Crítica | Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Sem Spoilers)

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estrelas 4,5

  • Leiam, aqui, a crítica com spoilers e, aqui, o Entenda Melhor com todas as referências e easter-eggs do filme.

Antes do primeiro Guardiões da Galáxia ser lançado, o grupo era certamente um dos mais obscuros da Marvel e tinha passado, há menos de dez anos, por uma completa reformulação, pelas mãos de Andy Lanning e Dan Abnett, que os transformaram em uma das publicações mais hilárias da editora. Lembro-me claramente de inúmeras pessoas não colocando nenhuma fé em um filme com um guaxinim falante e uma árvore ambulante, enquanto eu tinha de dar esperanças ao filme, já que, graças ao insano especial que realizamos no site à época, passei a amar o grupo, torcendo para que, ao menos, doze por cento da essência dos quadrinhos originais fossem transpostos para a adaptação cinematográfica. Felizmente, o filme superou todas as expectativas, tornando-se um dos melhores do Universo Cinematográfico Marvel.

James Gunn, portanto, foi de zero a herói e, é claro, isso colocaria em seu colo a enorme responsabilidade de dirigir uma sequência que fosse, pelo menos, tão boa quanto o original. Seria injusto, porém, colocar no realizador a culpa de um possível “fracasso” (em aspas, pois não existe a menor possibilidade do filme não fazer toneladas de dinheiro), já que a Marvel Studios exerce um controle gigantesco sobre suas produções, o que acaba ocasionando a famigerada “fórmula Marvel” que tantos reclamam e de que o primeiro longa dos heróis cósmicos conseguiu escapar. Além disso, cabe a Guardiões da Galáxia Vol. 2 demonstrar-se com uma continuação que se sustenta por conta própria, não sendo apenas uma repetição do que veio antes, o que é, infelizmente, mais do que comum quando se trata de comédias.

Após o inusitado grupo se unir para combater Ronan e seus lacaios, encontramos novamente Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (voz de Vin Diesel) realizando um serviço em um planeta. Quando tudo dá errado, eles são forçados a escapar às pressas e, nesse processo, acabam encontrando o pai de Peter (Kurt Russel). Quill precisa, então, conhecer essa figura paterna e lidar com o seu passado que há tanto tempo deixara para trás enquanto todos eles têm de combater uma nova ameaça que se apresenta.

O que mais diferencia esse Vol. 2  de seu antecessor é a maneira como o filme trabalha cada um de seus personagens. Enquanto a obra anterior tinha o foco maior na construção da equipe e na maneira como deveriam derrotar Ronan, este explora os integrantes dos Guardiões de maneira mais íntima, garantindo a cada um deles um arco pessoal diferente. Evidente que Peter é aquele que recebe a maior atenção, devido à aparição de seu pai, mas é gratificante enxergar como o roteiro de James Gunn se preocupa com os outros, dando-lhes o necessário tempo em tela para termos a noção de que esse é um filme sobre o grupo e não um indivíduo em específico.

Com isso, ganhamos algumas gratas surpresas, como uma participação maior de Yondu (Michael Rooker) e Nebulosa (Karen Gillan), que permaneceram mais em segundo plano no primeiro filme. A apresentação de Mantis (Pom Klementieff), também, é um ponto a mais para Gunn, que extrai outros elementos dos quadrinhos originais, adotando o conceito de que a formação dos Guardiões está em constante movimento, o que, naturalmente, permite uma maior renovação das histórias, possibilitando que variados enredos sejam explorados. Dito isso, é realmente impressionante constatar como nenhum desses indivíduos é esquecido ao longo da projeção, por mais que sua duração seja um pouco maior do que a do longa anterior.

Não são somente os “mocinhos” que recebem a devida atenção. Os diversos antagonistas também são cuidadosamente construídos ao longo da narrativa, com belas justificativas para fazerem o que fazem (algumas dessas verdadeiramente hilárias). Aqui, devo dizer que Guardiões da Galáxia Vol. 2 acerta em cheio na ameaça combatida pelo grupo principal, sendo facilmente uma das melhores de todo o Universo Cinematográfico Marvel, já que o maior tempo em tela desse elemento faz com que reconheçamos as nefastas ambições dessa figura, que, ainda, dialoga perfeitamente com o drama pessoal dos personagens principais. É a velha história: dessa vez é pessoal.

