Crítica | Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Com Spoilers)

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estrelas 4

  • Obviamente, há spoilers. Além disso, como o texto é longo, peguem um café e relaxem na leitura. Ah, e aqui vocês podem ler a crítica sem spoilers, aqui o Entenda Melhor com todas as referências e easter-eggs do filme, e, aqui, todo o nosso vasto Especial Guardiões da Galáxia.

Continuações que se prezam precisam, ao mesmo tempo, respeitar o filme (ou filmes) que veio antes e oferecer algo que efetivamente justifique sua existência além do potencial faturamento da produtora. Enquanto o primeiro requisito é razoavelmente mais fácil de ser cumprido, o segundo costuma representar o calcanhar de Aquiles de muita coisa que Hollywood derrama nos cinemas do mundo. Para cada O Poderoso Chefão: Parte 2 e Aliens, o Resgate (e, dentro desse mesmo universo super-heroístico, Capitão América 2: Soldado Invernal) há uma miríade de filmes que só existem para servir de caça-niqueis com base no sucesso do anterior, sem trazer nada de novo a não ser, normalmente, mais explosões, mais destruição e mais pancadaria, tornando os espectadores meros zumbis sedentos por “mais, mais, mais”.

O sucesso inesperado da arriscada aposta que foi Guardiões da Galáxia, em 2014, se deveu principalmente a dois fatores: o carisma de seus personagens e uma magnética e irresistível conjunção de imagens e músicas que serviram para cravar o então quase que completamente desconhecido grupo de super-heróis no imaginário popular. Além disso, o filme ainda teve a vantagem de estilhaçar por completo a chamada “fórmula Marvel” (como se só a Marvel que utilizasse fórmulas…), abordando heróis que não são exatamente heróis em um contexto de ficção científica fantástica em formato de ópera espacial. E, lógico, James Gunn, até então um diretor de pouca relevância, demonstrou sua paixão e seu domínio da técnica ao co-escrever e colocar nas telonas o que poderia ser chamado, sem medo de errar, um clássico instantâneo costurado dentro da intrincada rede do sempre crescente Universo Cinematográfico Marvel.

Portanto, uma continuação era absolutamente inevitável e largamente esperada desde que, já nos créditos, a Marvel, em demonstração de confiança completa, afirmou que os Guardiões voltariam. E quem conhece os quadrinhos da Marvel Comics sabe que o lado cósmico da editora, apesar de hoje ser razoavelmente pouco explorado de verdade, é vasto e variado, com personagens cativantes como Nova e Adam Warlock. Havia, assim, muitos caminhos a serem seguidos e é alvissareiro notar que Gunn não teve receio algum em cavar mais fundo ainda no baú de tesouros da editora para trazer personagens inusitados como Ego, O Planeta Vivo e Ayesha (ou Ela, Kismet ou até Parágona, sua versão masculina, como quiserem), criações de 1966 e 1977 respectivamente e que até muitos leitores de quadrinhos desconhecem. E, melhor ainda, Gunn não sentiu – como não deveria mesmo sentir, sob pena de ficar escravo do material fonte – qualquer pudor de mexer, alterar, recriar e fundir histórias e mitologias, criando personagens efetivamente novos, ainda que baseados em criações pré-existentes.

Ao mesmo tempo, Gunn, certamente beneficiando-se de seu cartaz perante o Marvel Studios, ganhou mais liberdade e, com isso, mais confiança e sua continuação acaba sendo o filme do UCM que, desde o sensacional – e injustamente odiado – Homem de Ferro 3,  está mais desconectado desse entrelaçamento fílmico. Não há pontas de personagens de outras obras, não há menções a acontecimentos anteriores que não seja de Guardiões da Galáxia (ok, há uma menção, mas apenas na assombrosa e divertidíssima ponta de Stan Lee) e não há elementos narrativos conectantes ao vasto universo criado pelo estúdio. E antes que achem que escrevo isso negativamente, que fique logo claro: essa é uma muito bem-vinda característica da continuação. No entanto, essa mesma confiança de Gunn o faz cometer alguns erros que, se não são tão graves quanto os de Joss Whedon em Era de Ultron, se fazem sentir aqui de maneira relevante.

E é por eles que efetivamente começarei o mergulho no filme, depois da sinopse.

