Crítica | Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Sem Spoilers)

estrelas 4,5

“Existem dois tipos de seres no universo: aqueles que dançam, e aqueles que não dançam.”

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Quando Uma Nova Esperança foi lançado nos cinemas, em um longínquo ano de 1977, George Lucas não tinha a mínima ideia da importância cósmica que suas histórias, seus planetas e seus personagens teriam para toda a cultura popular. Em uma época mais simples, onde a tal space-opera tinha apenas o título de Guerra nas Estrelas, o mundo estava prestes a conhecer um produto revolucionário, parte de uma onda de filmes destinados a acabar com a Nova Hollywood e começar um novo ciclo na indústria – ainda em voga nos dias de hoje. Décadas se passaram e os blockbusters, tendo seus prós e contras, ainda ditam os caminhos a serem percorridos pelo cinema americano. Guardiões da Galáxia, dentro do Universo Cinematográfico da Marvel, não tem nada de revolucionário. Os padrões de se fazer cinema não mudaram, muito menos os de se fazer filmes de super-herói. Porém, o longa foi um claro frescor de sagacidade a padrões agressivamente comuns – não os “inventados” pela própria Marvel Studios, dona de um encanto que superou as barreiras de sua estrutura repetitiva, mas os aperfeiçoados por anos e anos de um cinema pipoca. Guardiões da Galáxia, aliás, poderia ser muito bem um filme independente desse chamado universo compartilhado de super-heróis, supergrupos e super-vilões. Quando falamos nos filmes do Homem de Ferro ou do Capitão América, o cerne intrínseco a essas histórias, que nos fazem ficar vidrados a espera do que virá a acontecer, é fortemente dependente do universo compartilhado. Com Guardiões da Galáxia isso não existe, visto que a obra caminha em suas próprias pernas, movimentando-se de acordo com as palavras ditas por ela mesma e mais ninguém. Uma ficção científica escrachada que, nesta sua sequência, prova ser uma das melhores coisas existentes no cinema atual – um desfile exuberante de cores, carisma, graça e alma.

“Mister blue sky please tell us why
You had to hide away for so long (so long)
Where did we go wrong?”

Em um primeiro plano, o cineasta James Gunn não apenas soube tratar uma mitologia inédita de uma forma deslumbrante, como deu charme às suas criações, adicionando faixas musicais antecedentes aos anos 80 que impulsionaram o estilo da franquia, fazendo uma correlação magnífica entre o fantástico e o real. A escolha certeira das músicas não dá apenas significado às cenas nas quais elas aparecem, como molda novos sentimentos em relação a elas mesmas, agora eternamente entrelaçadas com a space-opera mais divertida e apaixonante do momento. A música Mr. Blue Sky, da banda Electric Light Orchestra, estará para sempre marcada na história do cinema pela sua aparição diegética, logo na abertura de Guardiões da Galáxia Vol. 2. A surrealidade dançante de Groot (Vin Diesel), apenas um bebê depois dos acontecimentos do filme anterior que, curiosamente, não se passa muito tempo antes desse em termos cronológicos, casa estupendamente bem com toda a vibração e empolgação de James Gunn neste novo projeto. Aliás, Gunn, um absoluto fã de seu próprio trabalho, é irretocável ao imaginar sequências com teores irrealistas, pautadas na galhofa debochada, onde os mais absurdos são colocados no meio de combates frenéticos de ação, sem quebrar o ritmo desses segmentos como aconteceria em casos de diálogos interrompendo o andamento dos atos. Assim como é configurada a abertura do longa-metragem já comentada, o diretor nos oferece mais alguns momentos que misturam uma musicalidade charmosa, envolvente, com soluções que exalam criatividade. Come a Little Bit Closer embala aquela que é, definitivamente, a mais inspirada das sequências de ação, visualmente belíssima, oferecendo uma visão do “super-poder” de determinado personagem nunca antes vista de modo tão grandioso quanto agora. A batalha final? Exagerada, divertida e contagiante. Um delírio cinematográfico, no melhor dos sentidos.

No meio de tudo isso, cores estampam uma fotografia certeira, que dialoga perfeitamente com efeitos visuais de se encher os olhos, tanto no sentido artístico, estético da coisa, capaz de nos hipnotizar pela beleza dos ambientes, quanto no sentido de uma visão embaçada pelas lágrimas que caem decorrente de risadas irrefreáveis. Inclui-se no primeiro sentido de “encher os olhos”, a criação do planeta estonteante no qual Ego (Kurt Russel) “vive”, introduzido pela linda My Sweet Lord, uma escolha perfeita para a transposição da aura divina necessária. Entretanto, há de se notar que, enquanto visualmente James Gunn acerta em todas as sacadas cômicas, há alguns desvios no roteiro, no texto propriamente dito, que ocasionam leves desconfortos no espectador, visto que em muitos aspectos Guardiões também é um filme dramaticamente poderoso. Se por um lados temos um gag envolvendo o nome de um vilão, provocado incessantemente por Rocket Racoon (Bradley Cooper), por outro temos Sean Gunn atrapalhando um monólogo dolorido de uma certa anti-heroína, comentando sobre o seu passado de mutilações. Muito pouco se perde em valor dramático, é verdade, mas faltou uma coordenação mais adequada do tom, visto que Guardiões Vol. 2, diferentemente de Thor: Ragnarok, buscou concretizar relações humanas, paternais, amorosas e fraternais, mais complexas e, principalmente, mais verdadeiras. Em um outro plano, a presença do fofíssimo Baby Groot, mesmo que explorada apenas em um viés bem humorado, contribui positivamente para a dinâmica cômica das cenas, o que justifica a sua presença, também alavancando a narrativa em termos de possibilidade imagináveis. James Gunn, todavia, sabe mexer corretamente as peças do tabuleiro para que a obra, até nas falhas, não se prenda aos erros, o que possivelmente quebraria construções em andamento. Guardiões tem, dado o que lhe é interno e será dissertado a seguir, capacidade e vigor para ser, num futuro próximo, tão fascinante quanto Star Wars foi, mesmo que nunca seja minimamente tão revolucionário quanto a famosa saga – o que, em sua defesa, seria bem difícil ser.