Em muitos aspectos, esta continuação nos remete a O Império Contra-Ataca, não pela revelação “eu sou seu pai”, mas sim pela maneira como a narrativa é estruturada. Ao dividir a equipe, trabalhando cada um deles em sequências diferenciadas, o roteiro se permite uma maior profundidade e, aos poucos, vamos enxergando como todos os eventos afunilam para um mesmo ponto, fazendo-nos enxergar o quão bem amarrada é toda a história do filme. Mesmo Baby Groot, definitivamente a figura mais “fofa” de todos os tempos, com suas capacidades reduzidas, desempenha um papel ativo, entregando gags muito bem inseridas, que, junto do restante da comédia do longa, criam um belo equilíbrio entre drama e humor – afinal, esse é, sim, um filme de comédia (basta olhar para os pôsteres para perceber isso).

Essa mistura homogênea se faz presente, também, na trilha, especificamente no Awesome Mix Vol. 2, que se faz presente, de novo, diegeticamente, o que proporciona um dos melhores momentos do filme, quando Kurt Russel, digo, pai de Peter, analisa as letras de uma canção. Existe, porém, um certo exagero para forçar que tais músicas estejam presentes no filme, com Rocket mais de uma vez pedindo para que sejam tocadas, mas nada que atrapalhe muito a narrativa. É preciso notar que o tom dessas canções dialogam com o da própria história, algumas assumindo o saudosismo, a melancolia ou animação, fornecendo um peso a mais às sequências da obra.

Já falando disso, Gunn acerta em cheio em sua direção e fica bastante claro que ele ganhou maior liberdade aqui, construindo verdadeiras loucuras, some crazy shit, como diria Quill, que são colocadas em tela sem excessivos cortes, que dificultam o entendimento do espectador. Assim como no primeiro filme, tons vibrantes tomam conta da imagem, garantindo o fascínio por esse lado cósmico da Marvel. Só sentimos um exagero maior no clímax, que poderia ter dispensado alguns desses excessos a fim de explorar melhor o lado mais íntimo do filme. No caso do 3D, ele não traz nenhuma grande mudança notável e a obra pode, sim, ser aproveitada sem ele.

Tudo isso, porém, não seria possível sem os esforços de cada um dos membros do elenco. Chris Pratt, com mais peso nos ombros, resume perfeitamente a dor dentro de si, as diversas memórias de seu passado e o simples fato de ter que lidar com seu pai, que torna sua jornada pessoal verdadeiramente árdua. Mesmo que o texto seja mais dramático, Pratt ainda consegue arrancar várias risadas simplesmente pela forma como fala. Dave Bautista, porém, é, de longe, o mais cômico do grupo, estando claramente mais solto em seu papel, que, agora, é melhor trabalhado pelo roteiro. Michael Rooker, do outro lado, aumenta a gravidade da história em uma jornada mais íntima, que dialoga com a de Peter.

Zoe Saldana, por sua vez, demonstra uma personalidade mais aberta, não dispensando, é claro, as características principais de sua personagem. Já Bradley Cooper, como Rocket, é a personificação da pessoa que esconde os sentimentos e está claramente mais a vontade no papel de dublador. Evidente que o eterno Snake Plissken, Kurt Russel, consegue roubar todas as sequências em que aparece, sendo capaz de nos entreter somente com suas expressões faciais. Pom Klementieff, como Mantis, traz um ar de mistério e retoma a mesma sensação que tivemos quando os personagens foram apresentados na obra anterior. Além disso, suas habilidades certamente abrem ótimas novas possibilidades, que, inclusive, são utilizadas a fim de alavancar a narrativa para a frente. Acima de tudo, é gratificante enxergar como todos eles contam com uma indiscutível química, algo que apenas se fortaleceu desde o longa-metragem anterior.

Com a união desses elementos, podemos dizer, felizmente, que fugir da culpa por uma qualidade reduzida em relação ao primeiro filme não será necessário, já que Guardiões da Galáxia Vol. 2  consegue manter-se no mesmo nível do original, enquanto explora caminhos diferenciados, mantendo, é claro, o característico humor escrachado herdado das páginas de Lanning e Abnett. James Gunn e a Marvel acertam novamente, proporcionando-nos uma experiência que equilibra bem a característica comédia dos Guardiões com bem construídos dramas pessoais, a partir do aprofundamento nesses diversos personagens. Mais uma vez o grupo prova ser uma das melhores peças do Universo Cinematográfico Marvel.

Ps.: O filme conta com nada menos do que CINCO cenas pós-créditos; portanto fiquem até o fim da projeção.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2) — EUA, 2017
Direção:
James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone, Kurt Russell, Elizabeth Debicki, Chris Sullivan,  Sean Gunn, Tommy Flanagan, Laura Haddock
Duração: 136 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.