Uma (Des)Necessária e Breve Sinopse

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Não deveria ser necessário abordar a história do filme aqui, pois esta é uma crítica com spoilers que normalmente leva em consideração que os leitores já assistiram o filme. Mas, como isso não é sempre verdade e como a crítica sem spoilers de nosso editor Guilherme Coral realmente seguiu à risca a regra de não estragar nenhuma surpresa, sacrificando, com isso, detalhes da trama (já leu a fenomenal crítica dele aqui?), senti-me compelido a abordar essa questão aqui, logo de início.

A história começa com o grupo, que fora contratado por uma raça de humanoides dourados chamada Soberanos, lidando com um monstro que deseja “comer” importantes baterias. Encerrada a missão, descobre-se que Rocket não resistira à tentação e ele mesmo furtara algumas baterias, fazendo-os ser furiosamente perseguidos por drones pilotados à distância por Soberanos. Em meio à confusão, Ego, o pai de Peter Quill, aparece e acaba finalmente se reunindo com o filho, levando-o e também a Gamora e Drax ao seu planeta que, como descobrimos, é parte dele mesmo. Rocket e Groot, além da prisioneira Nebulosa, ficam em uma planeta aguardando a volta dos companheiros, quando são atacados pelos Saqueadores liderados por Yondu Udonta, que está novamente atrás de Quill.

Usando narrativas paralelas, o filme progride entre as descobertas no planeta de Ego, um motim dos Saqueadores contra seu capitão, o desejo de vingança contra a irmã por Nebulosa e a sana vingativa dos Soberanos, tudo levando ao aprofundamento do grupo não como colegas de trabalho, mas como uma família disfuncional em meio a ameaças cósmicas de proporções inacreditáveis.

Agora que o “jogo” foi equilibrado, vamos lá para a crítica propriamente dita, começando, como mencionei, pelos aspecto negativos.

Menos Quase Sempre É Mais… 

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Creio ser inegável a conclusão de que James Gunn sucumbe ao aforismo que diz que continuações sempre tentam ser mais exageradas que o original. Há mais piadas, mais gags, mais cores, mais explosões, mais inserções musicais pouco naturais em Guardiões da Galáxia Vol. 2 do que no primeiro filme. Isso pode ser perfeitamente caracterizado já no plano sequência de abertura, protagonizado por Baby Groot (Vin Diesel com um hilário modulador de voz) em primeiro plano e os demais Guardiões enfrentando o monstruoso abilisco em segundo e desfocado plano. A concepção da sequência, vejam bem, é genial e um testamento ao que faz dos filmes da franquia Guardiões da Galáxia serem o que são: diversão descontraída e empolgante, com personagens incrivelmente cativantes.

Mas a brincadeira com a fofura do Grootinho correndo em círculos com a pancadaria comendo solta ao fundo esgota esse artifício ali mesmo. E, por artifício, leia-se a própria versão mirim do personagem arbóreo. Tudo que esperávamos desde aquela sequência dele dançando no vaso quando Drax (Dave Bautista) não está olhando ao final do primeiro filme acontece já nesses primeiros minutos e tudo o que acontece depois, ao longo de toda a projeção, nada mais é do que mera repetição cansativa do tipo “ok, além de ser fofo, o que mais ele faz?”, mesmo que esse pensamento seja mascarado por sucessivos “aahhhs” e “oohhhs”. Ao mesmo tempo, ainda nesta sequência inicial, testemunhamos o uso forçado e fora de contexto da música diegética (precisava mesmo ser diegética?) e pequenos trechos do tipo de interação entre personagens que pontilha o filme do começo ao fim. Drax sendo maior do que a vida, Rocket sendo resmungão, Gamora sendo violenta e Peter, bem, Peter sendo Peter. Nada de intrinsecamente errado aí, mas a intensificação dessas características é palpável, com um infindável conflito verbal no grupo e do grupo em relação a terceiros por praticamente todas as sequências da fita. O que antes era natural e necessário, aqui se torna exaustivo, ainda que ocasionalmente engraçado.