Sem mais delongas, há de se finalmente comentar sobre a história, sobre a trama que envolve nosso grupo de lunáticos deslocados. Guardiões Vol. II, diferentemente da maioria dos filmes de heróis, não tem nada a nortear seus personagens factualmente senão a ocasionalidade, sem ligar os eventos a uma premissa maior, prontamente preparada para ser digerida. Mesmo assim, é notável a existência de dois núcleos centrais, que dividem a equipe e faz Gunn priorizar uma visão mais intimista de seus personagens, não repetindo o tratamento coletivo feito na obra anterior. Primordialmente, o interesse maior do espectador relaciona-se aos desdobramentos do encontro de Peter Quill (Chris Pratt) com o seu pai, Ego – casting perfeito de Russel para um personagem com camadas e motivações. Do outro lado da história, Yondu (Michael Rooker) está a procura desenfreada pelos Guardiões da Galáxia, o que lhe colocará frente a aliados e inimigos inesperados. Com uma premissa mais “vaga”, Gunn dá a sua história um caráter de estudo, pincelando para todos os personagens, com exceção de Groot, um trabalho avaliativo de suas emoções. Sendo assim, o diretor e roteirista entrega, até mesmo aos coadjuvantes mais inesperados, uma atenção devida, sem os forçá-los a serem meras caricaturas. Gamora (Zoe Saldana) e Nebulosa (Karen Gillan) recebem uma atenção extraordinária e se é encontrada uma crise existencial completamente válida para o “guaxinim” falante, promovendo coerência à aproximação de seu personagem com um outro. Correndo por fora de substanciais desenvolvimentos, mas não deixando de ter novas facetas “humanas” examinadas, Drax, o Destruidor (Dave Bautista), e até a nova adição ao elenco, Mantis (Poe Klementieff), complementam um elenco de figurinhas que James Gunn certamente guarda dentro do seu coração, dado o respeito e o carinho que ele tem ao trabalhar cada uma delas, ora com toques dramáticos amenos, como um certo olhar distante para o horizonte, ora em piadas cansáveis, mas entendíveis dentro do que se é estabelecido para os personagens – a relação entre beleza e feiura feita pelo brutamontes cai como uma luva para um personagem que não enxerga o mundo da mesma maneira que nós.

“The sailor said – Brandy, you’re a fine girl (you’re a fine girl)
What a good wife you would be (such a fine girl)
But my life, my lover, my lady is the sea”

Em um último plano, por baixo da superfície hilária e envolvente, surgem temáticas bem resolvidas sobre dever, humanidade, amor, responsabilidade e amizade. Mesmo com uma trama consideravelmente simples, há um recheio saboroso de momentos imperdíveis, caracterizados pela indescritibilidade ímpar – ora uma recitação de uma letra musical, ora um mero jogo de bola entre pai e filho. De ressalvas narrativas, há um uso de coincidências forçadas para levar determinados personagens a descobrirem determinadas coisas, todos ao mesmo tempo; nenhuma descoberta é realmente importante, apenas conveniente. Mas a carta na manga de James Gunn não é a sua história, e sim a determinação – bem sucedida – dele em manter dois núcleos distintos, presumidamente não correlacionáveis, em um mesmo filme que não perde o vigor uma única vez; a essência, afinal, é espirituosa. Ademais, fazendo esse trabalho minucioso, atento a cada uma das figuras que se revelam de um cenário multicolorido, há espaço para uma credibilidade muito forte, tanto no senso coletivo quanto no senso individual – diferentemente de Esquadrão Suicida e suas relações artificiais. Os olhares preenchidos de sentimento dos personagens, na sequência conclusiva, denotam tudo que é preciso ser denotado para eles, juntos novamente depois de mais uma aventura exaustiva por essa galáxia não tão distante. Finalmente, o segundo volume desta franquia, que tem como protagonista a melhor equipe cinematográfica de heróis, traz um inesperado e tocante discurso paterno que, aliado ao som de Father and Son, redefine nossas concepções emocionais possíveis para um filme de super-herói. Quando é a hora de Guardiões da Galáxia encher os olhos do público mais uma vez, agora de lágrimas, James Gunn guia os seus espectadores de uma forma impressionantemente sincera, verdadeira, encerrando mais um capítulo cheio de virtudes. Eis o universo espetacular que o cineasta apresentou ao mundo; imperfeito, mas também belíssimo, fascinante, engraçado e único.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2) — EUA, 2017
Direção:
James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone, Kurt Russell, Elizabeth Debicki, Chris Sullivan,  Sean Gunn, Tommy Flanagan, Laura Haddock
Duração: 136 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.