelente em termos de detalhamento e de passar a imensidão do cosmos e da aventura para os leitores. Ele trabalha bem as feições de cada personagem e mostra grande criatividade no uso de quadros dentro de quadros para contar a história e para expor os flashbacks necessários. O resultado final é uma inusitada combinação de ótima história com ótima arte encontrada em uma publicação improvável.

Marvel Two-in-One #69
(novembro de 1980)
roteiro: Mark Gruenwald, Ralph Macchio
arte: Ron Wilson

estrelas 5,0

guardians 2 6  finalBelo e melancólico é a última aparição dos Guardiões da Galáxia por 10 anos. Uma espécie de “final” digno dos heróis criados lá atrás por Arnold Drake e Gene Colan.

Apesar de todo o grupo aparecer na história, o grande destaque é mesmo em Vance Astro, o mais fascinante deles. Afinal, ele é o homem que, em 1988, viajou em animação suspensa por 1.000 anos apenas para descobrir que uma forma de viagem mais rápida foi descoberta e que todo seu esforço como astronauta foi em vão. Durante a Saga de Korvac, tratada acima, todo o objetivo era justamente salvar o jovem Vance Astrovik das garras de Korvac. Mas o Vance adulto ficou em órbita. Agora, com todos os preparativos na base espacial Drydock prontos para eles voltarem ao século XXXI, Vance desaparece e vai visitar sua versão mais jovem. Starhawk e os demais Guardiões, então, pedem ajudam do Coisa e do Quarteto Fantástico para achar Vance e para evitar que a alteração no espaço-tempo causado pela presença simultânea dos dois Vance destrua o mundo.

Em princípio, essa decisão do Vance adulto trai tudo o que vemos na Saga de Korvac, mas Gruenwald e Macchio fazem um roteiro redondo, literalmente capaz de explicar, de forma bastante razoável, o porquê de isso não ocorrer da maneria que todos esperavam. E as duas conversas do Vance adulto com sua versão adolescente são de cortar o coração, com Vance adulto tentando, de toda forma, impedir que sua versão mais nova se torne astronauta e passe por tudo que ele passou.

Considerações de paradoxo temporal à parte, a narrativa flui muito bem, mesmo com a ausência de qualquer inimigo evidente. Aqui, a história é unicamente sobre a relação dos dois Vance e nada mais. Uma forma de ao mesmo tempo nos despedirmos dos Guardiões e da Marvel sacramentar a ideia de que o futuro deles é realmente em outro universo, um universo apenas possível, não sendo o futuro da chamada Terra-616, o Universo Marvel “normal”.

Uma grande história, uma excelente despedida (até a volta dos Guardiões, claro!).

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Guardiões da Galáxia (1969) – Vol. 2 (Guardians of the Galaxy: Tomorrow’s Avengers – Vol. 2)
Conteúdo: vide capítulos acima
Editora: Marvel Comics
Páginas: 348

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.