Provavelmente já tem leitor revirando os olhos com minha rabugice, mas duvido que, parando para pensar, não se chegue à mesma conclusão. A questão é unicamente o quanto isso afeta pessoalmente cada um, ainda que a repetição infindável de gags seja um defeito objetivo do filme. Um outro exemplo? A sequência em que Rocket (Bradley Cooper) quase aniquila todos os Saqueadores na floresta. Ela funciona bem nas primeiras vezes em que vemos a superioridade estratégica do guaxinim (guaxinim não!) falante, mas a mesma situação é repetida de novo e de novo e de novo sem que haja um objetivo específico. Afinal, o ponto, ali, era dar início ao motim inadvertidamente fomentado por Kraglin (Sean Gunn, irmão do diretor) contra Yondu Udonta (Michael Rooker) e as armadilhas de Rocket com abuso da câmera lenta estão lá apenas porque podem estar, não porque precisam estar, o que faz uma enorme diferença. O mesmo vale, depois, para as sequências em que o “gravetinho” se mostra incapaz de trazer a crina experimental de Yondu e o mesmo Yondu usa sua flecha controlada por assobio para aí sim exterminar o aparentemente infinito número de Saqueadores de sua nave (e nem falarei da sequência digna de O Máskara nos pulos hiperespaciais de Rocket, Yondu e Kraglin). Percebem o padrão?

Acontece que esses exemplos que levantei nem arranham a superfície, pois, talvez, a questão mais delicada seja a de fundo, a que dá base para a história de pai e filho entre Peter Quill (Chris Pratt) e Ego (Kurt Russell), o Celestial enlouquecido e megalomaníaco. Uma natural consequência da misteriosa abdução de Quill por Yondu quando ele era garoto, logo após a morte de sua mãe e da revelação, por Nova Prime (Glenn Glose) que seu DNA tinha elementos incomuns, a presença de Kurt Russel como um Celestial – Luganenhum é a cabeça de um, estão lembrados? – em forma de planeta é uma ideia louca e muito bem executada de Gunn e que abordarei em mais detalhes adiante. O problema está nos incessantes ecos narrativos dessa premissa em cada um dos integrantes dos Guardiões e até em Yondu. Afinal, o fascinante saqueador de pele azul sente-se abandonado por seu grupo original (falarei mais sobre esse momento explosivamente nerd também adiante) e ainda sofre um motim, além de ter dificuldade extrema de demonstrar seu amor por Peter. Gamora (Zoe Saldana) e Nebulosa (Karen Gillan) passam o filme se bicando por questões familiares de um passado tão remoto quanto trágico. Rocket tem trauma sobre as experimentações que fizeram com ele, algo que seus colegas de profissão não o deixam esquecer e que gera um improvável momento catártico entre ele e Yondu. Drax, ainda que menos afetado por essa linha narrativa, menciona sua mulher e filha (assassinados por Ronan) com uma boa frequência. O único que escapa dessa rotina é mesmo Groot, pois ele é… bem, uma árvo…, digo, um graveto.

E sim, sei que a circularidade e o paralelismo de um roteiro são normalmente vistos como qualidades e não defeitos. Mas, novamente, clico na tecla do “exagero”. Sob a desculpa do conceito de “família” que James Gunn quis esgotar no filme, ele carregou demais na repetição e chega perigosamente a banalizar o assunto com conclusões iguais, simultâneas e felizes para todos (até para Yondu, mesmo com sua morte), quase parecendo uma daquelas séries noventistas de chororô rasgado com finais de arco-íris e unicórnios multicoloridos. Longe de mim pedir algo sombrio e pesado, especialmente aqui, em uma comédia de ficção científica, mas, ao criar narrativas paralelas basicamente idênticas, Gunn acaba por retirar força do conjunto, tornando o cerne – Ego e Peter – algo que só é mais importante que o que está ao redor, pois qualquer coisa com Kurt Russel é mais relevante do que todo o resto.

O resultado é um filme inchado, que precisa durar 136 minutos para fechar tudo apropriadamente. Lógico que, porém, quem reparou na quantidade de “estrelas” que dei ao filme lá no começo, sabe que este não é o final dessa conversa aqui.

Mas “Mais” Pode Ser Bom

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A liberdade de James Gunn trouxe vantagens também. Desde o começo do projeto do Universo Cinematográfico Marvel, o estúdio – que ainda nem existia de verdade – não tinha à sua disposição os personagens mais famosos da editora, ou seja, o Homem-Aranha e os X-Men, o primeiro licenciado para a Sony e, os segundos, para a Fox. Esse aspecto foi altamente positivo para a criatividade do material colocado nas telas (como pude abordar no primeiro Plano Polêmico do site) e permitiu riscos que continuam sendo assumidos até hoje, como o recente Doutor Estranho, por exemplo.

E, em Guardiões da Galáxia Vol. 2, essa ousadia e destemor em se aprofundar no infindável catálogo de personagens da editora ganha outros contornos, com a introdução de ninguém menos do que um personagem que é um planeta inteiro (“ah, mas não maior do que a lua da Terra…”), ainda que seja sua manifestação humana – se Kurt Russell for humano! – a convenientemente predominante. Bebendo da fonte dos quadrinhos, Gunn recriou o personagem e, no lugar de ele ser apenas isso mesmo, um completamente improvável planeta inteiro, temos um Celestial solitário e sem objetivo na vida querendo dominar o universo com sua “semente”. Mesmo com o conceito dos Celestiais sendo apenas resvalado no primeiro filme e com a explicação sobre o que eles são ser mais do que econômica na continuação, o fato é que a apresentação de uma entidade cósmica nessas proporções não parece deslocada ou irrazoável.

Tudo é uma questão do quanto se exige da suspensão da descrença do espectador. Considerando o que o UCM trouxe até agora e o que o próprio primeiro filme do grupo apresentou – um guaxinim e um pato falantes, um cachorro com roupa de cosmonauta soviético, uma cidade espacial dentro da cabeça de um ser gigantesco e, claro, a derrota do vilão com o uso desleal e imoral do dance-off – não é nenhuma surpresa que um ser desse nível de poder seja utilizado em sua plenitude de maneira crível e lógica dentro da narrativa. Aliás, considerando a atuação realmente de abocanhar cenários – ou chroma keys – de Russell, com toda sua canastrice sendo muito bem utilizada, com lampejos ao mesmo tempo de Jack Burton e de Snake Plissken, mas formando um personagem único e carismático, não seria demais afirmar que seu Ego é um dos mais interessantes vilões do UCM até agora, notadamente por sua relação muito próxima a um de seus heróis mais inusitados, Peter Quill, o Senhor das Estrelas, ele mesmo um órfão espacial e que mesmo nos quadrinhos procura (ou procurava) seu pai biológico.

Outra personagem que ganha bons momentos é Mantis, vivida por Pom Klementieff, uma empata insetoide que funciona como uma ajudante de Ego e a ponte necessária com os demais heróis, já que Peter é monopolizado pelo pai. Personagem antiga dos quadrinhos, introduzida inicialmente na mitologia dos Vingadores em 1973, sua presença, aqui, não é nem de longe aleatória, já que ela é parte integrante da reformulação dos Guardiões feita por Andy Lanning e Dan Abnett a partir de 2006. Portanto, legado respeitado ao mesmo tempo que temos uma personagem com potencial futuro apresentada com função narrativa clara e que faz um inadvertido par cômico com Drax.

Alguns poderiam arguir que a ponta de Sylvester Stallone como Stakar Ogord (o Starhawk da formação original dos Guardiões da Galáxia – descubra tudo sobre o grupo original aqui) é intrusiva e apenas um fan service inconsequente. E, mesmo como grande admirador justamente da versão original dos Guardiões, minha primeira reação foi exatamente essa, a de que a inclusão dele e também de Martinex T’Naga (o ser de “diamantes” vivido por Michael Rosenbaum, que também é um Guardião original) no meio do filme e não só na cena de meio de créditos, foi atabalhoada e completamente desnecessária. Mas, fazendo um esforço para interpretar o filme como alguém que não reconhecesse Stakar logo de cara, a conclusão que chego é que, ainda que seja mesmo um inegável fan service, a grande verdade é que sua função, ali, é apenas mostrar que Yondu Udonta (também, nos quadrinhos, membro original dos Guardiões da Galáxia), um dia fizera parte de uma outra equipe de Saqueadores, sendo expulso do grupo. E, se o restante do grupo pode ser formado por personagens retirados também dos quadrinhos, tanto melhor se não houver – como não houve – uma paralisação da narrativa para a inserção de elementos estranhos e externos à ela.

Agora falando dos personagens já conhecidos do público em geral, mas que ganharam mais relevância na continuação vê-se um grande acerto de James Gunn em trabalhar justamente Yondu Udonta. Sua personalidade abrasiva e dura com Peter já demonstrava algo mais complexo do que só uma relação “profissional” entre os dois e o desenvolvimento, na continuação, foi muito bem explorado, tornando o sacrifício do personagem, ao final, algo que efetivamente tem valor e não apenas uma morte qualquer que será esquecida assim que os créditos começarem a rolar. Michael Rooker, no referido papel, diverte ao mesmo tempo que toca profundamente a plateia, por vezes competindo com Kurt Russell pelos holofotes.

Curiosamente, Drax ganha praticamente todos os momentos cômicos realmente cômicos do filme. E digo “curiosamente”, pois, para alcançar esse resultado, Gunn reduziu a presença física – em ação – do personagem, substituindo-as por improváveis diálogos e tiradas que Dave Bautista simplesmente encaçapa de primeira, tirando risos da plateia pelo quão genuíno ele consegue ser. Sua mera presença rindo como se fosse cuspir os pulmões pela boca já é suficiente para ganhar destaque durante a projeção.

E eu usei “praticamente” no parágrafo anterior, pois não poderia deixar de mencionar o protagonismo de Rocket em um dos momentos mais hilários da obra, em que ele, diminuto e preso a uma cadeira, esculhamba o gigantesco Taserface (Chris Sullivan) por causa de seu nome. Essa sequência é uma daquelas que “para a narrativa”, mas sua construção é boa e estabelece bem a personalidade um tanto quanto auto-destrutiva de Rocket ao mesmo tempo que é realmente engraçada e merecedora do “palco”.

Ainda Que o Importante Seja a Qualidade

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O “exagero” positivo de James Gunn também se faz presente na fotografia de Henry Braham, que assume o posto que fora de Ben Davis (que também trabalhou em Doutor Estranho). Braham, na verdade, parece usar o melhor dos dois mundos (e não, não é um trocadilho com a presença vocal de Miley Cyrus no filme – ou será que é?), primeiro pegando a paleta de cores quase epiléptica de Davis e expandindo-a enormemente sem que, com isso, cause uma overdose. Há uma qualidade lisérgica no trabalho resultante, mas que mantém a fita fortemente galgada na ficção científica ao mesmo tempo que deixa o espectador sedento por mais, jamais cansando-o de verdade. Talvez seja o limite do que um sci-fi pode ser sem descambar completamente para a fantasia.

E o desenho de produção acompanha essa sensação. O mundo de Ego tem personalidade, mas mantendo-se um quê de ameaça escondida que não sabemos exatamente colocar o dedo. Um paraíso para todos os efeitos que deslumbra ao mesmo tempo que nos leva à desconfiança, especialmente na medida em que nos aprofundamos no suntuoso palácio e nas terras desérticas ao redor.

Por outro lado, há uma pegada cômica em tudo relacionado aos Soberanos. Caracterizado por seu um povo que redefine o adjetivo arrogante, a brincadeira da produção vai desde a pele carnavalesca “globeleza” pintada de dourado, passando pelo trono de Ayesha (Elizabeth Debicki) que se funde ao seu espalhafatoso figurino, até os pods em que seus pilotos comandam os drones no estilo StarFox 64, com efeitos sonoros que reiteram esse aspecto (ainda que a lógica de drones controlados remotamente para a guerra seja perfeita, há que se admitir).

Complementando e realizando o design, o uso incessante do CGI poderia ter atrapalhado a experiência, mas o resultado das diversas equipes que trabalharam na construção dos mundos e dos personagens digitais – Martinex e Krugarr, aquele ser lagartoide vermelho que faz parte da equipe de Stakar e que aparece na cena pós-créditos, além de Baby Groot e Rocket, lógico – é estupendo em cada detalhe exagerado, em cada tomada geral do planeta de Ego até a minúcia da maquiagem digital de Mantis. E, por cima disso tudo, há o espantoso rejuvenescimento de Kurt Russell no prólogo em 1980 na Terra, um trabalho digital que consegue ser ainda superior ao feito com Michael Douglas em Homem-Formiga ou Robert Downey Jr. em Guerra Civil e que só me deixa ainda mais confuso pelo fato de que o mesmo resultado não tenha nem de longe sido alcançado com Carrie Fisher em Rogue One.

A direção de Gunn também ganha um ar ousado. Ele se solta um pouco das amarras mais formais de uma história de origem – ou reunião de grupo – para experimentar um pouco. Como mencionei antes, ele não consegue chegar ao ponto de equilíbrio, mas ele tenta e, mesmo que falhe muitas vezes, seu clímax no centro do planeta de Ego é um grande acerto, quase como a versão intergalática e tresloucada do baile de O Leopardo, em que somos levados de um lado a outro sem que percamos o fio da meada e sem nos cansarmos completamente do vai e vem aventuresco e colorido. É nesse ponto que Gunn mostra que, apesar de muitas repetições, ele realmente tinha um plano bem definido de convergência narrativa e resolve quase todas as pontas ali mesmo, na pancadaria incessante em tela verdade que, só de imaginar como isso deve ter sido filmado, fico com dor de cabeça.

Falar da seleção musical de Gunn é também chover no molhado. Mesmo que a inserção diegética das músicas seja desnecessária e muito forçada na maioria das vezes, é de se admirar o apuro quase tarantinesco na escolha das canções que representam e comentam a narrativa a todo o tempo, com especial destaque para a inteligente sequência em que Ego usa a letra de Brandy, do Looking Glass, para terminar de encantar seu filho com suas histórias de pescador. O Awesome Mix Vol. 2 é, possivelmente, ainda melhor do que o Vol. 1, mas esse é um debate em que não pretendo entrar.

O que quero ressaltar mesmo é a trilha orquestrada e composta para o filme por Tyler Bates, que volta com sua parceria com Gunn. Ele retorna aos motifs que utilizou no primeiro filme e os expande, trabalhando versões melódicas de suas próprias composições e criando outras para caracterizar Ego e Baby Groot, além de alguns acordes para Stakar, que dão uma excepcional fluidez sonora ao filme, criando “pontes” entre as canções selecionadas por Gunn e ganhando vida própria mesmo em meio à profusão dos efeitos sonoros.

E, Depois Desse Blá, Blá, Blá…

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Ufa! Chegaram até aqui? Então calma que falta pouco agora.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um filme que ameaça sucumbir da grave ameaça da “continuite”. James Gunn seleciona seus momentos best-sellers do primeiro filme e os multiplica como coelhos usando Viagra. Não é o mesmo tipo de problema que vemos em continuações de Michael Bays da vida, em que o importante é montar a sequência com cortes não mais longos do que 1 ou 2 milissegundos e pipocá-la de explosões, uma maior do que a outra. Aqui, a questão é outra. É usar o que deu certo na caracterização dos personagens e amplificar cada característica em progressão geométrica, que periga levar a coisa toda à banalização. Até mesmo o artifício das sequências pós-crédito ganha uma pegada desmedida aqui, com cinco dessas cenas, ainda que apenas uma realmente estabeleça a linha narrativa para uma vindoura – e já anunciada – segunda continuação, desta vez muito provavelmente finalmente introduzindo Adam Warlock, a figura de Jesus Cristo da Marvel, em oposição aos Guardiões.

Acontece que James Gunn parece ter consciência disso e, ao mesmo tempo em que alimenta o estúdio com o que ele exige (o “mais, mais, mais!”), insere suficientes momentos muito bem trabalhados e novos e cativantes personagens, além do aprofundamento de alguns pré-existentes para tornar a continuação plenamente justificada e, melhor ainda, completamente separada do universo maior em que está inserida ao mesmo tempo que, ironicamente, amplia o universo dentro do filme. É como uma competição de cabo de guerra em que cada centímetro cedido pelo diretor à pressão do estúdio, ele cobrasse alguns milímetros a mais de liberdade o que, no agregado, eleva a sequência a algo que, ainda que não chegue ao nível de Capitão América 2 ou Homem de Ferro 3 (somente para citar continuações no UCM, claro), se sustenta sobre seus próprios alicerces e prende a atenção do espectador.

O que fica provado é que o lado cósmico da Marvel é cheio de potenciais surpresas que precisam ser alvo dos holofotes do estúdio em seu futuro pós-Vingadores 4. Há um universo inteiro esperando para ser explorado e essa versão dos Guardiões é como se fosse apenas o aperitivo. Um delicioso, envolvente e quase pecaminoso aperitivo, mas ainda um aperitivo daqueles que abrem o apetite para mais.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2, EUA – 2017)
Direção:
James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone, Kurt Russell, Elizabeth Debicki, Chris Sullivan,  Sean Gunn, Tommy Flanagan, Laura Haddock, Miley Cyrus, David Hasselhoff, Stan Lee, Ving Rhames,  Michael Rosenbaum, Michelle Yeoh
Duração: 136 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.